{"id":25776,"date":"2025-07-29T19:35:48","date_gmt":"2025-07-29T22:35:48","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/?p=25776"},"modified":"2025-07-29T19:35:52","modified_gmt":"2025-07-29T22:35:52","slug":"caso-de-transfusao-negada-termina-com-derrota-judicial-da-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/caso-de-transfusao-negada-termina-com-derrota-judicial-da-familia\/","title":{"rendered":"Caso de transfus\u00e3o negada termina com derrota judicial da fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"\n<p>A morte de uma idosa ap\u00f3s uma fratura no f\u00eamur e a subsequente recusa da fam\u00edlia em aceitar uma transfus\u00e3o de sangue por motivos religiosos culminaram em uma disputa judicial que reacende um debate complexo, at\u00e9 onde vai o direito de recusar um tratamento m\u00e9dico em nome da f\u00e9, e qual \u00e9 a responsabilidade do Estado diante dessa escolha? <\/p>\n\n\n\n<p>Em julgamento recente, a Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo decidiu contra a fam\u00edlia da paciente, rejeitando o pedido de indeniza\u00e7\u00e3o por suposta omiss\u00e3o no atendimento. O caso, que envolve a religi\u00e3o das Testemunhas de Jeov\u00e1, exp\u00f5e o delicado equil\u00edbrio entre liberdade religiosa, limites m\u00e9dicos e obriga\u00e7\u00f5es institucionais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O contexto do caso<\/h2>\n\n\n\n<p>Em julho de 2023, uma idosa, integrante da religi\u00e3o Testemunhas de Jeov\u00e1, sofreu uma fratura de colo de f\u00eamur. Encaminhada ao Instituto de Assist\u00eancia M\u00e9dica ao Servidor P\u00fablico Estadual (Iamspe), a equipe m\u00e9dica indicou cirurgia como tratamento, procedimento que, no caso, previa a necessidade de transfus\u00e3o sangu\u00ednea. <\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia recusou formalmente a interven\u00e7\u00e3o por raz\u00f5es religiosas.<\/p>\n\n\n\n<p>A recusa seguiu os preceitos dessa f\u00e9, que n\u00e3o aceita transfus\u00f5es de sangue sob nenhuma hip\u00f3tese. A fam\u00edlia esperava que o hospital encontrasse uma alternativa compat\u00edvel com a cren\u00e7a da paciente, como a transfer\u00eancia para uma unidade habilitada a realizar cirurgia sem o uso de hemoderivados. <\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, dias se passaram, e os familiares alegaram que o hospital \u201cse manteve inerte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Alega\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia<\/h2>\n\n\n\n<p>Os parentes afirmam que o hospital p\u00fablico deixou de oferecer atendimento adequado ap\u00f3s a recusa da transfus\u00e3o. Para eles, a suposta neglig\u00eancia ocorreu principalmente no que consideraram uma demora excessiva na busca por uma alternativa hospitalar compat\u00edvel com a f\u00e9 da paciente. <\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia, ent\u00e3o, agiu por conta pr\u00f3pria, conseguiu vaga em um hospital particular, onde a cirurgia foi realizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, mesmo com o procedimento, a idosa faleceu. A certid\u00e3o de \u00f3bito apontou uma s\u00e9rie de causas: sepse, pneumonia, fratura, cardiopatia isqu\u00eamica e hipertens\u00e3o. A fam\u00edlia entrou na Justi\u00e7a pedindo indeniza\u00e7\u00e3o e reembolso dos custos com o hospital particular.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que provou o hospital<\/h2>\n\n\n\n<p>Em sua defesa, o Iamspe apresentou provas de que havia aberto um protocolo de busca por uma unidade hospitalar credenciada que aceitasse fazer o procedimento sem transfus\u00e3o. O hospital tamb\u00e9m demonstrou ter oferecido estrutura para o retorno da paciente, al\u00e9m de manter o acompanhamento cl\u00ednico enquanto aguardava a transfer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A Justi\u00e7a entendeu que n\u00e3o houve in\u00e9rcia por parte da institui\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o da 2\u00aa C\u00e2mara de Direito P\u00fablico destacou que a equipe m\u00e9dica se mobilizou diante da recusa, respeitou os direitos da paciente e atuou dentro das possibilidades cl\u00ednicas e log\u00edsticas oferecidas pela rede p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Condi\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas