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Boxe é coisa de menina. E ginástica, de menino

Por Juliana Netto

12/12/2019 às 07h10 - Atualizada 12/12/2019 às 11h16

Foto: Abelardo Mendes Jr/ rededoesporte.gov.br

“Andaram dizendo que boxe é coisa de menino e ginástica artística de menina… Chegamos para provar que não tem nada disso e quem tem paixão e dedicação pelo que faz pode praticar qualquer esporte.” A partir deste trechinho da legenda e da foto de Beatriz Ferreira ao lado de Arthur Nory, escolhidos pelo COB como os melhores atletas olímpicos do Brasil na temporada, confesso que tive que guardar o texto da coluna desta semana, que já estava no gatilho, para a próxima quinta. Por mais que tentei não repetir o assunto Bia, a primeira postagem pós-premiação feita pela pugilista baiana, radicada em Juiz de Fora, me fez mudar os planos.

Uma legenda forte, certeira e exemplar, tal como os golpes que deram à boxeadora o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Lima e no Campeonato Mundial de Boxe. Em pouco mais de 200 caracteres, Beatriz nocauteou uma luta que vem sendo travada há anos: a da quebra de preconceitos, seja nos ringues, nos tatames, nas argolas, nas barras ou nos vários outros aparatos que envolvem o esporte, incluindo – por que não – câmeras, microfones e outros equipamentos jornalísticos.

Por anos, principalmente na adolescência, ouvi que jogar futebol não era coisa de menina. Vencer os meninos nas disputas por pingue-pongue contrariava a lógica das aulas de educação física. Ser colocada para jogar vôlei com garotos mais velhos era uma loucura do meu professor-treinador. Mais adulta, já formada, muitos ainda desconfiavam – e desconfiam – da autenticidade dos meus comentários feitos sobre esportes considerados masculinos. Nas redes sociais, algumas vezes, um ou outro comenta que a Tribuna perdeu sua credibilidade ao dar espaço para uma mulher nas páginas esportivas. E acredite se quiser, Bia, mas até mesmo bem próximo ao meu ambiente de trabalho, algumas foram as vezes que também andaram dizendo que vôlei, por exemplo, é esporte de mulherzinha.

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Com o tempo, com a maturidade da idade, com a faculdade e com toda a luta por igualdade travada nos últimos anos, hoje já consigo lidar melhor com a situação. Mas ainda preciso ser forte. Mas, principalmente do outro lado, muita gente também precisa ser forte para romper com esse pensamento ultrapassado.

Nas ruas – hoje com pouca prática esportiva, é verdade -, nas escolas, nos clubes, nas próprias famílias, várias ainda são as definições que categorizam modalidade feminina e modalidade masculina. Muito são os talentos não lapidados que enfrentam essa divisão de gênero como obstáculo.

Portanto, ver uma mulher no boxe e um homem na ginástica, recebendo ambos a maior honraria do esporte brasileiro, é algo simbólico, que transcende as conquistas obtidas por eles nas competições da temporada e cria perspectiva para 2020. Não só visando Tóquio, mas vislumbrando essa quebra de paradigmas.

Juliana Netto

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