Em um cenário que remete a um dos maiores desafios da saúde global, um novo coronavírus, identificado recentemente na China, começa a atrair a atenção de cientistas e especialistas em saúde pública.
A descoberta do vírus HKU5-CoV-2, ainda em fase de análise, ocorre em um momento que nos leva a registrar o impacto devastador da pandemia de Covid-19, que alterou a rotina de milhões de pessoas ao redor do mundo. Em comparação com o que ocorreu em 2019-2020, quando o SARS-CoV-2 foi identificado e rapidamente se considerou, parece demorado.
Surgimento do HKU5-CoV-2
Recentemente, pesquisadores chineses publicaram um estudo na revista científica Cell, que descreve a identificação de um novo coronavírus, denominado HKU5-CoV-2, presente em morcegos.
O estudo revela que, como outros coronavírus conhecidos, o vírus tem a capacidade de se ligar a um receptor de proteínas nas células chamado ACE2, um receptor que também é encontrado em humanos. Esse mecanismo de infecção já é conhecido, pois é utilizado pelo SARS-CoV-2, que infectou a pandemia de Covid-19.
Porém, ainda há muitos pontos a serem esclarecidos. Embora o vírus tenha sido capaz de infectar células humanas em laboratório, como o intestino e as vias aéreas, essa infecção não ocorreu com a mesma facilidade do SARS-CoV-2. Mais importante ainda, não há registros de infecções fora do ambiente de pesquisa, o que ainda impede qualquer conclusão definitiva sobre sua capacidade de infecção em humanos fora dos laboratórios.
Impacto do Carnaval no Brasil
O estudo foi divulgado a poucos dias do Carnaval de 2025 no Brasil, evento que mobiliza multidões em todo o país e propicia um cenário ideal para a propagação de doenças infecciosas. Em meio à aglomeração de pessoas, questiona-se se o Brasil deve se preocupar com a possibilidade de o HKU5-CoV-2 estar presente em sua população.
Embora o vírus tenha sido identificado em morcegos asiáticos, no Brasil, a situação ainda é de estudo. Pesquisadores de São Paulo e do Ceará, com a colaboração da Universidade de Hong Kong, também encontraram coronavírus em amostras de morcegos, mas esses vírus não foram associados ao HKU5-CoV-2.
Em um estudo realizado no Brasil, os pesquisadores descobriram sete tipos diferentes de coronavírus, incluindo um vírus semelhante ao vírus responsável pela Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), que é uma doença semelhante à Covid-19, mas com um potencial de contágio muito menor.
Possibilidade de uma nova pandemia
Embora a descoberta do HKU5-CoV-2 tenha gerado preocupação, especialistas indicam que ainda estamos longe de poder falar em uma nova pandemia. O professor Maurício Nogueira, da Faculdade de Medicina de Rio Preto, enfatiza que, como não há casos humanos confirmados, o risco do novo vírus é, por enquanto, muito menor do que outras ameaças, como a gripe aviária, que já foi registrada em humanos.
O infectologista Alexandre Naime Barbosa, coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), alerta que, embora seja necessário monitorar o vírus, o risco de uma pandemia depende de vários fatores. A adaptação do vírus aos receptores celulares dos humanos e sua capacidade de se tornar mais patogênico são questões-chave para determinar se o HKU5-CoV-2 representará uma ameaça global.
Além disso, é importante lembrar que uma linhagem anterior do HKU5-CoV-2 foi sequenciada pela primeira vez em 2014, a partir de amostras de morcegos na China. Desde então, a evolução do vírus e sua interação com outros hospedeiros têm sido monitoradas, mas a adaptação do vírus a seres humanos é uma variável que ainda não se sabe como se desenrolará.
O que podemos esperar no futuro?
Diante da incerteza sobre o futuro do HKU5-CoV-2, a melhor estratégia é a vigilância contínua. A comunidade científica, incluindo especialistas de diversas partes do mundo, está atenta a essa nova ameaça. A comparação com o que aconteceu em 2019-2020, quando o mundo foi pego de surpresa pelo surgimento do SARS-CoV-2, leva um alerta mais cuidadoso, mas sem pânico imediato.
A questão de se colocar é se a humanidade está melhor preparada hoje do que estava naquela época. O avanço da ciência e da medicina, com vacinas e tratamentos mais eficazes, pode oferecer uma resposta mais rápida e eficaz, caso o novo vírus mostre sinais de adaptação ao ser humano. No entanto, a experiência passada mostra que, mesmo com os melhores esforços, novas variantes do vírus ainda têm o potencial de surpreender a comunidade científica e a população.