agravantes<\/h2>\n\n\n\n<p>Outro ponto considerado relevante pelo Tribunal de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo (TJSP) foi o estado de sa\u00fade da paciente. A idosa j\u00e1 apresentava anemia, insufici\u00eancia card\u00edaca e desconforto respirat\u00f3rio antes mesmo da cirurgia, fatores que aumentavam os riscos de qualquer procedimento, especialmente um sem transfus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o judicial ressaltou que realizar uma cirurgia ortop\u00e9dica desse porte em condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o restritivas, e sem o respaldo de transfus\u00e3o sangu\u00ednea, era um desafio de alta complexidade m\u00e9dica. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, concluiu-se que o hospital n\u00e3o pode ser responsabilizado pela escolha da fam\u00edlia nem pelo agravamento do quadro cl\u00ednico, que j\u00e1 era delicado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que diz o STF?<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde 2023, h\u00e1 uma decis\u00e3o clara do Supremo Tribunal Federal (STF) reconhecendo que pacientes adultos t\u00eam o direito de recusar tratamentos m\u00e9dicos por raz\u00f5es de consci\u00eancia ou cren\u00e7a religiosa, incluindo a transfus\u00e3o de sangue. No entanto, essa liberdade individual vem com limites pr\u00e1ticos e legais.<\/p>\n\n\n\n<p>A recusa, por exemplo, n\u00e3o se aplica automaticamente a decis\u00f5es m\u00e9dicas para menores de idade, nesse caso, o Estado pode intervir para garantir a vida da crian\u00e7a. Outro ponto importante, o STF admite que pacientes podem exigir do SUS o custeio de tratamentos alternativos, desde que esses j\u00e1 estejam dispon\u00edveis e n\u00e3o impliquem custos desproporcionais para o sistema p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O veredito e suas implica\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Com base nas provas, o TJSP decidiu manter a senten\u00e7a da 1\u00aa Vara C\u00edvel de Indaiatuba e rejeitou os pedidos da fam\u00edlia. A corte entendeu que o hospital cumpriu seu dever de tentar viabilizar um tratamento alternativo compat\u00edvel com a f\u00e9 da paciente, ainda que a resposta n\u00e3o tenha sido imediata. <\/p>\n\n\n\n<p>O pedido de indeniza\u00e7\u00e3o e o reembolso dos gastos m\u00e9dicos tamb\u00e9m foram negados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa decis\u00e3o judicial n\u00e3o apenas reafirma o direito individual \u00e0 recusa de tratamento m\u00e9dico por raz\u00f5es religiosas, como tamb\u00e9m delimita o alcance da responsabilidade institucional nesses casos. <\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, se o sistema de sa\u00fade p\u00fablico atua dentro de seus limites e respeita os direitos do paciente, n\u00e3o se pode falar em neglig\u00eancia ou omiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte de uma idosa ap\u00f3s uma fratura no f\u00eamur e a subsequente recusa da fam\u00edlia em aceitar uma transfus\u00e3o de sangue por motivos religiosos culminaram em uma disputa judicial que reacende um debate complexo, at\u00e9 onde vai o direito de recusar um tratamento m\u00e9dico em nome da f\u00e9, e qual \u00e9 a responsabilidade do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":25777,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jnews-multi-image_gallery":[],"jnews_single_post":{"format":"standard"},"jnews_primary_category":[],"jnews_social_meta":[],"jnews_override_counter":[],"jnews_post_split":[],"footnotes":""},"categories":[83,84],"tags":[],"class_list":["post-25776","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas","category-mais-tendencias"],"_referencia":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25776","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25776"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25776\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25778,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25776\/revisions\/25778"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25777"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25776"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25776"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25776"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}