
André Monteiro diz que não é de hoje que vem sendo perseguido pela palavra “diferença”. Penso que ele poderia se entregar a um processo solitário de escrita, produzindo, por exemplo, um ensaio sobre essa questão que tanto o inquieta. Mas ele percebeu que era necessário ouvir. Dessa forma, sem dar muitas explicações, afinal de contas, o que ele esperava era justamente uma pluralidade de diferenças, ele apenas lançou a provocação: “Que diferença faz toda diferença?”.
As respostas vieram em formas diversas. Por meio de poemas, ensaios, relatos, artigos, microcontos, conto-manifesto, as várias vozes ouvidas buscaram um caminho distinto para tentar responder ao desafio que lhes foi lançado. Digo desafio porque se trata de uma pergunta difícil, capaz de suscitar interpretações muito diferentes. E, novamente, estamos aqui diante dessa palavra, “talvez ideia, talvez conceito, talvez noção, talvez atitude, talvez experiência”, como diz André. Alguns textos, inclusive, divergem do mote que deu origem à obra. “Não esperava convergências, claro. Esperava justamente por diferenças inesperadas. E, gracias a la vida que me há dado tanto, elas chegaram”, comemora o professor de Literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora.
“Chamei, com muita responsabilidade, pessoas que, em princípio, não extrapolariam certos limites que conservo. Sabia, para puxar um exemplo extremo e caricato, que nenhum dos convidados faria elogios aos nazismos da vida. No entanto, fui um tanto irresponsável comigo mesmo na medida em que sabia que muitas falas poderiam me irritar, me incomodar etc., mas eu teria que assumi-las como organizador, me responsabilizar por elas. A ideia era justamente esta: testar a minha capacidade de tolerar consonâncias e dissonâncias e comungar esses encontros com os leitores”, explica.
Publicado com fomento do CNPQ, com edição de Marina Ruivo, “Que diferença faz toda diferença?” (Garoupa, 220 páginas) reúne textos dos professores e pesquisadores Alberto Pucheu (UFRJ), Ana Chiara (UERJ), Ana Paula El-Jaick (UFJF), Bárbara Simões (UFJF), Eduardo Guerreiro Losso (UFRJ), Edmon Neto (UFJF), Fátima Maria da Rocha Souza (UEA), Isadora de Araújo Pontes (UFJF), Jairo Fará (UFSJ), Jimmy Sudário Cabral (UFJF), João Barreto (UFJS), João Queiroz (UFJF), Julio Satyro (UFJF), Júlio César Souza de Oliveira (UFJF), Júlio Diniz (PUC-Rio), Luigi Caruso (UFJF), Luiz Fernando Matos Rocha (UFJF), Luiz Fernando Medeiros (UFF), Marcela Medina (PUC-Rio), Marcelo Magalhães Leitão (UFC), Marcus Reis Pinheiro (UFF), Maria Aparecida Silva Ribeiro (UFS), Maria Cecília Simões (UFJF), Roberto Corrêa dos Santos (UFRJ/UERJ), Sérgio Nazar David, Wendell Guiducci (UFJF) e Wilberth Salgueiro (UFES).
A versão digital do livro pode ser acessada gratuitamente no site da Garoupa Editora.
Marisa Loures – Você diz, na introdução do livro, que é perseguido há muito tempo pela palavra “diferença”. Em vez de escrever um ensaio sobre ela, você optou por reunir dezenas de autores em torno dessa provocação: “Que diferença faz toda diferença?” O que o levou a concluir que esse era um tema que precisava ser pensado coletivamente, e não individualmente?
