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Eleições municipais e as pessoas idosas!

Por Jose Anisio Pitico

05/06/2020 às 06h48 - Atualizada 04/06/2020 às 21h49

Sob o véu angustiante da pandemia presente nesses dias de manhãs frias com sol claro de muita luz, certo é, também, que o calendário eleitoral da República pede passagem e avança no cronograma político para o cumprimento de suas metas. As eleições municipais estão aí. Acredito que, pelo “andar da carruagem”, elas serão adiadas para o final do ano. Será uma outra praga? Não. As eleições são muito importantes. O exercício da política, por mais que esteja desgastado e deturpado pelos maus políticos, é uma atividade nobre. No contato diário com as pessoas idosas que participam dos programas sociais públicos, observo que a percepção que essa parcela da população tem da classe política é muito negativa; carregada de uma descrença geral no que os políticos falam; não acreditam no que ouvem. Eu entendo que esse sentimento que leva ao afastamento da participação política dos idosos (alguns) nas eleições está muito ligado à frustração de que, quando precisaram ou precisam do apoio político, não tiveram ou não tem. A sensação que eu percebo quando converso de política nesse ambiente é a de que os idosos têm a leitura da desconfiança, de que são “passados para trás”, até porque já vivenciaram vários momentos de eleições em suas vidas e não foram atendidos.

O Brasil não tem tradição histórica e cultural na atenção pública a pessoas idosas. Com o coronavírus, as pessoas idosas ganharam mais visibilidade pública. É como se agora passassem a existir. E, com eles, vem à cena da cidade uma importante questão ética: quem tem direito à vida: os jovens porque terão futuro ou os idosos, porque têm a morte como certa? Na verdade, o conflito se estabelece entre a vida e a economia. Infelizmente, da forma que nós tratamos as pessoas idosas, com muitos preconceitos, anos e mais anos de descaso social e público com o nosso envelhecimento, não há dúvida de que estamos descendo a ladeira, estamos indo, todos nós, ao encontro do nosso fim, antes da hora. Estaremos morrendo ou sendo mortos com vida pela frente. Com a Covid, morrer passa a ser uma categoria exclusiva das pessoas mais velhas. E é muito natural, é muito normal que os idosos morram mesmo. É o que o médico gerontólogo e ex-diretor da OMS, Dr. Alexandre Kalache denomina de gerontocídio: a morte de alguém que vive muito. E essa violência contra as pessoas idosas não é recente, não veio com o “corona”. Desde que o mundo é mundo, a aceitação de ser velho é uma questão polêmica e de causar espécie em muitas culturas.

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No universo populacional de nossa cidade que conta com mais de 90 mil pessoas, consideradas idosas, com a idade de 60 anos em diante, vem a questão: que cidade elas e eles querem para envelhecerem bem com qualidade de vida? Em se tratando de eleições municipais para prefeito/a e vereador/a, quais candidato/as efetivamente vão se importar com o envelhecimento do/as cidadão/as de nossa comunidade? Onde estão e quais são esse/as candidato/as? Ou será que vão passar, como de praxe, o período eleitoral, com propagandas políticas, sem dirigir-se à população que mais cresce no Brasil e nas cidades, que é a população idosa?

Se, no discurso de alguns/as candidato/as, as pessoas idosas não ganham palavras de atenção e reconhecimento, porque será que elas ainda não fizeram a revolução? Fiquem atento/as. A começar pelo laboratório de observação das seguintes questões: que a empolgação e a emoção do/a candidato/a permaneçam no exercício do cotidiano do Poder, quando empossado/a prefeito/a; que o/a candidato/a não perca de sua frente a defesa de suas ideias, enquanto estava candidato/a; que a rotina massacrante dos dias no Gabinete do Poder não destrua o brilho dos olhos da paixão pela militância social, quando pedia votos nas ruas. Com esse pequeno manual de monitoramento do comportamento do candidato/a e futuro prefeito/a, ouso em dizer, prezado leitor e leitora, que falta aos nossos políticos – à grande maioria deles – sentir o que lhes saem da boca, sentir o que ele/as falam. Aprendi com as próprias pessoas idosas, que o que passa pela cabeça, pelo intelecto não é mesma coisa daquilo que está na profundeza da alma de quem fala. E, principalmente, de quem ouve. Chega de falar da “boca pra fora!”

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar. Também é colaborador da Rádio CBN Juiz de Fora com a coluna Melhor Idade. Contato: (32) 98828-6941

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