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Isso é coisa de velho!

Por Jose Anisio Pitico

16/07/2021 às 07h00 - Atualizada 15/07/2021 às 19h39

As nossas relações sociais, as nossas relações com as pessoas, são desenvolvidas a partir do momento que nascemos. Começando com os nossos familiares, pai e mãe. Ao longo do nosso crescimento existencial passamos pela infância, adolescência, período adulto e chegamos ao nosso envelhecimento. Na verdade, não chegamos, assim, de paraquedas a esse momento de nossa vida. Sem percebermos, e muito menos, sem nos prepararmos, o tempo passou, e “só Carolina não viu”. Estou com 60 anos, é o meu caso. Que caminhos seguir? Do ponto de vista pessoal, penso que é preciso estabelecer metas para a vida, propósitos, construir sentido, seguir na direção do seu mundo interior, o que faz a alma vibrar. Estando no processo de envelhecimento, sem a rotina funcional do trabalho institucionalizado, é preciso continuar vivendo e vivendo com qualidade de vida, sem adoecer. Contar com o apoio da sociedade nessa fase de vida é bobagem. Como são as pessoas, somos nós que criamos a vida social, é preciso correr atrás, como se diz; buscar a satisfação no dia a dia e fazer o que os estudiosos indicam: reinventar-se. Para mim, é fundamental escrever no papel – para não esquecer – quais são os objetivos que você deseja alcançar na vida, no momento atual de seus dias. O fortalecimento da nossa busca pessoal para a cura de nós mesmos é muito importante na trajetória que empreendemos em busca de nós mesmos.

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Quando se chega a ter (conquistar) mais tempo de vida e na vida, o grau de consciência subjetiva e social tende a aumentar. Eu espero e desejo que assim seja. E já estando vivenciando o meu processo de envelhecimento e trabalhando profissionalmente com as pessoas idosas, penso que algumas ou muitas questões tidas como certas, precisam ser revistas. Desconstruídas. Para esse propósito, é que escrevo a crônica de hoje. Do que estou falando ou o que quero me comunicar com vocês, caros leitores e leitoras? Quero dizer a você que me dá importância com a sua leitura, dessas linhas, que precisamos rever – para mudar – toda a nossa educação social sobre a forma que vemos e nos relacionamos com as pessoas idosas no nosso cotidiano. Começando, como eu sempre falo por aqui, dentro da nossa casa. E dizer também, que jamais podemos “esquecer” que, se não morremos antes da hora, também seremos e ficaremos idosos e idosas. Porque o envelhecimento faz parte da nossa história de vida. Uma outra comunicação que eu quero fazer aqui, nessa necessária e urgente revisão de nossa educação sobre a nossa maturidade é a de que precisamos eliminar os preconceitos, tabus e mitos que envolvem esse tema. E como podemos fazer isso?
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Nossa cultura é muito hostil ao nosso privilégio de envelhecer. É um privilégio, sim, principalmente, nos tempos de hoje, de pandemia e de outras fortes intempéries na vida. Precisamos potencializar – positivar – a conquista da longevidade. As narrativas presentes no nosso cotidiano, até mesmo, em falas oficiais, com ideias e comentários carregados de preconceitos, raivas e frustrações sobre a velhice, que naturalizam a morte dos mais velhos, estão ultrapassados. Esses, sim, envelheceram. Dizer que esse ou aquele comportamento é “coisa de velho”, com a intenção de diminuir a pessoa pela idade, é ser “cringe”. Vivemos numa época social em que todo mundo tem que saber de tudo e dar opinião sobre tudo, principalmente sobre a vida das outras pessoas: ficamos íntimos de quem não conhecemos (e nem vamos conhecer) e estrangeiros dentro de casa, com os nossos, que são, de verdade. Mundo estranho, esse!!! Nessa pegada contemporânea, de relações líquidas, desvaloriza-se a memória. Justamente as pessoas idosas que podem falar sobre nossa família, nossa cidade, nossos costumes e hábitos, nossa história. Isso sim é “coisa” de velho. Relembrar. Recordar. Reviver. Mas não ficando naquilo que narra, mas presente ativamente, ajudando a construir o futuro de todos nós, da cidade e do mundo. O progresso da humanidade, principalmente, o progresso espiritual ou civilizatório, tende a aumentar com a mudança do tratamento social oferecido às pessoas idosas. Portanto, eu me atrevo a dizer, que uma nação ou uma cidade será tanto mais civilizada, quanto mais dispensar atenção e interesse aos seus habitantes e/ou moradores idosos.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

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