André Monteiro – Sim, Marisa. Sou perseguido há muito pela palavra diferença. Não só pela palavra, mas também por um pensamento sobre e com a diferença. Um pensamento nem sempre traduzível em palavras. Nem mesmo pela palavra diferença. Seja como for, posso dizer que minha relação com a palavra-pensamento diferença é constante nos trabalhos de pesquisa e práticas docentes que venho desenvolvendo há mais de vinte anos. Nesses trabalhos, construí muitos diálogos com a chamada filosofia da diferença francesa para pensar possíveis produções de diferenças no universo da literatura e da cultura brasileiras e, também, em acontecimentos prosaicos de nossas vidas cotidianas. Achei interessante então abrir respiradouros na minha pesquisa, furar minha bolha, não para abrir mão das diferenças que fui encontrando nos meus caminhos de professor-pesquisador e vivente cotidiano, mas justamente para preservá-las em movimento. Não acredito que o acontecimento de uma diferença possa se autossustentar. A diferença nasce justamente do encontro, de uma abertura para o outro. Não um outro já identificável de antemão, mas um outro que, de repente, acontece, explode na ecologia de uma relação. A diferença não pertence a ninguém. Ela é uma prerrogativa dos encontros, do que passa entre os corpos e seus pensamentos. Quantos encontros foram necessários para se produzir um drible incalculável de um Garrincha? A diferença é um impossível que se torna possível graças a micros e macros encontros. Nem sempre perceptíveis. Quando Garrincha está driblando, ele não está driblando sozinho. Muitas vidas estão se trocando e se fazendo outras ali naquelas pernas tortas e espantosamente distintas. Por isso é que, respondendo à sua pergunta, a diferença só pode ser pensada e vivida coletivamente. Esse livro que eu organizei explicita isso. Mas isso, a meu ver, é irredutível a qualquer produção de diferença. Mesmo quando parece ser um fenômeno de uma estrela solitária (alguns diriam, romanticamente, de um gênio), ela é coletiva, composta de sensações e percepções humanas e não humanas. A diferença é singular e plural.
E você afirma que “diferença” pode ser palavra, ideia, conceito, noção, atitude ou experiência. Em que momento ela deixa de ser apenas um objeto de reflexão para se tornar uma prática cotidiana, tanto na universidade quanto fora dela?
Eu não acredito na possibilidade de uma pureza das coisas. Tudo que vive se suja, se mistura. Portanto, há sempre porosidades entre vida acadêmica e vida cotidiana. O que penso e vivo andando pelas ruas e em minha vida doméstica vai parar na universidade e vice-versa. Claro que nós somos muitos. Quando sou professor da universidade sou uma persona diferente de quando sou namorado, filho, pai, amigo. Somos muitos. Mas muitos que se contaminam. Então o dentro e o fora da universidade não são categorias. São passagens. Quanto à experiência da diferença, penso que ela nunca é um pensamento abstrato, justamente porque, como já disse antes, depende de encontros de corpos, depende de afetos. Daí que ela pode ser palavra, ideia, conceito, noção, atitude, experiência etc. Ela pode se dar em uma relação com um livro dito teórico-conceitual e, simultaneamente, pode surgir de uma relação entre corpos enamorados. A produção da diferença independe de nossa vontade prévia. A vida, por si mesma, é potencialmente uma produtora de diferenças. Mas, seja onde e quando for, podemos estar atentos a elas e cuidar delas, desviar de seus perigos ou mergulhar em seus riscos de alegrias. Há constantemente uma chance da gente se tornar cotidianamente diferente com as diferenças que nos chegam. Talvez isso seja uma tentativa de produzir aquilo que alguns chamam de viver com arte. Conquistar uma vida inventiva em meio aos bombardeios que querem nos achatar, nos diminuir, nos tornar impotentes diante dos muitos poderes inibidores de diferenças. Driblar as máquinas padronizadoras que fazem a vida ficar chata. Máquinas que nos fazem ter vergonha de estar vivo.
Um ponto que chamou minha atenção é o fato de você afirmar que o livro foi pensado “mais para ouvir que falar”. Em um ambiente acadêmico frequentemente marcado pela defesa de argumentos e pela afirmação de posições, o que significa transformar a escuta em um método de produção do conhecimento?
O lugar de fala está em alta no século XXI. Muitas vezes nos obrigamos, de modo inconsciente até, a professar opiniões sobre tudo. Representa-se isso, aquilo ou aquilo outro e, em nome de uma identidade que se quer conservar e que se quer mais legítima que outra, há muita grita e poucos ouvidos. Os encontros não acontecem. As sutilezas das diferenças ficam sem moeda de troca. O mundo está cheio de bandeiras que reivindicam suas diferenças e que contraditoriamente, não poucas vezes, calam as próprias possibilidades de diferenças. Tentando responder à sua pergunta, talvez transformar a escuta em método de conhecimento nos exija uma malandragem saudável capaz de nos fazer saber desviar das velhas armadilhas dicotômicas, das vontades imediatas de ser contra ou favor, saber escapar da vontade de eliminar e cancelar o que supostamente não teria direito histórico a um pertencimento pré-definido. Mas não sei se é bem assim. Vou ter que deixar sua pergunta difícil sem uma resposta acabada. Paradoxalmente, talvez eu esteja te respondendo justamente porque não estou te respondendo. Aprender a ouvir talvez passe por exercitar nosso direito a não saber muito bem algumas coisas e conseguir se manter em certa perdição de aprendiz. Ou não? Fico confuso. Seja como for, escutar é uma arte dificílima.
