
A jornalista e escritora Sara Moraes me contou uma história que, de tão linda, tinha que estar presente na introdução desta entrevista, cujo assunto é o livro “Amor & redundâncias” (Autoria), sua estreia na literatura. Certo dia, Sara publicou em seu perfil no Instagram um texto em que narra a tristeza de uma menina diante da constatação de que uma borboleta morreria. Suas palavras, nascidas após um período de silêncio literário, de tão delicadas, tocaram um homem que frequentava a mesma igreja que ela, mas os dois nunca haviam conversado.
Dias depois da publicação, esse homem a procurou para dizer que o texto o havia emocionado profundamente. Era seu Sidney, do Bar do Futrica. Ao ler a história da borboleta, ele se lembrou da esposa, que havia morrido após uma dura batalha contra o câncer. Nos últimos dias de vida, sua filha levou um tatuador ao hospital e fez nela uma tatuagem de borboleta, um desejo antigo. Durante muitos anos, porém, seu Sidney havia sido contra. Disse que achava que tatuagem não era coisa de mulher. “Quando li seu texto”, contou ele a Sara, “foi como se ela tivesse voltado para mim. Eu senti que, de certa forma, machuquei a asa dela e que agora precisava cuidar dela”.
Segundo Sara, o pequeno gesto de seu Sidney de fazer esse relato foi essencial para que não só aquele texto sobre a borboleta, mas outros contos, crônicas, prosas poéticas e poemas fossem reunidos em “Amor & redundâncias.” “Menina, eu não sei o que você pretende fazer da sua vida, mas queria te pedir uma coisa: nunca pare de escrever’. Esse foi um dos estopins para eu querer publicar. E não só publicar. Também tatuei uma borboleta na nuca por causa da mulher do seu Sidney”, confidencia a autora, que, nesta conversa, apresenta a obra para os leitores da coluna Sala de Leitura. “Eu o apresentaria como um ensaio sobre as relações humanas.”
Em “Amor & redundância”, atualmente em pré-venda na Autoria Casa de Cultura, Sara dá atenção ao que é simples, delicado, corriqueiro. “É leveza em meio ao caos”, sentencia. O lançamento está programado para o dia 24 de abril.
Marisa Loures — “Amor & redundâncias” reúne textos de naturezas diferentes: prosa poética, crônicas e poemas. Como você apresentaria esse livro para quem ainda não o conhece?
Sara Moraes: Eu apresentaria como um ensaio sobre as relações humanas. Gosto de trazer esse conceito que vem da academia. A gente gosta de colocar as coisas em caixinhas: aqui está a antologia dos poemas, o livro de contos, o livro de crônicas, mas a vida não acontece desse jeito. A vida acontece de uma perspectiva única. Então, ter contato com diferentes tipos de textos, de escritas que versam sobre um mesmo tema que, no caso, são as relações humanas, é interessante até para você modular as suas diferentes impressões literárias. Às vezes, tem muita gente que tem uma certa resistência em ler poesia, gosta de contos ou gosta mais de crônicas, mas, se eu tenho um livro que tem crônicas, que tem contos, mas também tem poesia, de repente, ele será aquele ponto que a pessoa precisava para quebrar este preconceito de “não leio poesia”. Será que não? De repente, é a possibilidade de contato.
E você diz que ele é um convite à leveza em meio ao caos. Em que momento os textos deste livro foram gestados? Eles refletem seu momento vivido?
Esses textos foram gestados em diferentes momentos da minha vida. Reuni alguns textos que são um pouco mais antigos, do tempo em que eu era colunista de um fanzine, do Old School Zine, mas são poucos dessa época, e a vontade de escrever nasceu justamente com a recuperação desses arquivos que tinham sido perdidos e foram recuperados. E olhando para aquela pessoa de 20 e poucos anos, eu falei: “gente como eu era inocente”. Olha o tamanho da empáfia, do quanto eu achava que eu sabia sobre o amor, sobre as relações e, na verdade, eu sabia tão pouco.
É curioso isso que você disse de ter contato com textos escritos há tantos anos. Deu vontade de mudar alguma coisa?
Me deu vontade de mudar alguns. Eu sentei na frente de um deles, inclusive o que deu o nome ao livro, “Amor & redundâncias”, e falei assim: “eu vou mudar esse texto.” Mas não consegui porque senti que estava desrespeitando a Sara dos 20 e poucos anos, porque ela era aquela pessoa, ela achava aquelas coisas e eu trocava e falava que não era bem por aí. Inclusive o último texto do livro é “Amor & redundâncias II”, no qual já trago uma visão um pouco mais da vida que eu levo atualmente.
