{"id":23981,"date":"2025-07-14T17:28:54","date_gmt":"2025-07-14T20:28:54","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/?p=23981"},"modified":"2025-07-14T17:28:59","modified_gmt":"2025-07-14T20:28:59","slug":"cor-azul-nao-era-reconhecida-em-civilizacoes-antigas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/cor-azul-nao-era-reconhecida-em-civilizacoes-antigas\/","title":{"rendered":"Cor azul n\u00e3o era reconhecida em civiliza\u00e7\u00f5es antigas"},"content":{"rendered":"\n<p>Em sua busca por entender como a linguagem molda nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo, o linguista Guy Deutscher mergulhou em uma quest\u00e3o: por que a cor azul simplesmente n\u00e3o aparecia nos textos das civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas? <\/p>\n\n\n\n<p>Ao analisar documentos hist\u00f3ricos e registros lingu\u00edsticos de diversas culturas, ele descobriu algo surpreendente, durante muito tempo, o azul n\u00e3o existia como conceito nomeado. Isso n\u00e3o significava que as pessoas n\u00e3o viam a cor, mas que n\u00e3o a reconheciam como algo digno de distin\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O primeiro a notar<\/h2>\n\n\n\n<p>O alerta inicial sobre esse &#8220;apagamento crom\u00e1tico&#8221; veio do brit\u00e2nico William Ewart Gladstone, not\u00e1vel pol\u00edtico e estudioso da obra de Homero. Ao reler &#8220;A Il\u00edada&#8221; e &#8220;A Odisseia&#8221;, ele notou que as descri\u00e7\u00f5es eram ricas em imagens e met\u00e1foras, mas completamente desprovidas de men\u00e7\u00f5es ao azul.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9u nunca era azul. O mar, tampouco. Homero mencionava muito o branco e o preto, um pouco de vermelho, quase nada de verde e amarelo, mas nada, absolutamente nada de celeste, anil ou \u00edndigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspirado por Gladstone, o linguista Lazarus Geiger ampliou a investiga\u00e7\u00e3o. Examinou textos fundamentais de diferentes culturas: o Alcor\u00e3o, os Vedas hindus, a B\u00edblia hebraica, narrativas chinesas e sagas n\u00f3rdicas. <\/p>\n\n\n\n<p>Em todas elas, encontrou a mesma omiss\u00e3o. O c\u00e9u era muitas vezes descrito, assim como o dia, o sol, a noite e at\u00e9 o \u00e9ter, mas nunca era azul. Como se essa tonalidade n\u00e3o fizesse parte do vocabul\u00e1rio perceptivo dessas civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A ordem das cores<\/h2>\n\n\n\n<p>Geiger observou um padr\u00e3o curioso: as cores n\u00e3o surgiram aleatoriamente nas l\u00ednguas antigas. A evolu\u00e7\u00e3o seguia uma ordem recorrente, primeiro o preto e o branco (ou escuro e claro), depois o vermelho (por sua associa\u00e7\u00e3o com o sangue), em seguida o amarelo e o verde, e s\u00f3 por \u00faltimo, muito tempo depois, o azul. <\/p>\n\n\n\n<p>Essa hierarquia lingu\u00edstica parecia acompanhar o desenvolvimento das necessidades culturais e tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Azul para qu\u00ea? <\/h2>\n\n\n\n<p>Para o psic\u00f3logo Jules Davidoff, do Centro para Cogni\u00e7\u00e3o e Cultura da Universidade de Londres, a pergunta mais interessante n\u00e3o \u00e9 &#8220;por que o azul surgiu t\u00e3o tarde?&#8221;, mas sim &#8220;por que ele seria necess\u00e1rio antes?&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, nem o c\u00e9u nem o mar s\u00e3o sempre azuis. Eles mudam de cor, de acordo com a luz, o clima, o ponto de vista. Al\u00e9m disso, n\u00e3o s\u00e3o objetos tang\u00edveis, dif\u00edceis de definir cromaticamente. A utilidade de nomear a cor s\u00f3 surge quando h\u00e1 uma necessidade social ou pr\u00e1tica envolvida.