Organizar também é selecionar, ordenar, estabelecer uma arquitetura para as vozes dos outros. Como equilibrar a escuta com a responsabilidade inevitável de editar?
Você tem toda razão quanto ao que disse sobre organização. Ao tentar escutar é impossível não selecionar e valorar mais um acontecimento que outro. Isso quer dizer que toda escuta é, em certa medida, comentada pelos arranjos e regências do próprio escutador. Apagamos algumas coisas e damos mais volume a outras. No entanto, não creio que, por algum momento, não se possa perder um pouco o próprio juízo, seja se dando ao direito de mudar de perspectiva, seja acolhendo aquilo que ainda não se entendeu muito bem. É um exercício difícil porque o desafio aqui é justamente escapar ao automatismo de querer ter alguma razão sobre supostas verdades das coisas. Sobre a responsabilidade, confesso que fui responsável e irresponsável ao mesmo tempo na organização desse livro. Chamei, com muita responsabilidade, pessoas que, em princípio, não extrapolariam certos limites que conservo. Sabia, para puxar um exemplo extremo e caricato, que nenhum dos convidados faria elogios aos nazismos da vida. No entanto, fui um tanto irresponsável comigo mesmo na medida em que sabia que muitas falas poderiam me irritar, me incomodar etc., mas eu teria que assumi-las como organizador, me responsabilizar por elas. A ideia era justamente essa: testar a minha capacidade de tolerar consonâncias e dissonâncias e comungar esses encontros com os leitores.
O livro reúne poemas, ensaios, relatos, artigos, microcontos, sem impor um formato único aos colaboradores. Essa diversidade resulta sobretudo das escolhas estéticas e intelectuais de cada autor ou revela também que a própria ideia de diferença exige múltiplas formas de linguagem para ser pensada?
Eu sempre acho que uma ideia não é desencarnada. Ou como se diz, é sempre relevante para se concluir algo a respeito do que supostamente se diz. Então, a meu ver, as múltiplas formas de linguagem sempre se conectam a múltiplas formas de pensar. Daí que, quando convidei os autores, eu lhes disse que poderiam enviar os textos no formato e no tamanho que achassem mais apropriado. Modéstia às favas, o resultado ficou interessante. Muitas diferenças para se pensar diferenças.
Alguns textos chegam inclusive a divergir do mote que deu origem ao livro. Em tempos em que frequentemente se espera consenso dentro dos grupos, qual é o valor intelectual de preservar o dissenso em vez de tentar conciliá-lo?
Para mim, é cada vez mais importante compreender que divergir não é brigar, não é deixar de ser amigo, deixar de ser gentil, deixar de ser respeitoso, deixar de ser um bom colega de academia etc. Preservar o dissenso, especialmente na vida acadêmica, é fundamental porque a universidade existe justamente para desafiar e desafinar o que está posto, o que está dado. A ágora universitária existe, a meu ver, para dar à sociedade o que a sociedade espera dela e também o que não espera. Se eu vou ao dentista, eu espero que na universidade ele tenha aprendido a acabar com minha dor de dente. Mas isso não é tudo. É preciso que a universidade também faça diferença e inaugure formas de vida inesperadas, para além do já posto, do já dado, do já pensado. Quando o ambiente universitário se padroniza e inibe seus potenciais dissensos, ele abandona sua vocação e deixa, em parte, de servir à sociedade.
Como exemplo dessa pluralidade que o livro reúne, temos três respostas estéticas muito distintas: o Luiz Fernando Matos Rocha encena um chat com uma IA, o Júlio César traz um conto-manifesto realista sobre os dilemas da docência, e o Luiz Fernando Medeiros constrói um ensaio mais filosófico que analisa o conceito de “diferença” sob a ótica da trajetória do escritor Mário de Andrade. Esses textos tão diversos respondem à sua pergunta inicial ou servem para provocar e inquietar ainda mais?
Cada texto do livro, à sua maneira, desdobra o mote do livro. E, desse modo, todos eles abrem ainda mais o mote. A pergunta mesma vai se tornando pergunta outra. Acho que esse livro, cheio de diferenças para se pensar diferenças, é um livro sem solução.

