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O tomador de conta

Por Jose Anisio Pitico

16/08/2019 às 06h01 - Atualizada 16/08/2019 às 07h07

Na minha trajetória profissional, ao longo de 35 anos de trabalho social com parte da população idosa da cidade, tenho alguns casos para contar. Situações inusitadas. São passagens, como se fossem páginas de um livro bom, que não esqueço, e que, de alguma forma, marcaram a minha passagem pelo serviço público municipal.

Certa feita, uma senhora, ao ser abordada por mim, eu percebendo que ela carecia de uma orientação qualquer, e eu não sabia do que se tratava. Ao me dirigir a ela, na recepção do Pró-Idoso, me lançou a seguinte sentença: o senhor que é o “tomador de conta” daqui? Eu fiquei um pouco sem entender o que ela quis dizer, mas acabei entendendo muito bem, a ponto de não perder essa história. A minha ficha caiu. Fiquei pensando: tomador de conta!!! O que isso significa para mim? A idosa estava certa. Ela, com toda a humildade do mundo e portadora de uma enorme sabedoria, me fez refletir de que na vida pública estamos sempre representando alguém, na defesa do interesse público (bom, eu penso que deveria ser assim).

No enfrentamento do modus operandi brasileiro, onde os interesses pessoais e familiares estão arraigados e presos aos representantes políticos e públicos no exercício de suas funções republicanas em detrimento dos interesses da coletividade e do próprio público, o que é do público tem dono: é do público. É nosso. Essa foi uma das principais lições que tive no exercício da profissão: sou o tomador de conta do espaço público. Sou pago para cuidar bem daquilo que não é meu, é da coletividade. Assim, me pautei e me coloco na defesa dos direitos das pessoas idosas e no respeito diário na convivência com essa fração etária de nossa cidade.

No início da minha entrada no campo gerontológico, não sabia muito bem como seria o meu desempenho. Não tive nenhum preparo formalizado para o trabalho. Na faculdade esse tema não tinha chegado à sala de aula. Não sabia ao certo, o que deveria fazer. A questão do momento era a seguinte: como assim, um rapaz recém-formado, com 24 anos de idade, ia trabalhar com pessoas idosas? Não tinha noção da representação que essa inserção profissional levaria para toda a minha vida profissional.

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Devo dizer à você leitor e leitora que não escolhi trabalhar com as pessoas idosas. Fui me entregando e com o tempo percebi que aqui é o meu lugar. No campo do envelhecimento humano cabem todas as minhas perguntas, possibilidades, conquistas, frustrações e movimentos da existência. É o lugar da possibilidade de se conhecer, de se enxergar e atentar para o sentido da vida. Ao mesmo tempo que aprendi que sou o tomador de conta daquilo que é dos outros, passei a tomar conta também daquilo que é meu. Minha forma de ser. Meu modo de encarar e viver a vida. Minhas relações familiares. Minhas relações sociais e políticas. Minhas amizades. Minhas leituras.

Aprendi a costurar. A dar um ponto pra fora, outro ponto pra dentro. O que tá fora, tá dentro. Aprendi também que para o bom relacionamento humano, pouco importa ou quase não tem efeito nenhum sobre as pessoas, a diferença de idade dos interlocutores. E aqui relato outro caso real da minha história. Quando fui apresentado ao grupo de idosos da ex-LBA – Legião Brasileira de Assistência -, uma senhora do alto da autoridade de seus anos, era mais uma do grupo, disse assim, em tom de desaprovação à minha chegada: “O que esse menino vai fazer com a gente aqui?”. Esse foi o meu batismo de chegada. Ela fingiu que não disse isso, eu fingi que não ouvi também. Mas foi duro.

Foi difícil, porque sem nenhum preparo, aceitei o convite que a Zeneida (assistente social) me fez. Nessa época, ela estava Diretora do Centro Regional da LBA em JF, considerando que toda a gestão dos programas sociais estava em BH. Nesse período, começava a transição do trabalho social com as pessoas idosas da LBA para a Prefeitura, depois de longas tentativas e investimentos políticos para que a cidade tivesse um programa social destinado às pessoas idosas. O que aconteceu em 1988, no dia 17 de junho, com a criação do Pró-Idoso da Amac, na primeira administração do ex-prefeito Tarcísio Delgado. O cuidador de pessoas de todas as idades!

Ficou a lição para mim, dessas duas situações, caro leitor e prezada leitora. A primeira: sou tomador de conta daquilo que é do público e o que é do público é nosso, tem dono. Bom seria, se essa mentalidade tivesse presente nas assinaturas de nossos representantes públicos. A outra lição: é a de que respeito não tem idade. Na construção de relações sociais entre profissionais e pessoas, pouco importa o acúmulo dos anos, o que vale mesmo é a possibilidade do encontro, que só virá se houver atenção, compaixão e interesse em ajudar. Foi o que aconteceu comigo. Não fiz nada sozinho. O que construí, devo a tanta gente, a muitas pessoas, a autoridades políticas, competentes profissionais, professores inesquecíveis, que me ajudaram na formação profissional para o exercício de assistente social na PJF. Fiz um bom combate. E guardei a fé.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

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