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Algo mudou

Por Renato Salles

07/08/2020 às 07h00 - Atualizada 06/08/2020 às 20h20

Confesso que já não sei mais quais mudanças estarão consignadas em nossa sociedade quando “tudo isso aí” passar. O fato é que o mundo não será o mesmo após a Covid-19. Para mal ou para bem. Tendo única e exclusivamente por base o instituto da minha percepção pessoal, já não guardo esperanças de que sairemos melhores como sociedade dessa. Mas, como nunca, torço para estar redondamente equivocado.

De qualquer forma, creio que a pandemia já tenha resultado em pequenas mudanças individuais. Mesmo que momentâneos, esses “novos normais” às vezes nos saltam aos olhos. Foi o que aconteceu aqui em meu isolamento social na última quarta-feira. Como no mundo pré-pandemia, passei o dia ansioso com o jogo decisivo programado para à noite, um Corinthians x Palmeiras na final do Paulistão. Frio na barriga. Sensação de tempo dilatado com o relógio correndo a passos de tartaruga. Nada de novo até aí, todavia.

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A sensação de que algo mudou só ficou escancarada quando a bola rolou, como o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. A primeira percepção de que havia algo diferente naquele momento se deu quando soltei um distinto e mais contido grito de “Vai, Corinthians”. Quando escutei minha própria, vi também que não estava rouco e o urro sóbrio me pareceu um tanto quanto fora de lugar.

Certamente, no “mundo normal”, eu estaria tenso acompanhando – ou tentando acompanhar – o jogo em um boteco, rodeado de amigos e desconhecidos. Na distopia, eu estava sozinho em casa, tomando Nescau e comendo um pão caseiro feito pela mãe. Não só isto: pasmo, eu estava assistindo à partida de fato, lance a lance, com foco exclusivo no embate, sem distrações outras, típicas do torcedor.

Atípica, a situação me levou a constatar novamente o óbvio: como são pobres nossos jogos decisivos e como nossos times se preocupam mais em não perder do que em vencer, de fato. Percebi, por fim, como certos rituais nos permitem nos satisfazer com espetáculos tão ruins. Acho até que vou abrir uma cervejinha antes e durante a partida de volta da final do Paulistão neste sábado. A nova realidade escancarou o fato de que sinto mais falta de certos rituais do que do jogo em si.

Renato Salles

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