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Precisamos conversar sobre “Liga da Justiça”

Por Júlio Black

29/11/2017 às 07h02 - Atualizada 28/11/2017 às 16h19

Oi, gente.

Que tal termos uma DR sobre “Liga da Justiça”? O filme com os maiores heróis da DC Comics tem dividido opiniões em tudo que é canto: na internet, na porta do cinema, do boteco, na fila do pão, até mesmo aqui na redação. E motivos não faltam, vamos dar a real: bilheteria decepcionante nos Estados Unidos, troca de diretores, refilmagens mil, roteiro reescrito minuto a minuto, indefinições, cancelamentos e atropelamentos de toda sorte no Universo Estendido da DC… É muito pano pra pouca manga.

Mas vamos nessa, senta que lá vem a história. Comecemos pela questão que mais importa aos engravatados de Hollywood: grana, o que ajuda e entender o resto. A revista “Forbes” publicou semana passada que “Liga da Justiça” deve dar um prejuízo de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões de dólares para a Warner. E como é feita essa conta? A gente explica, começando pelos custos: de acordo com as contas da “Forbes”, o filme custou US$ 300 milhões, e aí podemos somar US$ 150 milhas de marketing, US$ 60 milhões para os DVDs e Blu-rays do setor de home video, US$ 20 milhões para o lançamento, outros US$ 20 milhões de juros e US$ 50 milhões para pagar o elenco. Total? US$ 600 milhões.

Aí é preciso fechar a conta, ok? Vamos lá: a previsão atual é que o longa tenha uma bilheteria mundial total de US$ 653 milhões, beeeeeem longe do sonhado bilhão de doletas, dos quais apenas US$ 275 milhões vão para os cofres da Warner. Esse valor é somado aos cerca de US$ 270 milhões de doletas esperados com a venda dos disquinhos prateados. Somando os dois, temos US$ 545 milhões, US$ 55 milhões a menos que os custos totais de produção e divulgação.

Não é pouca coisa, gente, estamos falando de um dos blockbusters mais esperados de todos os tempos, com Batman, Mulher-Maravilha e Superman. Para comparar, é só dar uma olhada no Box Office Mojo, site que divulga as bilheterias totais dos filmes: se estacionar em US$ 635 milhões, “Liga da Justiça” terá a segunda menor bilheteria de filmes do gênero lançados em 2017. Ele perderá para “Homem-Aranha: De volta ao lar” (US$ 880 milhões); “Guardiões da Galáxia Vol. 2” (US$ 863 milhões); “Mulher-Maravilha” (US$ 821 milhões); e “Thor: Ragnarok” (US$ 791 milhões, ainda em cartaz).

O longa ficaria à frente, e por pouco, de “Logan” (US$ 616 milhões, nada mal para uma produção com classificação indicativa alta), e apanharia dos dois filmes com personagens da DC lançados ano passado, “Batman vs Superman” (US$ 873 milhões) e “Esquadrão Suicida” (US$ 745 milhões). Ou seja, “Liga da Justiça” tem tudo para ficar atrás de filmes estrelados por uma equipe de supervilões e por personagens da própria Liga em produções solo. E aí fica impossível não comparar com os grandes eventos da Marvel, os dois filmes dos Vingadores, que faturaram US$ 1,5 bilhão e US$ 1,4 bilhão bilhão, respectivamente. Rivalidades à parte, é uma surra que dá até pena.

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E aí o leitor e a leitora perguntam: o que deu errado? Cada um pode ter seu argumento, e vou apresentar os meus. A DC/Warner foi muito bem com a trilogia sombria e realista do Batman comandada por Christopher Nolan, e resolveu prosseguir nessa toada com Zack Snyder e deu tudo errado. A galera não comprou a proposta do Superman que não era um símbolo de esperança, houve quem reclamasse do destruction porn de “O Homem de Aço” e “Lanterna Verde” foi uma porcaria tão abjeta que é até difícil entender o que queriam com aquela bomba.

Outro ponto: podem dizer que não existe uma única fórmula perfeita, mas a verdade é que a Marvel, com todos os percalços, conseguiu construir um universo cinematográfico coeso e que deu certo, basta ver o sucesso avassalador de “Os Vingadores” em 2012. O erro da DC/Warner foi mudar o jogo no meio da partida, com a decisão de anunciar do nada “Batman vs Superman” e confirmar que seria o prelúdio para “Liga da Justiça” – copiando, mesmo jurando que não, a “fórmula” da concorrente.

Só que os caras estão perdidos, e a cada semana surge uma nova notícia que coloca em xeque a ideia do Universo Estendido: troca de diretores (“Mulher-Maravilha”, o próximo “Batman” e o provável filme do Flash), adiamento de filmes, cancelamento de outros, divulgação de novas produções que não saem do papel, o anúncio de que os longas não serão interligados, a apresentação do Flash, Aquaman e Ciborgue num arquivo fuleiro em “BvS”…

Daí que tudo isso, de alguma forma, influiu em “Liga da Justiça”, que passou por várias revisões de roteiro, decisões artísticas discutíveis, refilmagens, troca de diretor (Zack Snyder teve que largar a pós-produção e refilmagens por causa do suicídio de uma das filhas, sendo substituído por Joss Whedon), a decisão de ter um corte final com apenas duas horas, forçar um clima mais leve, cômico, à história, o famoso bigode do Superman.

O resultado é que “Liga da Justiça” é o tipo de filme que, enquanto estamos na sala de cinema, é entretenimento que faz o tempo passar suave principalmente na primeira hora, mas que depois perde a pegada quando os heróis se unem para enfrentar a grande ameaça da história. Mas aí você vai embora e começa a analisar o filme não como fã, mas com aquele olhar crítico, e se dá conta de que a história é mal desenvolvida, o humor e os momentos mais sérios não casam, o roteiro tem furos imperdoáveis (como assim deixam a Caixa Materna sozinha, dando sopa???), os heróis, enquanto quinteto/sexteto, não dão Liga (tum-dum-tsss), e o vilão, o Lobo da Estepe, não mete medo em ninguém, mais parece aqueles vilões genéricos da Marvel.

E então podemos juntar todos esses problemas ao fator que fecha a conta: o público. Antes mesmo de estrear nos Estados Unidos, muita gente já estava com o pé atrás em relação ao filme, tanto que faturou apenas US$ 93 milhões no seu fim de semana de lançamento – menos que “Mulher-Maravilha”, “Batman vs Superman” e “Esquadrão Suicida”. Com a repercussão pouco entusiasmada, o resultado é que “Liga da Justiça” perdeu o primeiro posto na terra de Trump logo na semana seguinte para a animação “Viva – A vida é uma festa”, da Pixar – o que é vergonhoso, vamos falar a verdade. Perder o público dessa forma, logo no ato da matrícula, é para colocar a turma da Warner em pânico.

Dar uma resposta definitiva ao “O que a Warner deve fazer?” é tarefa complicada, quase impossível. Mas o que podemos dar como certo é que o estúdio, junto com a DC, tem que repensar seriamente sua estratégia para o Universo Espandido. Quando a sua maior marca, os “Vingadores” da Warner, fica à beira do fracasso, é porque alguma coisa está muito errada. Esperamos que eles encontrem a solução logo, porque o que mais queremos e assistir a mais e melhores filmes do gênero.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black



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