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Meu Ofício

Por Tribuna

26/06/2020 às 06h49 - Atualizada 25/06/2020 às 21h08

O trabalho social e público com as pessoas idosas da cidade tornou-se para mim um ofício por mais de 30 anos de cotidiano, de segunda a sexta-feira. E, muitas das vezes, abrindo e fechando o Departamento de Saúde do Idoso, localizado à Rua Batista de Oliveira 943. Um ritual sagrado de pleno significado existencial.

Algo bem próximo do fazer diário dos grandes artistas que temos no planeta. Penso que só quem tem muito amor ao que faz realiza um ofício. Eu, a essa “altura do campeonato”, vestindo toda a humildade, publicamente, defino para vocês, caros leitores e leitoras, que esse trabalho gerontológico (com idosos) me deu liturgia. Me inspirou poesia, me ofereceu literatura e me convidou para a arte. Descobri com a passagem do tempo, fora e dentro de mim, que não precisava ser uma pessoa idosa para estar com elas. E que também não deveria encarar a velhice como uma etapa negativa da nossa vida. E não é. Apesar dos pesares. De uma sociedade altamente preconceituosa e indiferente a todos nós que envelhecemos.

Pautei minha prática profissional sempre com bom humor, alegria e muita esperança. Precisava e preciso ter respeito e atenção às pessoas idosas e suas demandas e narrativas sobre si, suas relações com o mundo, a família e a sociedade. Esse meu ofício, compartilhado com muitos bons colegas e amigo/as profissionais da área, me temperou para a vida. Tenho a consciência tranquila, graças a Deus, de que esse trabalho público, me deu a oportunidade única de ser uma pessoa melhor.

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Estou sempre em construção. Não sou obra acabada. Assim como a história da humanidade não está dada – está em movimento -. Eu soube valorizar e desfrutar de um laboratório maravilhoso para a convivência humana, que foi estar no dia a dia das pessoas idosas. Escrevo com verbos no tempo do passado, porque, na verdade, estou em processo de transição profissional. Da vida ativa para a vida inativa. Como dizem os documentos oficiais, continuarei ativo. No protagonismo da realização dos meus desejos e interesses pessoais e profissionais. Como muita gente diz, cumpri um ciclo.

É chegada a hora do meu atrevimento de coragem na direção do futuro. Vou com o que coloquei para dentro da alma. Ou com o que a expandiu. Partirei com todas as coisas de um menino que deseja, além do abraço, o olhar amoroso dos avós que não estão mais em Porciúncula. Fizeram morada em meu coração. Eu vou continuar aprendendo. As portas se abrem, os horizontes se alargam, olhar as montanhas de Minas já não está tão distante como antes: é possível acordar o gigante que dorme em mim. Para ser maior a expressão da alma. Do afeto. Do amor. Para crescer agora, o meu ofício de registrar os sentimentos que me atravessam os dias. O gênero humano. A partir de mim necessito decodificar o que sinto. Chegar ao mais próximo possível daquilo que estou cozinhando na vida.

Ancorado nas palavras vivas e quentes de Nélida Piñon, com seu livro de memórias, “Uma Furtiva Lágrima”, escrevo, parafraseando-a, “pois nada deve ser esquecido, deixado ao relento. Há que pinçar a história dos sentimentos a partir da perplexidade sentida pelo homem que, na solidão da caverna, acendeu o primeiro fogo”. Meu ofício me ardeu a alma. Não escolhi. Sem nenhum tom de pieguice, fui escolhido. No mundo do envelhecimento cabe as minhas faltas, potências, limites e possibilidades que me fortalecem como ser humano. Desde cedo, poder estar com as pessoas idosas me deu humanidade. Juntou em mim a fome com a vontade de comer.

De agora em diante, eu vou só. Num voo solitário, mas cheio de presença. Dos amigos e das amigas, da minha família e de todos que vivem em mim e que animam a minha vida. Nunca estarei só, mesmo que sozinho! Minha razão de viver, a minha vida, o meu ofício pedem expressão e a presença das pessoas. O amor as faz chegar e ficar em mim. Ô benção!

Tribuna

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