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O que me enche a alma de delicadeza?

Por Jose Anisio Pitico

07/08/2020 às 07h00 - Atualizada 06/08/2020 às 20h14

A passagem do tempo tem me talhado para a busca e para o movimento do meu autoconhecimento. Desejo sim, e isso é uma tarefa para a minha vida inteira, ir ao encontro e me entregar totalmente ao que me faz feliz. Pode ser qualquer coisa! Qualquer coisa pode ser a casa da poesia. Adélia Prado, poeta mineira, se expressa em alguma obra sua, algo parecido com essa exclamação. Eu me imagino sempre comunicando com o que vejo. Com o que os meus olhos enxergam. E é bom saber que eles não enxergam tudo de uma vez só. Porque amanhã eu posso ver a mesma coisa com um olhar muito diferente. E será sempre novo para mim. Sem novidade a alma não evolui. Caros leitores, leitoras, o que eu recebi, de novidade, com o trabalho social com as pessoas idosas, no meu cotidiano, é algo assim, impressionante. Cada pessoa idosa com o seu universo particular. Suas necessidades próprias. Faltas generalizadas. Do remédio para o corpo. Mas, principalmente a falta do remédio para a alma: depressão, angústia, sofrimento de várias ordens, abandono, solidão. Para essas dores, a gente não encontra, não compra nas farmácias. Nem na do SUS e nem de outro lugar. Não adianta placebo, medicação equivocada, receitar remédio para a falta daquilo que não passa: o filho que bate na mãe; a neta que maltrata a avó; o sobrinho que rouba dinheiro da tia para comprar droga; e o neto que obriga o avô a fazer empréstimo consignado e sua dívida com o banco só aumenta. Doenças da alma. Tão perto de nós.

É muito bom ter a possibilidade presente de mudar a qualidade dos nossos pensamentos e o que colocamos na nossa cabeça. Por isso, eu penso que para alcançar aquilo que a gente ama é fundamental ter disciplina e dedicação. Conhecer a si mesmo é muito doloroso. E é preciso ter coragem. Mas penso sinceramente que não temos outra saída. Nosso compromisso principal deve ser com a gente mesmo. Por isso, eu entendo que a arte, a cultura, a educação são fundamentais na contribuição para a edificação de nossa jornada existencial. Sem elas estamos perdidos. E infelizmente é essa perdição que estamos vivendo no país. Porque esses alicerces estão no chão, desvalorizados por nossos (alguns) representantes políticos. Acredito que um outro futuro é possível de ser construído. Um futuro que exatamente, através da nossa ação política, ofereça escola, alimentação e momentos lúdicos às crianças. Aos adolescentes sejam oferecidos diariamente sonhos, na convivência de outros colegas. Com estudo e trabalho. Sem sonhos é impossível viver! Aos nossos idosos e à todos nós que envelhecemos, que possamos ter respeito, atenção e civilidade no trato diário de nossas relações sociais e familiares. Delicadezas! Minha alma tem fome e sede de acolher e amar as pessoas que estou conhecendo pela primeira vez.

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Não quero ter cerimônia para amar a quem estou conhecendo nesse momento. Para o exercício do amor nenhuma pessoa é visita e nem chega sem avisar a sua casa. A casa do amor não tem portas. O que mais me enche a alma de delicadezas? Uma boa música. Uma boa leitura de um livro. Uma boa conversa. Saborear um pastel de queijo, quentinho, na padaria da esquina. É arrumar a cama de casal que você dorme e acorda nela todos os dias. É colocar a mesa para o café e quando terminar, não esquecer de colocar o pano de filó sobre o mamão picado pensando servir o filho que está dormindo. Eu sei que o nosso tempo não está para isso. Mas é preciso transgredir essa ordem. Subverter. Reinventar a vida, como escreve Cecília Meireles. Outra grande escritora. Ser delicado é esperar a sua vez na fila. Diferente de ser uma pessoa boa. Ou de ser esperta. Diferença de ser velho e velhaco. Velhaco é quem acha que te passa para trás. Ou tenta. Delicadeza e gentileza andam juntas. Precisamos das duas para os nossos dias.

Finalizando. Só para esclarecer. Na crônica da semana passada, intitulada, “Começaria tudo outra vez”, cometi um equívoco. E vou reparar ele aqui. Meu desligamento profissional da PJF está errado. Vou até o dia 17 de agosto na função. Depois férias. E aí sim, entro na aposentadoria. Já pensando em receber e e oferecer delicadezas. Feliz Dia dos Pais!

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

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