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O Flávio, morreu de quê?

Por Jose Anisio Pitico

15/05/2020 às 07h00 - Atualizada 14/05/2020 às 17h43

Eu tenho a percepção, a intuição de que todo artista – aquela pessoa que busca expressar as suas emoções e os seus sentimentos – deseja ter um contato, uma aproximação – com o mundo emocional das outras pessoas. Atingir, no bom sentido, o seu público. O artista deseja ter uma troca. Comunicar. Só um parêntesis aqui. Eu percebia essa necessidade, em casa, quando meu pai, no seu “ateliê”, ao terminar de criar uma peça, no seu torno de madeira, fazia muita questão, de mostrar a sua arte para a primeira pessoa que estivesse em casa. Às vezes, ele se ausentava tanto da rotina da casa, para ficar presente ao seu momento mágico de criação, que não dava conta de perceber quem estava em casa. No meu caso, por exemplo, quando escrevo, o faço na esperança de ser lido, e de merecer o seu comentário, prezado leitor e leitora. Não quero confetes. Quero conversa. Desejo abrir uma porta de comunicação entre nós. É essa resenha que alimenta a minha alma. Que dá fôlego ao diálogo humano. E é a razão de viver.

Que só tem sentido ontológico na/com a presença do outro. Embora o filósofo francês tenha nos advertido, lá trás, que “o inferno são os outros”.(J.P. Sartre). Se, essa afirmação – guardadas as devidas circunstâncias – for direcionada para a avaliação do exercício público das funções desempenhadas, pela maioria, dos nossos políticos, o filósofo está atualizado: porque, as boas intenções ditas e proclamadas por eles, levam muita gente para o oposto do paraíso.

Falando sobre artista, um dos gigantes que subiu para o andar de cima, essa semana que passou foi o grande ator Flávio Migliaccio. Eu, criança, de 11, 12 anos, na carência de recursos materiais para brincar, usava e abusava da imaginação como companhia inseparável para criar universos paralelos. A TV em preto e branco, colorado, da telefunken, ajudava muito e era central para o combustível da ilusão. Eu era só mais uma criança! Vários programas televisivos estão na minha memória. Vários seriados, desenhos animados. Entre outros e tantos. Nacional Kid. Com aquela musiquinha bem chatinha. Terras dos Gigantes. Adorava. Túnel do tempo. Imperdível. Horas e horas de pura magia. Mas, o melhor de todos, que eu não perdia um dia, era o Shazan, Xerife e Cia. Com os atores Paulo José e Flávio Migliaccio, respectivamente no papel-título do seriado. Passava na Globo, todo fim de tarde. Eu via comendo pastel de banana, do “ZéJão”. Uma venda que tinha na Rua Bernardo. No Beco Treme-Terra. Vendia também uma cocada deliciosa.

O Xerife fazia a gente rir mais do que o Shazan. Esse era mais sério. Dava ordens. A “camicleta” – a bicicleta voadora – era o mundo deles, dos sócios. Tinha tudo dentro dela. Com uma faixa emblemática na direção. “Conserta tudo, até coração”. Que enorme diferença cultural, se comparado com as produções educativas, de hoje. O tempo passou. Nós envelhecemos.

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O Flávio depois de tanto sucesso na carreira e reconhecimento do grande público decidiu desistir de viver. Busco e encontro amparo na belíssima e bem escrita crônica  – como de costume – todas as quintas-feiras – do grande jornalista, da Tribuna de Minas, Marcos Araújo, no seu “Desabafo de quarentena” (07/05/20) quando deixa escrito que país é esse em que um velho e renomado ator em sua carta de morte diz que: “me desculpem, mas não deu mais. A velhice neste país é o caos, como tudo aqui.. A humanidade não deu
certo. Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora… Num país como esse. É com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças..”?

O Márcio Cândido, outro grande ator, que é da nossa cidade, diz a mesma coisa: “o ser humano é um projeto que não deu certo! Só sei dizer a vocês que fiquei muito impactado com a coragem do Migliaccio. E indignado. Sentimento bem expresso, na intervenção pública, através das redes sociais, de um outro monstro sagrado da cultura brasileira. Lima Duarte. Como se não fosse muito deixar de cantar “o bêbado e o equilibrista” com a partida do Aldir Blanc. O país fica pobre. E mais feio. E mais pesado. Sem o vírus do amor.

Afinal de contas, o Flávio morreu de quê? Morreu de vida. Fica a lição. Será?

PS: Parabéns ao/as colegas Assistentes Sociais pelo dia de hoje!

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

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