O primeiro texto começa com a tristeza de uma menina diante da constatação de que uma borboleta morreria. Uma situação muito corriqueira, delicada. Todos os seus escritos nascem de pequenos momentos do cotidiano? Como você transforma esses fragmentos da vida em literatura?
É uma pergunta difícil porque eu me lembro, se não me engano, que a Cecília Meirelles fala assim: “há dias em que acordo, olho e me assusto porque eu vejo a pedra e eu vejo a pedra mesmo.” E aí eu penso: “Tem alguma coisa errada, né? Porque eu não consigo ver só uma pedra. Eu vejo mais coisas além da pedra.”
Já que você tocou nesse ponto, em alguns textos, como “All things”, aparece uma inquietação com a própria linguagem, como se as palavras fossem sempre insuficientes para dar conta da experiência. De onde vem essa busca por traduzir em escrita aquilo que parece quase impossível de dizer?
Acho que também vem muito do meu lado jornalista. Não só da literatura. Tenho uma influência muito grande de autores brasileiros. Da Clarice Lispector, do Carlos Drummond de Andrade, mas especialmente da Clarice Lispector, na prosa poética. Mas acho que essa inquietação vem dessa necessidade que nós jornalistas temos de explicar o mundo para as pessoas, explicar o que está acontecendo. E eu sempre me lembro dos meus professores, na faculdade de comunicação aqui da UFJF, me dizendo: “Pense que você vai explicar para uma criança de oito anos.” Então, como vou explicar coisas tão complexas, elementos filosóficos e, às vezes, o quanto que essas coisas podem estar inseridas em elementos tão simples com palavras, sem ter um recurso audiovisual junto? E acaba que, com isso, também trago uma série de referências que vem da música e de outras áreas, porque tenho essa vontade de evocar no leitor essas referências, despertar no leitor essas referências para que ele tome parte do todo.
E qual o papel da imaginação na sua escrita?
Acho que entender o cotidiano de uma forma mais ampla só acontece por meio da criatividade, e a criatividade traz este aspecto fantástico que, às vezes, nos falta na correria do dia a dia: entender que as coisas pequenas têm o seu valor, têm a sua importância e podem nos trazer algo novo, diferente, algo para respirar. Falo que leveza em meio ao caos é muito isso, porque a gente anda numa vida tão corrida, em que a gente não para para nada, com uma sucessão de atividades, que a gente está perdendo a capacidade de olhar para as pequenas coisas. A história que acabei de contar do seu Sidney, esse pequeno gesto dele de me contar a história dele, fez tanta diferença para mim.
No poema “Penélope”, você retoma uma personagem clássica da mitologia, tradicionalmente associada à espera e à fidelidade. No entanto, sua voz poética parece reivindicar autonomia e poder sobre o próprio destino. O que te motivou a revisitar essa figura a partir de uma perspectiva mais afirmativa e independente?
Eu penso muito nisso quando falo de amor a partir da visão de uma mulher, porque, ao longo de séculos, fomos treinadas para viver esse amor romântico, centrado na figura masculina. Envolve essa imagem mítica da mulher presa na torre, com um dragão na guarda à espera do seu príncipe. Ou a própria Penélope, cercada de pretendentes e criando estratégias para continuar esperando Ulisses, sempre numa posição passiva. E eu, com “Penélope”, quis trazer essa subversão do papel da mulher. Por que tenho que ser aquela que espera? Por que tenho que ser aquela que se recolhe com o tear? Não, eu vou tacar fogo nele. Eu não preciso esperar, porque sou dona do meu destino. Eu não preciso que homens determinem o que eu vou ou o que eu não vou ser. Se vou ou se não vou ser escolhida. Eu quero escolher, porque eu tenho essa autonomia, sendo mulher ou não.
Sua trajetória passa pelo jornalismo, pela pesquisa acadêmica e pela produção audiovisual. De que forma essas experiências influenciam sua maneira de construir imagens e narrativas literárias?
