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Tirando a máscara

Por Carlos Eduardo Paletta Guedes, advogado, professor, mestre em Direito e Inovação (UFJF

07/10/2020 às 07h00 - Atualizada 06/10/2020 às 20h35

A indicação feita pelo presidente para a nova vaga no Supremo Tribunal Federal atraiu severas críticas de seus mais fiéis apoiadores, que o acusam de trair seu discurso antissistema. Para eles, o presidente caiu de vez nos braços do centrão e do STF. Entre a lagosta e o pão com leite condensado, o presidente teria escolhido o crustáceo.

Político que promete acabar com a velha política e se alia a ela. Ex-presidente que vociferava contra a elite ajudou os empreiteiros mais ricos do país. Pessoas que criticam ditadura de direita mas defendem a de esquerda – e vice-versa. Socialista tuitando com iPhone. Pastora defensora da vida denunciada pelo homicídio do marido.

Todas as frases acima fazem parte do conjunto de acusações que compõem nosso cenário político e institucional, à esquerda e à direita. O que todas têm em comum? Elas acusam o outro de agir de maneira hipócrita. A centralidade da hipocrisia em nossos assuntos cotidianos não deve passar despercebida, ainda mais quando há eleições se aproximando e políticos de todas as ideologias – e até aqueles que não as têm – surgem para pedir nossa confiança.

A primeira questão a ser enfrentada é se toda hipocrisia é condenável. Maridos que, diante da esposa, tiveram de responder a pergunta “essa roupa me deixa gorda?” sabem bem do que se trata. Algum grau de hipocrisia sempre compõe a vida social, que seria insuportável se toda pessoa atirasse sincericídios na cara de seus conhecidos. Alguns podem até pensar ser um exagero chamar de hipocrisia o que seria somente um ato de educação, boas maneiras, delicadeza. Pouco importa o nome, ninguém é totalmente autêntico o tempo inteiro e isso tem lá seu lado positivo.

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Mas, na política, a hipocrisia ganha outros contornos. Como pessoas públicas dependem de sua imagem de honestidade e coragem, normalmente somos bombardeados com esse tipo de discurso de pureza e honra. Por ter grande apelo, muitos adoram votar nessa ideia de autenticidade rousseauniana, como se políticos pudessem ser bons selvagens não corrompidos pelo sistema. E amam tanto esse ideal que, mesmo diante da queda da máscara de falsidade, acabam adotando para si defesas contorcionistas de seus políticos de estimação. Daí porque pouco importa se o governante de esquerda era parceirão das elites; pouco importa se quem atacava a velha política está abraçado a quem ele mesmo xingava. Mais vale a mística de uma suposta autenticidade: aquilo que vêem de hipocrisia na primeira falha do adversário é perdoado com sobras no seu político de preferência. É o que vem sendo chamado nas redes sociais de “passar pano”.

A hipocrisia tem outro defeito, este mais sutil. Ao nos limitarmos a apontar as inconsistências entre discurso e prática dos adversários, desaprendemos a realmente defender o conteúdo de nossas posições. É fácil achar no outro atitudes hipócritas. Mais difícil é qualificar o debate ao colocar nossos dilemas políticos e morais na arena de discussões profundas e sérias.

O que nos resta, então? Sem cair num cinismo que leve à omissão, devemos aceitar que a vida pública também é feita de hipocrisia. Governar é desmistificar e ser desmistificado. Eleição, nesse contexto, é apenas o momento em que escolhemos qual hipócrita irá nos representar – sem querer ofender. Adotar tal postura não quer dizer que se deva abrir mão de ideais que nos impulsionam para escolhas que julgamos melhores para nossa comunidade. Não! Deve apenas nos precaver contra perdões seletivos, duplos padrões de julgamento e passadas de pano, lembrando que a política é um baile de máscaras. Se na Grécia antiga, os atores, chamados hypocrites, usavam grandes máscaras, devemos ter em mente que o hipócrita as usa para esconder quem ele realmente é.

Em tempos de uso generalizado de máscaras reais, recomenda-se saber que, desde sempre, vivemos cercados de máscaras sociais.

Tribuna

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