
“A reivindicação por representatividade é uma das mais potentes demandas políticas do século XXI.” As palavras que abrem esta coluna partem da escritora mineira Cidinha da Silva, que, no novíssimo “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros” (Relicário, 144 páginas), anuncia o interesse por discutir “algumas armadilhas forjadas por procedimentos que visam baratear o entendimento da representatividade em favor de práticas coloniais arraigadas”. E esse é justamente o movimento que ela faz em ensaio inicial da publicação.
Dividida em três partes – Casulo, Lagarta e Borboleta-, a obra é composta por 16 textos em que Cidinha “investiga as tensões, armadilhas e insurgências que atravessam a experiência de escritoras negras no mercado editorial”. Em um dos ensaios, por exemplo, ela relata situações em que autoras negras são convocadas a legitimar projetos de pessoas brancas. Como distinguir uma política de representatividade efetiva de práticas que, na verdade, reproduzem lógicas coloniais?
“As pessoas negras precisam entender e explicitar os modos de funcionamento do racismo para si mesmas, não para educar outras pessoas. Devem antecipar-se às atitudes racistas e coloniais, devem considerar, abertamente, que a branquitude e seus privilégios ensinaram as pessoas brancas a serem racistas, de maneira que elas discriminam no modo automático. Elas dizem que estão desaprendendo, desarmando a bomba com cuidado e precisam de paciência, carinho e atenção nesse processo, ou seja, querem que deixemos de cuidar amorosamente de nossas próprias vidas negras, para nos dedicarmos a continuar nos responsabilizando por pessoas brancas herdeiras dos escravizadores, como acontecia no passado escravista”, assevera a autora, enfatizando que uma política de representatividade reúne ações orientadas pelo reconhecimento ético de que certos grupos foram historicamente desumanizados e impedidos de inspirar e transformar sua própria realidade, como evidencia o racismo.
“Uma política de representatividade séria, então, enfrenta e combate essa situação de desigualdade por meio de ações concretas que, sob nenhuma hipótese podem desconsiderar a agência dos membros dos grupos sub-representados, ou seja, tratamos de política, de mudanças sistêmicas, não de exercícios egóicos e ininterruptamente usurpadores, praticados por aqueles que querem definir a movimentação dos peões pretos no tabuleiro de xadrez que tem donos, estes, por sua vez, definem quem joga, como e quando”, afirma.
Até o dia 8 de maio, Cidinha segue em turnê de lançamento de “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros”. O próximo evento está programado para o dia 7 de maio, às 19h, na PUC, de Porto Alegre, onde ela conversa com a também escritora Natalia Borges Polesso. No dia seguinte, às 19h, na Livraria Baleia, de Porto Alegre, ela participa de um bate-papo, mediado por Nanni Rios, com as escritoras Luciana Aparecida e Taiasmin Ohnmacht.
Marisa Loures – “Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros” é estruturado em três eixos: casulo, lagarta e borboleta. Eles descrevem fases ou mecanismos que continuam atuando simultaneamente sobre as escritoras negras?
Cidinha da Silva – O racismo opera de maneira sistêmica, por isso se diz que ele é estrutural. Na teia racista no campo da produção literária e editorial, há fios emaranhados que impedem o desejo das escritoras negras de criarem em liberdade, dedicando-se à fruição, ao encantamento e à crítica capazes de construir e alimentar novos imaginários. Fios que querem nos circunscrever num eterno lugar de educadoras, de responsáveis pelos letramentos de quem sempre se locupletou da opressão racial (conscientemente ou não) e se acostumou aos privilégios gerados pela subalternização histórica das pessoas negras. Outros fios tecem as armadilhas que forçam as escritoras negras a descrever, detalhar e justificar o que escrevem, furtando-se à discussão de como escrevem, quais são suas técnicas, por quais águas navegam e de que águas se nutrem, aonde querem chegar.
No livro, você critica a expectativa de que escritoras negras expliquem o que escrevem, em vez de serem lidas a partir de como escrevem. Por que essa mudança de foco é tão importante?
