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Chama da esperança

Por Renato Salles

23/07/2021 às 07h00 - Atualizada 23/07/2021 às 10h42

Demorou toda uma vida, mas, bem recentemente, eu compreendi que sempre interpretei errado o mito do brasileiro cordial. Entendia o cordial como características de afabilidade e amabilidade e ponto final. Hoje, já olho esse chavão pelo outro lado da dubiedade da palavra cordial, que também se remete àquilo relacionado ao coração e, portanto, à passionalidade.

O brasileiro é, sim, um sujeito passional, dado ao exagero do amor e do ódio; da esperança e da desesperança. Tristemente, os últimos tempos têm sido mais do ódio e da desesperança. O brasileiro comum, hoje, tem se mostrado um ranheta.

Na política, por exemplo, odeia tudo que ele é diferente, restringindo quase toda e qualquer possibilidade de diálogo, tão necessário na vida coletiva. Como Narciso, que acha feio o que não é espelho, a gente tem odiado demais, e isso tem nos tornado desesperançosos.

Tudo bem, motivos para desesperança não faltam. Ainda estamos vivendo uma pandemia. Mas, eu te digo, a fagulha da esperança está lá. Mesmo que vacilante, ela se mantém acesa. Sempre. Afinal, os passionais são dados ao exagero da esperança.

Por mais ranhetas que estejamos hoje, tanto que, diuturnamente, damos margem para sermos governados e influenciados por discursos de ódio, por vezes, damos sinais de que sim, somos capazes de acreditar em um futuro melhor.

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Esse meu olhar pode parecer forçado, eu sei. Principalmente, quando a gente enxerga a irracionalidade que tem tomado conta da nossa discussão pública. Mas sempre gostei de olhar o futebol como um espelho de nossa sociedade, e daí tirar certas percepções.

O torcedor de futebol é como o brasileiro. Passional e dado ao amor e ódio; à esperança e à desesperança. Para entender que ainda somos capazes de acreditar, basta olhar para o esporte.
Por exemplo, por pior que seja o momento de nossos clubes de coração, ao menor sinal de que a chave possa virar, já estamos lá, esperançosos e crédulos de que existirão, de fato, dias melhores.

Exemplos não faltam. Há pouco tempo, os flamenguistas, por exemplo, mostravam certa descrença com o trabalho de Rogério Ceni e, até mesmo, com o primeiro jogo sob o comando de Renato Gaúcho. Após duas belas vitórias nos últimos jogos, lá está a esperança de voltar a vencer tudo.

Por aqui, não é diferente. O Tupi vive, de longe, a pior fase de sua história recente. Mas andou sapecando 3 a 0 no Módulo II do Campeonato Mineiro. O suficiente para ver carijós, aqui e acolá, revelando a esperança no sorriso.

Olha o caso dos corintianos, cujo o time não joga bem há algumas temporadas, e que, agora, estão todos muito confiantes com a chegada de dois reforços pontuais, no caso os meias Giuliano e Renato Augusto. Exemplos não vão faltar.

Enfim, digo isso para reforçar para tudo que tenho de cordial de que é importante, sempre, cultivar essa vacilante chama da esperança. Mesmo que a má fase do meu time pareça eterna; ou o momento do país pareça tão difícil. É porque a esperança me torna capaz de sonhar e, o mais importante, de dialogar em busca de consensos por dias, de fato, melhores no campo e no cotidiano.

Renato Salles

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