{"id":26509,"date":"2025-08-06T19:45:00","date_gmt":"2025-08-06T22:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/?p=26509"},"modified":"2025-08-05T19:30:23","modified_gmt":"2025-08-05T22:30:23","slug":"descoberta-de-genes-da-hibernacao-abre-caminho-para-novos-tratamentos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/descoberta-de-genes-da-hibernacao-abre-caminho-para-novos-tratamentos\/","title":{"rendered":"Descoberta de genes da hiberna\u00e7\u00e3o abre caminho para novos tratamentos"},"content":{"rendered":"\n<p>A hiberna\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo fisiol\u00f3gico presente em diversas esp\u00e9cies de mam\u00edferos, no qual o corpo entra em um estado de metabolismo extremamente reduzido, acompanhado por uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da temperatura corporal, da frequ\u00eancia card\u00edaca e da atividade cerebral. <\/p>\n\n\n\n<p>Animais como ursos, morcegos e esquilos terrestres hibernam naturalmente para sobreviver a condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas adversas e \u00e0 escassez de alimentos durante o inverno.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A descoberta gen\u00e9tica que reacende esperan\u00e7as m\u00e9dicas<\/h2>\n\n\n\n<p>Pesquisadores da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, identificaram um conjunto de genes e elementos reguladores ligados \u00e0 hiberna\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m est\u00e3o presentes nos seres humanos. <\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos, publicados na revista Science, mostram que o segredo para resistir a doen\u00e7as metab\u00f3licas e proteger o sistema nervoso pode estar adormecido dentro de n\u00f3s mesmos, literalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses genes, quando ativados em animais que hibernam, controlam mecanismos altamente adaptativos, regula\u00e7\u00e3o da insulina, prote\u00e7\u00e3o cerebral, controle do apetite e da gordura corporal. A grande revela\u00e7\u00e3o \u00e9 que os humanos tamb\u00e9m carregam esses genes, apenas n\u00e3o os ativamos da mesma forma.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Genes que n\u00e3o produzem prote\u00ednas, mas controlam tudo<\/h2>\n\n\n\n<p>A chave para essa descoberta s\u00e3o os chamados CREs (elementos de resposta cis-regulat\u00f3rios), localizados perto do locus FTO, uma regi\u00e3o gen\u00e9tica conhecida por influenciar o metabolismo e o risco de obesidade. Embora os CREs n\u00e3o codifiquem prote\u00ednas, eles atuam como interruptores que ativam ou desativam genes cruciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cientistas testaram a fun\u00e7\u00e3o desses elementos em camundongos, utilizando a t\u00e9cnica CRISPR para desativar seletivamente cinco CREs. Mesmo sem hibernarem, esses animais entram em torpor, um estado de baixa atividade provocado pelo jejum. Os resultados foram surpreendentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Experimentos revelam altera\u00e7\u00f5es profundas no comportamento e metabolismo<\/h2>\n\n\n\n<p>A edi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica feita nos camundongos revelou como pequenas altera\u00e7\u00f5es em elementos reguladores podem impactar significativamente o funcionamento do corpo. Os efeitos variaram de acordo com o elemento desativado:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>F\u00eameas com o CRE E1 desativado ganharam mais peso ao consumir dietas ricas em gordura.<\/li>\n\n\n\n<li>J\u00e1 a remo\u00e7\u00e3o do CRE E3 alterou o comportamento alimentar de machos e f\u00eameas, modificando como buscavam alimentos escondidos em um ambiente experimental.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Essas descobertas sugerem que a diferen\u00e7a entre animais que hibernam e os que n\u00e3o o fazem pode estar nos CREs, e n\u00e3o nos genes em si. Ou seja, temos o mesmo &#8220;manual gen\u00e9tico&#8221;, mas usamos cap\u00edtulos diferentes.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Superpoderes biol\u00f3gicos<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante a prepara\u00e7\u00e3o para a hiberna\u00e7\u00e3o, animais como o esquilo terrestre desenvolvem temporariamente resist\u00eancia \u00e0 insulina, o oposto do que ocorre em humanos com diabetes tipo 2. Mas, ao entrarem no estado de hiberna\u00e7\u00e3o, essa resist\u00eancia desaparece. <\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator crucial \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o do sistema nervoso. Quando um animal sai da hiberna\u00e7\u00e3o, seu c\u00e9rebro volta a receber sangue de forma repentina, um evento que, em humanos, poderia causar um AVC. <\/p>\n\n\n\n<p>Os mam\u00edferos que hibernam desenvolveram mecanismos para evitar esses danos. Entender esses processos pode trazer benef\u00edcios importantes para o tratamento de les\u00f5es cerebrais e doen\u00e7as neurol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Humanos e a hiberna\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar do entusiasmo com a descoberta, os cientistas reconhecem os desafios. Os humanos n\u00e3o entram em torpor e n\u00e3o respondem aos est\u00edmulos ambientais e hormonais da mesma maneira que os animais hibernantes. <\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a ativa\u00e7\u00e3o dos genes associados \u00e0 hiberna\u00e7\u00e3o depende de combina\u00e7\u00f5es e momentos espec\u00edficos, que variam entre as esp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Joanna Kelley, professora de gen\u00e9tica da Universidade da Calif\u00f3rnia, o maior desafio \u00e9 compreender como ativar esses genes de forma segura e eficiente em humanos. J\u00e1 Kelly Drew, especialista da Universidade do Alasca, refor\u00e7a que o torpor n\u00e3o \u00e9 apenas resultado de jejum, mas de um complexo sistema sazonal e hormonal.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">De camundongos a humanos<\/h2>\n\n\n\n<p>Agora, a equipe da Universidade de Utah pretende ir al\u00e9m. O objetivo \u00e9 testar a remo\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea de m\u00faltiplos CREs e acompanhar os efeitos em organismos mais pr\u00f3ximos dos humanos. <\/p>\n\n\n\n<p>A longo prazo, o sonho dos pesquisadores \u00e9 desenvolver medicamentos que ativem esses genes espec\u00edficos, sem que seja necess\u00e1rio colocar uma pessoa em hiberna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa modula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica pode permitir, por exemplo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Tratamentos para diabetes tipo 2, ao controlar a sensibilidade \u00e0 insulina;<\/li>\n\n\n\n<li>Terapias de neuroprote\u00e7\u00e3o, especialmente para v\u00edtimas de AVC ou traumas cerebrais;<\/li>\n\n\n\n<li>Avan\u00e7os em medicina espacial, com a possibilidade de induzir estados de baixa atividade para viagens de longa dura\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>A descoberta dos genes da hiberna\u00e7\u00e3o representa mais do que uma curiosidade cient\u00edfica: \u00e9 um marco no entendimento do potencial humano oculto em nosso pr\u00f3prio DNA. Embora ainda estejamos distantes de aplicar essas descobertas em cl\u00ednicas ou hospitais, o caminho foi aberto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hiberna\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo fisiol\u00f3gico presente em diversas esp\u00e9cies de mam\u00edferos, no qual o corpo entra em um estado de metabolismo extremamente reduzido, acompanhado por uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica da temperatura corporal, da frequ\u00eancia card\u00edaca e da atividade cerebral. 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