Deslocamentos de até 2,5 milímetros no interior do crânio podem parecer insignificantes à primeira vista. No entanto, para o cérebro humano essas alterações podem representar mudanças funcionais relevantes. É o que aponta uma pesquisa divulgada na Proceedings of the National Academy of Sciences ao investigar os efeitos da microgravidade sobre astronautas.
O trabalho se baseou na comparação de exames de ressonância magnética realizados antes e depois das missões espaciais. As análises revelaram que, na ausência da gravidade terrestre, o cérebro tende a se reposicionar, deslocando-se predominantemente para trás e para cima dentro da caixa craniana. Esse movimento foi observado de forma consistente após o retorno dos tripulantes à Terra.
Efeitos do espaço no cérebro
Para analisar com precisão os efeitos da microgravidade, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) dividiram o cérebro em mais de cem regiões anatômicas, permitindo mensurar alterações estruturais após as missões. Os principais resultados indicam:
- Tempo de missão como fator determinante: permanências mais longas resultam em maiores deslocamentos.
- Movimento predominante para cima, mais evidente em astronautas do que em simulações terrestres.
O estudo incluiu um grupo com simulação de microgravidade por inclinação corporal. Embora semelhantes, os deslocamentos foram mais intensos no espaço, indicando efeito específico do ambiente orbital.
A hipótese principal aponta para a redistribuição de fluidos: sem gravidade, sangue e líquido cefalorraquidiano se acumulam na cabeça, alterando a pressão intracraniana e permitindo o reposicionamento do cérebro. Parte das alterações regride após o retorno à Terra, mas algumas podem persistir e ainda demandam investigação.
Outros impactos nos astronautas
Segundo a NASA, os efeitos do espaço vão além do cérebro. A microgravidade causa perda de densidade óssea, entre 1% e 1,5% ao mês, e atrofia muscular. Cerca de 70% dos astronautas apresentam alterações visuais associadas à Síndrome Neuro-ocular do Voo Espacial, possivelmente ligada ao aumento da pressão intracraniana.
Também há maior risco de cálculos renais devido ao excesso de cálcio no sangue, disfunções no sistema imunológico, reativação de vírus latentes e exposição intensa à radiação cósmica, que pode elevar o risco de câncer. O confinamento ainda impacta sono, humor e desempenho cognitivo, exigindo suporte psicológico especializado.






