Uma técnica pioneira de fertilização in vitro permitiu o nascimento de oito bebês na Inglaterra com material genético de três pessoas diferentes, um marco científico que redefine os limites da reprodução assistida e da prevenção de doenças genéticas hereditárias.
Os recém-nascidos, quatro meninos e quatro meninas, foram gerados com o DNA de seus pais biológicos e, adicionalmente, com mitocôndrias saudáveis doadas por uma terceira mulher.
O objetivo foi impedir a transmissão de doenças mitocondriais graves, para as quais ainda não existe cura.
Bebês gerados com três DNAs desafiam tudo o que sabíamos
A inovação foi liderada por pesquisadores da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, e seus achados foram publicados na conceituada revista científica The New England Journal of Medicine.
A técnica, chamada de transferência pronuclear, consiste em um processo sofisticado de manipulação genética que ocorre logo após a fertilização dos óvulos.
Os cientistas retiram o núcleo do óvulo da mãe — que carrega mutações genéticas nas mitocôndrias — e o inserem em um óvulo doado, previamente esvaziado de seu próprio núcleo, mas contendo mitocôndrias funcionais.
Com isso, o embrião formado carrega o DNA nuclear dos pais e o DNA mitocondrial da doadora.
As mitocôndrias são estruturas celulares responsáveis pela produção de energia, e mutações em seu DNA podem provocar doenças neurológicas e musculares severas. Estima-se que cerca de uma a cada 5 mil crianças nasça com essas mutações.
A nova abordagem busca romper esse ciclo hereditário, oferecendo uma chance de vida saudável a filhos de mulheres portadoras dessas alterações genéticas.
Resultados dos estudos com bebês são positivos
Os primeiros resultados do estudo são animadores. Todos os bebês nasceram com boa saúde e estão se desenvolvendo dentro dos padrões esperados para suas idades. Em cinco deles, não foram observados quaisquer problemas médicos.
Os outros três enfrentaram questões leves nos primeiros meses de vida, mas os pesquisadores ressaltam que não há evidência clara de relação direta com o procedimento.
Apesar do sucesso inicial, os cientistas reconhecem que a técnica ainda apresenta desafios. Pequenas quantidades de DNA mitocondrial defeituoso da mãe podem ser transferidas acidentalmente, mas os níveis encontrados nos recém-nascidos ficaram muito abaixo do limiar clínico.
A pesquisa continua, com o objetivo de aprimorar a segurança da técnica e entender melhor seus efeitos a longo prazo.
O avanço representa um novo capítulo na medicina reprodutiva, levantando questões éticas e científicas profundas — e, ao mesmo tempo, oferecendo esperança concreta para famílias afetadas por doenças genéticas incuráveis.






