{"id":18359,"date":"2025-05-28T08:30:00","date_gmt":"2025-05-28T11:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/?p=18359"},"modified":"2025-05-27T17:37:53","modified_gmt":"2025-05-27T20:37:53","slug":"patrimonio-mundial-da-unesco-em-perigo-devido-a-mineracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunademinas.com.br\/colunas\/maistendencias\/patrimonio-mundial-da-unesco-em-perigo-devido-a-mineracao\/","title":{"rendered":"Patrim\u00f4nio mundial da Unesco em perigo devido \u00e0 minera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Ouro Preto, reconhecida como Patrim\u00f4nio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 1980, enfrenta um dos maiores riscos \u00e0 sua integridade hist\u00f3rica, cultural e ambiental em mais de tr\u00eas s\u00e9culos de exist\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p>Projetos de minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, especialmente nos arredores da comunidade de Botafogo, est\u00e3o amea\u00e7ando n\u00e3o apenas bens materiais e naturais, mas tamb\u00e9m a pr\u00f3pria ess\u00eancia do que Ouro Preto representa para o Brasil e para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Botafogo<\/h2>\n\n\n\n<p>Localizada na entrada de Ouro Preto, a comunidade de Botafogo \u00e9 o ponto mais sens\u00edvel \u00e0 expans\u00e3o das atividades miner\u00e1rias. <\/p>\n\n\n\n<p>Fundada no final do s\u00e9culo XVII, a localidade \u00e9 um dos primeiros n\u00facleos de ocupa\u00e7\u00e3o da cidade e abriga a Capela de Santo Amaro, possivelmente a segunda mais antiga de Minas Gerais, al\u00e9m de caminhos hist\u00f3ricos, muros de pedra, pontes, cemit\u00e9rios, igrejas e tradi\u00e7\u00f5es religiosas de s\u00e9culos passados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ainda n\u00e3o possuir reconhecimento oficial por parte do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), os bens da regi\u00e3o s\u00e3o inegavelmente valiosos. \u201cN\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o est\u00e1 mapeado que o patrim\u00f4nio n\u00e3o existe\u201d, alerta Ana Paula de Assis, professora da UFOP.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Expans\u00e3o miner\u00e1ria e press\u00f5es econ\u00f4micas<\/h2>\n\n\n\n<p>Sete empreendimentos miner\u00e1rios operam ou est\u00e3o em fase de licenciamento nos arredores de Botafogo. Empresas como RS Minera\u00e7\u00e3o, HG Minera\u00e7\u00e3o, CSN, BHP Billiton e outras avan\u00e7am com projetos de explora\u00e7\u00e3o de ferro e mangan\u00eas. <\/p>\n\n\n\n<p>A atividade de empresas como RS Minera\u00e7\u00e3o j\u00e1 impacta diretamente a comunidade com o aumento do tr\u00e1fego de caminh\u00f5es, degrada\u00e7\u00e3o ambiental e altera\u00e7\u00f5es nos corpos d\u2019\u00e1gua locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um dos epis\u00f3dios mais emblem\u00e1ticos, uma gruta foi soterrada por obra da LC Participa\u00e7\u00f5es, o que gerou suspeitas de omiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ambientais no processo de licenciamento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Impacto ambiental <\/h2>\n\n\n\n<p>Os Estudos de Impacto Ambiental (EIAs) e os Relat\u00f3rios de Impacto Ambiental (RIMAs) apresentados pelas mineradoras t\u00eam sido considerados superficiais por pesquisadores. <\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo gritante est\u00e1 no n\u00famero de caminh\u00f5es operando: a empresa declarou tr\u00eas por hora, mas pesquisadores registraram mais de 140 ve\u00edculos, um n\u00famero que compromete seriamente as estradas e a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o C\u00f3rrego do Funil, fonte de abastecimento h\u00eddrico para cerca de 15 mil pessoas, j\u00e1 apresenta sinais de contamina\u00e7\u00e3o. Estudos demonstram que o min\u00e9rio de ferro da regi\u00e3o tem alta porosidade, essencial para a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas pluviais e manuten\u00e7\u00e3o das nascentes. Sua extra\u00e7\u00e3o pode provocar a extin\u00e7\u00e3o de diversas fontes h\u00eddricas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Patrim\u00f4nio natural amea\u00e7ado<\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Esec Tripu\u00ed<\/strong>: Nela, vivem esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o, como o lobo-guar\u00e1 e o macaco sau\u00e1, e existe um importante aqu\u00edfero subterr\u00e2neo, o Aqu\u00edfero Cau\u00ea. Tamb\u00e9m \u00e9 o habitat do Peripatus acacioi, um invertebrado raro considerado um f\u00f3ssil vivo.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Campos Rupestres Ferruginosos<\/strong>: As serras do Amolar, Siqueira e Veloso abrigam campos rupestres raros que, embora ocupem menos de 1% do territ\u00f3rio nacional, concentram at\u00e9 25% da flora do Brasil. Muitas dessas esp\u00e9cies ainda n\u00e3o foram sequer descritas cientificamente. <\/li>\n\n\n\n<li><strong>Cachoeira das Andorinhas e Serra de Ouro Preto<\/strong>: A APA Estadual Cachoeira das Andorinhas e a Serra de Ouro Preto, al\u00e9m do valor ecol\u00f3gico, guardam estradas coloniais do s\u00e9culo XVIII, fundamentais para a economia do Ciclo do Ouro. Seu valor hist\u00f3rico \u00e9 inestim\u00e1vel.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A falta de planejamento cumulativo<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos maiores entraves na preserva\u00e7\u00e3o de Ouro Preto est\u00e1 na forma como os processos de licenciamento s\u00e3o conduzidos. A estrat\u00e9gia das mineradoras \u00e9 fracionar seus pedidos de licenciamento ambiental, utilizando o modelo de \u201cmini-minas\u201d, para que possam operar sob licenciamento simplificado, o que exige apenas um relat\u00f3rio ambiental resumido.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que os impactos acumulativos das sete mineradoras na regi\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o avaliados de forma integrada. As an\u00e1lises, feitas individualmente, n\u00e3o capturam o efeito sin\u00e9rgico das opera\u00e7\u00f5es sobre o solo, a biodiversidade, a qualidade do ar, os recursos h\u00eddricos e o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p>Permitir a degrada\u00e7\u00e3o de Ouro Preto por interesses miner\u00e1rios \u00e9 um retrocesso civilizacional e uma afronta \u00e0 mem\u00f3ria coletiva brasileira. O momento exige responsabilidade das autoridades, engajamento da sociedade civil e aten\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouro Preto, reconhecida como Patrim\u00f4nio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 1980, enfrenta um dos maiores riscos \u00e0 sua integridade hist\u00f3rica, cultural e ambiental em mais de tr\u00eas s\u00e9culos de exist\u00eancia. 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