{"id":45850,"date":"2026-03-05T09:10:00","date_gmt":"2026-03-05T12:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/?p=45850"},"modified":"2026-03-05T11:36:43","modified_gmt":"2026-03-05T14:36:43","slug":"neblina-da-amazonia-carrega-microbios-vivos-que-podem-influenciar-chuvas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/neblina-da-amazonia-carrega-microbios-vivos-que-podem-influenciar-chuvas\/","title":{"rendered":"Neblina da Amaz\u00f4nia carrega micr\u00f3bios vivos que podem influenciar nas chuvas"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao amanhecer na Amaz\u00f4nia, a neblina que surge sobre as \u00e1rvores n\u00e3o \u00e9 apenas vapor d\u2019\u00e1gua. Cientistas descobriram que essas got\u00edculas carregam microrganismos vivos, como bact\u00e9rias e fungos, capazes de sobreviver \u00e0 viagem atmosf\u00e9rica e, possivelmente, influenciar a forma\u00e7\u00e3o de nuvens e chuvas. <\/p>\n\n\n\n<p>O achado, descrito na revista Communications Earth and Environment, revela um componente invis\u00edvel, por\u00e9m ativo, do complexo ciclo clim\u00e1tico amaz\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa foi realizada na Reserva do Uatum\u00e3, a cerca de 156 quil\u00f4metros de Manaus, e representa o primeiro registro de microrganismos vivos em got\u00edculas de neblina na Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Madrugadas suspensas a 42 metros do ch\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O estudo nasceu da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da pesquisadora Bruna Grasielli Sebben, atualmente doutoranda no Instituto Max Planck. Para coletar as amostras, ela passou in\u00fameras madrugadas no alto de uma torre do Observat\u00f3rio de Torres Altas da Amaz\u00f4nia (ATTO), posicionada a 42 metros acima do solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 3h e 7h da manh\u00e3, imersa na n\u00e9voa espessa, a pesquisadora operava um equipamento que aspirava o nevoeiro e condensava a \u00e1gua em pequenos frascos. Era preciso garantir que n\u00e3o chovesse, para n\u00e3o comprometer as amostras. <\/p>\n\n\n\n<p>O material coletado seguiu para an\u00e1lise no Instituto Adolfo Lutz, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vida invis\u00edvel nas got\u00edculas<\/h2>\n\n\n\n<p>As an\u00e1lises revelaram a presen\u00e7a de oito esp\u00e9cies de bact\u00e9rias e sete de fungos vivos. Entre eles estavam a bact\u00e9ria Serratia marcescens e o fungo Aspergillus niger, conhecidos por sua ampla distribui\u00e7\u00e3o no solo e em mat\u00e9ria org\u00e2nica em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A grande quest\u00e3o passou a ser: como esses organismos, tipicamente associados ao solo e \u00e0s plantas, alcan\u00e7aram as got\u00edculas suspensas sobre a copa das \u00e1rvores?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das hip\u00f3teses aponta para correntes de ar ascendentes que transportam part\u00edculas microsc\u00f3picas at\u00e9 as camadas superiores da floresta, onde a neblina se forma. Diferen\u00e7as de carga el\u00e9trica entre part\u00edculas e got\u00edculas podem favorecer a ades\u00e3o dos microrganismos, que acabam incorporados ao nevoeiro.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um \u201celevador\u201d biol\u00f3gico para a atmosfera<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo o qu\u00edmico Ricardo Godoi, da Universidade Federal do Paran\u00e1, a neblina pode funcionar como um abrigo tempor\u00e1rio. Dentro das got\u00edculas, os micr\u00f3bios ficam protegidos contra a radia\u00e7\u00e3o ultravioleta e o ressecamento, aumentando suas chances de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o sol nasce e a neblina se dissipa, parte desses microrganismos permanece suspensa no ar. Nesse est\u00e1gio, eles podem atuar como n\u00facleos de condensa\u00e7\u00e3o, part\u00edculas que facilitam a forma\u00e7\u00e3o de novas got\u00edculas em altitudes maiores.<\/p>\n\n\n\n<p>O f\u00edsico Heitor Evangelista, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirma que o nevoeiro age como um verdadeiro \u201celevador\u201d biol\u00f3gico. Ao transportar esses organismos para camadas superiores da atmosfera, contribui potencialmente para iniciar a forma\u00e7\u00e3o de nuvens. <\/p>\n\n\n\n<p>Em outras palavras, a floresta n\u00e3o apenas evapora \u00e1gua: ela participa ativamente da engenharia das pr\u00f3prias chuvas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ciclo da \u00e1gua<\/h2>\n\n\n\n<p>A Amaz\u00f4nia j\u00e1 \u00e9 reconhecida por seu papel central na reciclagem de umidade. Estimativas indicam que cerca de metade da chuva que cai sobre o bioma \u00e9 gerada por processos internos da pr\u00f3pria floresta. <\/p>\n\n\n\n<p>Parte desse vapor segue pelos chamados \u201crios voadores\u201d, levando umidade para o centro-sul do Brasil e at\u00e9 a bacia do Prata.<\/p>\n\n\n\n<p>A descoberta de um \u201cecossistema da neblina\u201d adiciona uma nova pe\u00e7a a esse quebra-cabe\u00e7a clim\u00e1tico. Se microrganismos ajudam a iniciar a forma\u00e7\u00e3o de nuvens, ent\u00e3o a biodiversidade amaz\u00f4nica pode ter influ\u00eancia direta na regularidade das chuvas, inclusive em regi\u00f5es agr\u00edcolas distantes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Desmatamento <\/h2>\n\n\n\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da floresta por pastagens ou lavouras pode alterar drasticamente esse delicado sistema. Estudos apontam que \u00e1reas desmatadas podem registrar aumento de at\u00e9 3 \u00b0C na temperatura do solo e redu\u00e7\u00e3o nas chuvas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a fuma\u00e7a das queimadas modifica a composi\u00e7\u00e3o da atmosfera. Diferentemente dos microrganismos transportados pela neblina, part\u00edculas de fuligem tendem a dificultar a forma\u00e7\u00e3o de nuvens, atrasando ou reduzindo a precipita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O climatologista Carlos Nobre, da Universidade de S\u00e3o Paulo, alerta que a degrada\u00e7\u00e3o da floresta pode comprometer n\u00e3o apenas o regime de chuvas amaz\u00f4nico, mas tamb\u00e9m o abastecimento h\u00eddrico e agr\u00edcola de outras regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Entender e proteger esses mecanismos pode ser decisivo para o futuro das chuvas, da agricultura e do equil\u00edbrio ambiental em grande parte da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao amanhecer na Amaz\u00f4nia, a neblina que surge sobre as \u00e1rvores n\u00e3o \u00e9 apenas vapor d\u2019\u00e1gua. 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