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Thiago Neves é oportunidade de mercado?


Por Bruno Kaehler

16/09/2020 às 06h58

É transparente que a romântica idolatria pela longevidade de um atleta no clube de coração do torcedor já quase não existe. Um jogador de 30 anos, hoje, passou, no mínimo, por seis, sete times diferentes – entre eles dois rivais regionais. Veja Danilo Barcelos, dos mais recentes exemplos. O lateral-esquerdo vestia a camisa do Vasco em 2019, defendeu o Botafogo até mês passado e estreou pelo Fluminense no último domingo.
Óbvio, o jogador não era dono de agrado dos torcedores cruz-maltinos e alvinegros, mas seu caso espelha a normalidade do mercado do futebol brasileiro. Em um passado um pouco mais distante, basta lembrar Romário, ex-Vasco, Flamengo e Fluminense. Este, sim, fazia do torcedor da equipe que atuava, um fã apaixonado. Mas era único. Um dos incomparáveis.

Na fria conduta do profissional do futebol, há como isolar certas histórias em um clube ao assinar contrato com o seu rival. No início da semana, acompanhei uma discussão sobre a chance de Rogério Ceni treinar o Corinthians. A maioria dos comentaristas era favorável e dizia que a carreira de ídolo são-paulino como atleta não pode interferir. Discordo pela situação extraordinária. Rogério não apenas é um dos poucos no futebol que criaram uma relação de amor com um clube somente, como se tornou um dos maiores ídolos – para muitos o principal – de uma história extremamente vitoriosa.

Entendo que em 99% dos casos, a ida para uma equipe rival seja normal nas condições atuais. Mas Ceni está no 1% das exceções. Onde se encontra, também, Thiago Neves.

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Gosto muito das ideias de jogo do argentino Jorge Sampaoli, técnico do Atlético-MG, mas não compactuo, em aspecto algum, com o pedido da contratação do meia ex-Grêmio e Cruzeiro. “Mas as piadas que ele fez são normais, estão acabando com a graça do futebol.” Muitas das brincadeiras de Thiago eram sucedidas por pedidos de desculpas do atleta, por passar dos limites. Mas é chover no molhado, vide a reação de milhares de atleticanos que conseguiram impedir o acordo.

O torcedor é a essência do clube e precisa ser respeitado. Jogar a culpa em Sampaoli pela indicação, mesmo após levar à frente a negociação por achá-la normal, é tão ruim quanto a solicitação do argentino. E pelas duas últimas temporadas, não há motivo para trazer Thiago Neves.
O meia, que já foi um dos principais do país, atuou pela dupla Fla-Flu, por exemplo – dois rivais, deixou a intensidade no segundo ano de Cruzeiro, em 2018. Sua queda técnica e física foi um dos fatores que levaram o Celeste ao rebaixamento. Só foi ao Grêmio pela teimosia de Renato Gaúcho na tentativa de recuperar jogadores em decadência.

A diretoria atleticana tratou Thiago Neves como uma “excelente oportunidade de mercado.” O Galo precisa de um meia criativo que acompanhe a intensidade de uma severa sequência de partidas, que saiba marcar alto durante boa parte dos jogos, que pressione pós-perda de bola e possua aspirações na carreira, como a do próprio clube, de ser campeão brasileiro. TN10 merece respeito pelo que já construiu. Mas em qual destas demandas ele se encaixa?

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