Porque a literatura se detém no “como”, não no “que”, me refiro à literatura valorada. A produção literária que não recebe valor, por sua vez, é caracterizada como um amontoado de relatos de experiências, uma transferência direta e sem mediação criativa da realidade para o papel ou tela, sem a atuação técnica da autora que é a mestra da palavra, a senhora da forja da linguagem. Isso não impede que quem lê e avalia, possa, inclusive, demonstrar via argumentação consistente, que não existe um trabalho de linguagem em determinadas obras, mas, este quesito nem é discutido na análise das obras da maioria das escritoras negras. Acomodar-se no “que” é menos trabalhoso, pois, o “como” pode ser desafiador e disruptivo, e a maioria da crítica parece não querer sair da chamada “zona de conforto”.
Você também relata um convite, via rede social, para participar de um evento sem remuneração. Ao responder “se não recebo cachê, eu pago para trabalhar”, você desloca a discussão para o campo do trabalho. O mercado editorial ainda resiste a reconhecer a escrita como trabalho? E essas demandas recaem de forma diferente sobre escritoras negras?
De um modo geral, a profissional negra da escrita é entendida (e enclausurada) no campo da militância política, como se o que ela escrevesse não fosse literatura. Talvez fosse apenas uma expressão um pouco mais leve e criativa de um panfleto. Por outro lado, é preciso admitir que muitas de nós aceitamos esse lugar e emitimos nossa voz a partir dele, eliminando as exigências de um ofício e contribuindo para que essa confusão não se desfaça. Existe uma compreensão generalizada de que militantes não precisam de remuneração pelo seu trabalho, logo, se as escritoras negras forem vistas como militantes, não precisam ser remuneradas. Quanto ao mercado editorial, desde sempre, ele remunera determinados sujeitos considerados dignos de remuneração, a política de pagamento de adiantamento de direitos autorais para certas autorias é um exemplo disso.
Existe uma tendência a domesticar escritoras mulheres, associando-as à delicadeza ou à abnegação. O gesto de reivindicar a ira como forma de enfrentamento encontra resistência no campo literário?
O próprio fato de nos colocarem sempre no campo da reivindicação nos circunscreve a um pedido de licença para existir. Existem diversas autoras que simplesmente não pedem nada, elas fazem e, como resposta, colhem descaso ou, como no caso de Hilda Hilst, críticas duríssimas, fundamentadas numa expectativa do que ela “deveria fazer” em detrimento do que fez, do que escreveu, de fato. Ana Paula Maia, que agora está em alta, por conta de sua participação em lista final de autoras e autores indicados a um prêmio internacional (Booker Prize, 2026), em 2017, teve sua participação no gênero terror questionada por um colega de gênero literário. Em artigo publicado na Folha de S. Paulo, “A real da literatura fantástica”, o escritor Santiago Nazarian, ao discutir os motivos de (in) sucesso (em termos de vendagem) de três livros abordados no texto, argumentou que: “Talvez o mais bem-sucedido desses três tenha sido o livro de Ana Paula (Maia), não apenas pelo ótimo texto, mas exatamente por não conter elementos fantásticos e se afastar das convenções do que se chama terror (além, talvez, de carregar uma bandeira involuntária, por ter sido escrito por uma mulher negra).” Ana Paula Maia é negra, isso é inequívoco, tanto para nós que a observamos, lemos e admiramos, quanto para ela mesma, contudo, diferente de outras autoras negras, APM não se reivindica negra, não é um ponto de sua vida e trajetória que ela fique demarcando. Em decorrência da compreensão da forma como ela se situa no sistema literário, perde sentido a afirmação de que um livro de sua autoria poderia vender mais porque ela é uma autora negra. APM não se vale desse bônus, tampouco o mercado cola essa etiqueta em sua obra. Uma pessoa negra, nós aprendemos com o Movimento Negro dos anos 1970 e 1980, é aquela que se identifica como negra ou é tratada como tal. O sistema literário, por sua vez, nos mostra que em termos mercadológicos, é preciso que você se reivindique negra, veicule um determinado discurso atribuído às escritoras negras, entre numa caixinha e fique de lá olhando o mundo e conversando com ele. Ana Paula Maia não faz nada disso e imagino (é só uma suposição) que ela deva ter urticária ao ouvir a expressão “lugar de fala” e, principalmente diante da sugestão de que seu trabalho vende por esse motivo, por ocupar certo “lugar de fala”. Os livros de APM vendem, porque como o próprio Santiago Nazarian asseverou, têm um texto ótimo. Eu diria mais, trata-se de um texto surpreendente e arrebatador, que nos rouba o fôlego a cada parágrafo.
