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A volta do futebol importa

Por Bruno Kaehler

17/06/2020 às 07h15 - Atualizada 16/06/2020 às 16h11

É necessário, nesse mundo cercado pelo ódio de corajosos internautas, dizer que sou contra o retorno imediato do futebol brasileiro. Retomar o Campeonato Carioca ainda nesta semana é um absurdo. No mínimo. É simples – apesar de muitos dirigentes de clubes nacionais taparem os olhos – entender a diferença de cenário do nosso país em relação aos europeus. Posto isto, e parabenizando o Maracanã pelos 70 anos, para não dizer que não mencionei data tão importante de um palco que carrego saudade, deixe-me seguir.

Sou daqueles loucos que ama o futebol bem jogado ou não. Um maluco que conheceu a falta de qualidade da primeira divisão da Bielorrússia nesta quarentena (não recomendo!). É que basta ver uma bola rolar para que meu foco tenha dona. E como foi difícil ficar sem tamanha paixão por alguns meses. Ainda está, mas as últimas semanas têm sido menos monótonas na área.

Como amante e estudioso do esporte mais amado – e antipatizado – do planeta, não vejo uma partida de futebol apenas como puro entretenimento, o ópio do brasileiro. É muito mais que isso, frase clichê, mas igualmente verídica. E no último fim de semana, enfim, pude ter a prazerosa sensação de que o futebol está voltando – nos lugares em que já há um controle sobre os casos de Covid-19.

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Assisti o retorno da espanhola La Liga – também tenho acompanhado a Bundesliga (Alemão) e algumas partidas do Campeonato Português, além de ter visto o clássico entre Juventus e Milan, pela semifinal da Copa da Itália, com a perda de pênalti de Cristiano Ronaldo, grande exibição do lateral Danilo, e desempenho de Paquetá totalmente comprometido por conta da expulsão do companheiro Rebic ainda na etapa inicial. Mas o que me fez sentir que o mundo da bola retoma, gradativamente, o seu direcionamento natural, vai muito além do fantástico gol de Kroos, pelo Real Madrid, ou da regular genialidade de Messi pelo Barcelona.

O terceiro gol dos Blancos na vitória de 3 a 1 sobre o Eibar no domingo (14), marcado por Marcelo, tinha que acontecer. Como uma obrigação do Deus do futebol. Foi balançar as redes e um dos maiores laterais da história do futebol se ajoelhou. Colocou o punho para o alto, inclinou a cabeça para baixo. A mensagem da partida estava dada. George Floyd, o jovem Miguel, e milhões de outros exemplos precisam estar presentes em nossa sociedade. E poucos meios como o futebol podem trazer este tipo de informação a crianças e pessoas de todas as classes.

Comemoração de Marcelo com protesto antirracista após o gol pelo Real Madrid (Foto: Divulgação La Liga)

Claro, o filho do ex-jogador francês Lilian Thuram, Marcus Thuram, e outros já haviam feito o mesmo. Importantíssimo. Mas o impacto do Real Madrid, de Marcelo, é fortíssimo. E reforça justamente o que mais me atrai no esporte: seu poder de transformação. Não simplesmente pelas singulares emoções geradas nos torcedores. A imagem de Marcelo comemorando seu gol ainda roda o mundo. Milhares de crianças conheceram o significado do gesto.

Minha pena àqueles que insistem em diminuir o futebol e ignorar suas capacidades extracampo. Óbvio que a saúde, entre outros temas, deve ser o mote central das discussões e da nossa atenção. Mas por que isso faz com que o esporte seja tratado como um inimigo? Aceitem: a volta do futebol importa.

Bruno Kaehler

Bruno Kaehler

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