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O experimento com a tribo da Nam\u00edbia<\/h2>\n\n\n\n<p>Davidoff realizou um experimento com a tribo Himba, na Nam\u00edbia, cujo idioma n\u00e3o tem um termo espec\u00edfico para azul, mas possui diversas palavras para diferentes tons de verde. Quando os membros da tribo foram convidados a distinguir um quadrado azul entre v\u00e1rios verdes, falharam. <\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, identificavam sem esfor\u00e7o nuances verdes que passariam despercebidas para ocidentais. Isso indica que a percep\u00e7\u00e3o de cores n\u00e3o depende apenas da vis\u00e3o fisiol\u00f3gica, mas da estrutura lingu\u00edstica e cultural que molda o reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra pista para o &#8220;atraso do azul&#8221; est\u00e1 na pr\u00f3pria natureza. O azul \u00e9 uma cor rara em elementos naturais. Poucas flores, animais ou pedras preciosas a exibem com clareza. Isso contrasta, por exemplo, com o vermelho (sangue, fogo, frutos), muito mais presente e impactante. <\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, era natural que o azul demorasse a ganhar um nome: ele simplesmente n\u00e3o era frequente o suficiente no cotidiano para justificar um termo espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O olhar da crian\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>Guy Deutscher levou a quest\u00e3o para dentro de casa. Ao observar a filha, Alma, em seu processo de aprendizagem da linguagem, prop\u00f4s um experimento curioso: ensinou todas as cores, incluindo o azul, mas evitou relacionar essa cor ao c\u00e9u. <\/p>\n\n\n\n<p>Em dias ensolarados, perguntava \u00e0 menina: &#8220;De que cor \u00e9 o c\u00e9u?&#8221; Por muito tempo, ela n\u00e3o soube responder. Depois, disse que era branco. Somente ap\u00f3s ver imagens em que o c\u00e9u aparecia pintado de azul, come\u00e7ou a associ\u00e1-lo \u00e0 cor. O c\u00e9u, portanto, n\u00e3o era &#8220;azul por natureza&#8221;, mas se tornava azul por conven\u00e7\u00e3o cultural e visual.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A tecnologia como chave da linguagem das cores<\/h2>\n\n\n\n<p>Com o avan\u00e7o da tecnologia, pigmentos se tornaram mais acess\u00edveis e variados. O azul, que era dif\u00edcil de produzir e caro, come\u00e7ou a fazer parte do cotidiano. Os eg\u00edpcios antigos, por exemplo, dominavam t\u00e9cnicas de cria\u00e7\u00e3o de pigmentos azuis, por isso, tinham uma palavra para a cor. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 os gregos e hebreus, que n\u00e3o manipulavam bem esse tom, n\u00e3o viam motivo para nome\u00e1-lo. A linguagem das cores, ent\u00e3o, n\u00e3o depende apenas da percep\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m da disponibilidade material.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Do preto ao azul<\/h2>\n\n\n\n<p>Mesmo os termos que hoje reconhecemos como azul, como kajol no hebraico ou kuanos no grego, originalmente significavam &#8220;preto&#8221; ou &#8220;escuro&#8221;. Essas palavras s\u00f3 assumiram um novo significado com o tempo, conforme a necessidade cultural e est\u00e9tica se transformava. <\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria do azul \u00e9, portanto, tamb\u00e9m a hist\u00f3ria da transforma\u00e7\u00e3o do vocabul\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia do azul nos escritos antigos revela mais sobre a cogni\u00e7\u00e3o e a cultura do que sobre limita\u00e7\u00f5es visuais. Durante s\u00e9culos, viver sem nomear o azul n\u00e3o foi um problema. Somente quando sociedades se tornaram mais sofisticadas, com tintas, tecidos e objetos padronizados, surgiu a urg\u00eancia de nomear o c\u00e9u e o mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua busca por entender como a linguagem molda nossa percep\u00e7\u00e3o do mundo, o linguista Guy Deutscher mergulhou em uma quest\u00e3o: por que a cor azul simplesmente n\u00e3o aparecia nos textos das civiliza\u00e7\u00f5es mais antigas? 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