Nossa, influenciam tanto, porque, às vezes, tenho dificuldade de separar as coisas, tanto que os meus trabalhos acadêmicos, geralmente, têm uma pegada muito literária. E academicamente falando, é um traço estilístico meu. Quando vão falar sobre algum trabalho acadêmico meu, as pessoas falam que tenho uma pegada literária e que também vem do jornalismo, que é essa necessidade de fazer as coisas difíceis serem bem explicadas para que o maior número de pessoas consiga compreendê-las. Esse movimento também acontece no caminho inverso, quando vai para a literatura, porque trago não só a necessidade de clareza, a necessidade de explicar determinadas coisas, como também as referências do mundo acadêmico. Às vezes, essas referências aparecem de forma direta, às vezes de maneira mais indireta, mas sempre tento trazer para o texto perspectivas de pessoas do campo científico que também pensaram as relações humanas e como essas reflexões podem ser traduzidas literariamente. Dentro das imagens, acho que isso traz também a minha necessidade da visualização. Trago muitos elementos que evocam a visualidade. Não apenas por meio de referências ou desses “easter eggs” que vou espalhando aqui e ali, mas também no próprio modo como construo as cenas. O poema “Penélope”, por exemplo, tem um pouco disto: é quase possível visualizar o tear sendo queimado. Existe essa busca por um aspecto visual dentro da escrita.
Nos últimos anos, você tem buscado desenvolver linguagens e estruturas narrativas que estimulem a literacia midiática entre crianças e adolescentes. De que maneira a literatura pode contribuir para formar leitores mais críticos em relação às mídias e às informações que circulam hoje?
Eu tenho pesquisado especialmente os easter eggs, que são essas referências ocultas plantadas em diferentes produções midiáticas. Elas não aparecem apenas na mídia audiovisual, mas também na literatura, que é um campo muito fértil para esse tipo de recurso. A literatura, na verdade, sempre foi construída a partir de referências. Há todo um processo de interligação entre obras e linguagens, o que, na comunicação, chamamos de transmidialidade, ou seja, o trânsito entre diferentes meios, tipos de mídia. Isso, por um lado, faz com que a gente se acomode, mas, por outro, os processos podem nos instigar a buscar coisas diferentes. Temos hoje uma série de materiais, de produtos na mídia, que instigam a leitura, justamente por meio dessas referências ocultas. Quando alguém identifica um easter egg, por exemplo, surge a curiosidade: “De onde veio essa referência?”. Muitas vezes ela remete a um livro, e a pessoa acaba se interessando por aquela obra. Além disso, vemos hoje um crescimento de comunidades ativas de leitores, como fandoms e clubes de leitura. Esses espaços também estimulam a circulação de livros e o debate sobre eles. Então, a própria mídia, especialmente a mídia participativa, acaba contribuindo, de certa forma, para incentivar a leitura e a formação de leitores mais atentos e críticos.
O texto “Amor & Redundâncias (II)” termina com esta frase: “Um dia você vai aprender a deixar de ser a última romântica do metrô… mas talvez esse dia não seja hoje.” Podemos entender que, mesmo diante das desilusões e das mudanças da vida, a voz que fala ainda escolhe permanecer romântica? O romantismo é uma espécie de resistência no livro?
Sim. O romantismo pode ser, sim, um ato de resistência. Eu me lembro muito de uma ideia do Sartre. Ele não falava exatamente de romantismo, mas de política. Ele dizia que a política é como esperar um trem numa estação sabendo que esse trem talvez nunca chegue. Acho que o romance tem um pouco disto também: é esperar por um trem que talvez nunca chegue, mas que ainda assim faz sentido esperar. Vale a viagem, vale o momento, vale até mesmo quando a gente sente aquilo sozinho, porque existem coisas que ninguém pode tirar da gente, e aquilo que sentimos é uma delas. Às vezes, tentamos explicar demais. Os gregos, por exemplo, dividiram o amor em quatro categorias para tentar compreendê-lo. Mas, em certos momentos, explicar demais faz com que a gente esqueça da dimensão do sentir e tente invalidá-la por meio da explicação. E a dimensão do sentir é tão importante quanto a dimensão do pensar.
O que você espera que fique com o leitor depois de ele percorrer essas páginas?
Espero conseguir trazer um pouco mais de cor para o cotidiano. Às vezes vivemos num mundo tão cinza, numa rotina tão corrida, que deixamos de olhar para as pequenas coisas: os gestos simples, as relações, o riso de si mesmo, aquilo que sentimos por dentro. Parar para perceber essas coisas pode trazer um pouco mais de tons vivos para a vida. Acho que precisamos disso, porque estamos caminhando para uma sociedade muito pessimista, em que tudo parece difícil e pesado, e acabamos apagando as cores do mundo. Então, o que desejo com o meu livro é que, mesmo que seja por um instante, por um segundinho, o leitor consiga se reconhecer naquilo que leu, viver seus próprios sentimentos a partir da leitura e, quem sabe, trazer um pouco mais de cor para a própria realidade.

