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As ironias dos deuses do futebol

Por Juliana Netto

19/12/2019 às 07h10 - Atualizada 18/12/2019 às 21h04

Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas célebres frases, escreveu que se houvesse um deus que regulasse o futebol, esse deus seria sobretudo irônico e farsante, e Garrincha seria um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Obviamente que a temporada não viu um novo Garrincha nos gramados – e dificilmente voltará a ver algum dia -, mas ironia é um adjetivo que, sem dúvidas, se fez muito presente no futebol brasileiro em 2019.

Ironia acompanhada de uma certa dose de imprevisibilidade que, até eu, que tanto gosto de outras modalidades, como as olímpicas, acabo me rendendo ao argumento de que o esporte bretão realmente reserva situações que só mesmo ele é capaz de proporcionar.

Quem apostaria que Abel Braga, grande medalhão nacional, deixaria o cargo no Flamengo, iria para o Cruzeiro e lá, por muito pouco, não seria o comandante da equipe na derradeira derrota que sacramentaria a queda do time mineiro à Segunda Divisão? Aliás, quem bancaria a ideia de que a Raposa, cotada para brilhar em todos os campeonatos da temporada, viveria seu pior ano da sua quase centenária história?

E que Mano Menezes, à frente do time de BH por três anos, chegaria ao Palmeiras e de lá, até então, encerraria a temporada sem clube? E Luxemburgo? Você, caro leitor, imaginaria que o “professô” com passado rubro-negro tiraria o Vasco da zona da degola e, ao salvar o Cruz-Maltino, voltaria ao Palmeiras, quando muitos já davam por finalizada sua trajetória como treinador? E o que então dizer de Jorge Jesus, recebido de forma muito desconfiada, inclusive por esta que vos escreve, para, meses depois, levantar a taça da Libertadores, do Brasileirão e ainda ter chances de chegar ao título mundial no próximo fim de semana? Certamente, até os deuses pensariam ser uma piada de português.

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Bruno Henrique, fora dos gramados em 2018 por conta de um grave problema no olho, e Gabigol, o cunhado do “menino Ney”, deixariam o Santos para brilhar no Rio. Justamente no Flamengo, clube que sempre que tentava conquistar títulos com elencos milionários, virava motivo de piadas. No Fla, que deixaria a brincadeira do cheirinho para o também milionário Palmeiras, cotado a conquistar várias taças, mas pouco eficiente na prática. No mesmíssimo Flamengo, que levaria milhões ao Maracanã. Tal como o Vasco que, ao escapar do descenso, protagonizou uma arrancada histórica no número de seus sócios-torcedores, boom maior até mesmo que seu arquirrival.

E o que dizer dos 5 a 0 sofridos por Renato Gaúcho, até chegar às bandas daqui, com a queda do Tupi, rebaixado no Mineiro e sem divisão do Brasileiro? Carijó rebaixado pelo Cruzeiro, aquele que caiu no Brasileiro. Ironia pura.

No sábado, a cereja do bolo – ou melhor, deste Kinder Ovo chamado futebol – pode vir com uma improvável vitória flamenguista sobre os Reds do Liverpool. Título que seria, por que não, irônico e farsante, uma vez que é notória a disparidade entre o futebol – e as cifras – do Brasil e dos ingleses.

Ironias, todas muito bem elaboradas, pelo deus de Drummond.

Juliana Netto

Juliana Netto

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