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Regresso

Por Nara Vidal

25/10/2020 às 06h55 - Atualizada 22/10/2020 às 19h38

Ando pensando muito na minha vó materna. Pensando que eu planejava voltar à casa que foi dela só para espiar meus restos deixados entre aquelas paredes. Talvez eu escute um eco, ou encontre o sentido da vida ao olhar para trás e enxergar um fio condutor de um começo. Não sei quando vou poder voltar lá. Você sabe, leitor, aquela história de fazer planos está congelada.
Na Rua Coronel Ladeira, eu morava de um lado e asavós, do outro. Era um pulo para chegar em qualquer uma das casas que prolongava a minha própria. A casa da vó Rita e a casa da vó Lalai.
Desde muito nova fiz da minha segunda casa a casa da vó materna. Circunstâncias, talvez. Minha mãe trabalhava de manhã, de tarde e, às vezes, de noite, e ela deixava as filhas na casa da própria mãe. Era a forma mais rápida e descomplicada de ter ajuda. Naquela casa antiga e, por vezes, velha mesmo, eu fui feliz além da conta. Penso no banheiro da casa da vó que não tinha azulejo, era de cimento que arranhava. Tudo era muito básico, tudo tinha sacrifício, tudo tinha um amor desmedido e lá eu me sentia em casa.
Havia um terreiro que nem era grande, mas na minha lembrança era do tamanho de um país. Lá ela cultivava flores das mais diversas. Meu avô perambulava em algumas construções sem acabamento que a gente chamava de coberta. Tinha três cobertas. Só me lembro com nitidez da primeira e da última. Sempre lugar de escorpiões que eu nunca vi, as cobertas eram também os depósitos de objetos que eu nem ouso buscar tão fundo na memória por medo de corte na harmonia do meu dia. São lembranças que perfuram porque, de fato, significaram além da conta e agora, se concluíram.
Quando eu fugia de casa aos sete anos, era no outro lado da rua, naquela casa tão velha que eu me abrigava. No quarto que ficava dentro do quarto da vó eu dormia como uma princesanuma cama que rangia, que era velha, mas que tinha lençóis passados a ferro para me esquentar, cobertas quentinhas e fronha fresca. Tinha a mão de dedos tortos da vó alisando meus cabelos ao me desejar boa noite. Tinha um beijo na testa tímido do vô, orgulhoso da visita muito frequente.
Os brinquedos eram simples. Sofás e cadeiras paras bonecas feitos de caixas de fósforos, forrados com papel de presente. “Vó, fuma mais, mais e mais pra gente ter mais caixas de fósforo e conseguir fazer uma sala super luxo.”Ela concordava, entre uma tosse longa e outra.
Durante a lida da cozinha, o som alto da fritura e da faca amolando na pedra, eu tinha a permissão para mudar a estação de rádio do vô e colocar a Rádio Mundial AM que tocava músicas em inglês que me faziam chorar de amor.
“Vó, estou apaixonada.”
“Por quem, menina? Desde quando?”
“Não sei. Mas sei que é amor de verdade. Dura uma música inteira!”
Depois de assistir ao Sítio, a mãe chegava e me levava para casa. A hora chata: banho, jantar para comer legumes, dever.
A mãe exausta ainda tinha que insistir para que eu me alimentasse bem depois de ter passado o dia sob tutela da avó que me oferecia doces e biscoitos. As avós não têm juízo nenhum.
Tenho pensado na minha avó, nas suas mãos, mas mais que pensar nela, estou aqui agarrada às palavras, imagens e memória rala e imprecisa para juntar peças que me fortaleçam para poder esperar. Aguardar mais um tempo, mais um ano, mais um pouco antes de, quem sabe, ter a chance de ir lá olhar aqueles cômodos, as paredes e ver minha sombra de menina. Sair de casa nos emancipa. Voltar nos fortalece.

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Nara Vidal

Nara Vidal

Nara Vidal é escritora. Nascida em Guarani, Zona da Mata mineira, em 1974, há quase duas décadas vive em Londres. É autora de mais de uma dezena de títulos, a maioria deles publicados em português. Dentre eles, os infanto-juvenis "Dagoberto" (Rona Editora) e "Pindorama de Sucupira" (Penninha Edições), os de contos "Lugar comum" (Passavento) e "A loucura dos outros" (Reformatório), e o romance "Sorte" (Moinhos), premiado com o terceiro lugar no Oceanos de 2019.

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