E você afirma que o futuro não é uma promessa abstrata de inclusão, mas algo que já está sendo construído. O que já mudou de forma irreversível e o que ainda está em disputa?
A irreversibilidade mora, a meu ver, no lugar na História que estamos construindo. Isso significa que seremos lembradas ou “descobertas” no futuro (porque afinal, estamos construindo uma obra e temos posicionamento político), como acontece hoje com “a descoberta” de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Virgínia Bicudo, seguramente faremos sentido nas pesquisas das novas gerações. Muitas de nós, hoje, temos consciência de que fazemos história, a despeito do que consigamos ou não, lograr do ponto de vista do conforto material e do reconhecimento público de nosso trabalho. O restante está em permanente disputa, nada está assegurado e pensar diferente disso é alimentar ilusões que o racismo quer que alimentemos para que ele se mantenha vivo e fulgurante.
Em uma entrevista que fizemos em 2019, você disse que é “uma escritora que tem posição política sobre as coisas e sobre o mundo”. No novo livro, essa dimensão aparece de forma ainda mais direta, sobretudo na crítica ao mercado editorial. O que mudou, ou se aprofundou, na sua forma de pensar a relação entre literatura e política?
O gênero ensaio me permite desenvolver minhas ideias com maior fundamentação argumentativa, é o que fiz no “Borboletas Furiosas” e antes no “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior – 81 Lições do Método Sueli Carneiro” (Record). O que mudou? Fomos submetidos ao morticínio de uma pandemia global tratada de maneira intencionalmente irresponsável e letal pelo governo Bolsonaro. Estou mais velha, mais consciente dos processos todos que retiram das pessoas negras a agência de suas próprias vidas, mais cética e com mais vontade de ser uma borboleta furiosa em paz.
Em uma publicação feita nesta semana no Instagram, você comenta a dificuldade de encontrar o livro em livrarias físicas, ao mesmo tempo em que ele já aparece entre os mais vendidos na Amazon, ocupando a quinta posição. Como você interpreta esse contraste entre circulação no ambiente digital e presença no espaço físico das livrarias?
Contextualizando a postagem, ela se referia a pessoas de Fortaleza, Ceará, que enquanto me esperavam para um evento dia 22/04, procuraram meus livros em livrarias e não os encontraram. Isso é normal, eu atuo muito na região Sudeste do Brasil, em Brasília, em cidades da região Sul como Porto Alegre e Curitiba. Na região Nordeste, meu trânsito mais significativo acontece na Bahia, em várias localidades e um pouquinho no Recife. As feiras e festas literárias, quando nos convidam, têm um papel importante na difusão do nosso trabalho que passa a constar do catálogo das distribuidoras e assim chega nas livrarias. Quanto ao ambiente digital, estando em qualquer lugar do país (e mesmo fora), você consegue adquirir o livro. De 2024 para cá, meus livros têm tido bom desempenho nessas plataformas de vendas, são muitas categorias e o que mencionei é a presença do “Borboletas Furiosas” entre os cem livros mais vendidos de uma determinada categoria. Eu até gostaria muito que fosse um quinto lugar geral, mas não se trata disso.
Ao integrar a coleção Nos.Otras, voltada a projetos literários heterogêneos e, muitas vezes, marginais ao mercado, o seu livro também se posiciona editorialmente. O que significa, para você, publicar nesse contexto?
Uma alegria muito grande. É honroso figurar ao lado de escritoras muito significativas da América Latina. Desde o primeiro momento do convite feito pela Maíra Nassif, a editora, fiquei muito entusiasmada e agradecida. Agora, com o apoio irrestrito da Relicário e muita divulgação, o livro começa a chegar em lugares diversos do Brasil e espero que as pessoas leiam e comentem para que ele sobreviva ao tempo.
