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As fugas do Senhor Milagre e outros quadrinhos

Por Júlio Black

29/07/2020 às 07h00 - Atualizada 28/07/2020 às 14h20

(Vamos colocar esses parênteses logo no início. Já havia escrito a coluna antes de saber da morte do Rodrigo Rodrigues, do SporTV; se ainda não tivesse escrito, não sei se conseguiria, pois estamos todos devastados, arrasados, com a perda não apenas de um ótimo profissional, um colega de profissão, mas de uma pessoa que transmitia – odeio o termo, mas aqui ele cabe – uma energia positiva tão forte, uma figura tão gente boa. É mais uma vida, entre as quase 90 mil em nosso país levadas pela Covid-19, que lamentamos. Nossa solidariedade à família, aos amigos. #FiqueEmCasa, pelo bem das pessoas que você ama.)

Oi, gente.

Já escrevi inúmeras vezes nesta coluna que leio quadrinhos de super-heróis há mais de três décadas. Claro que não li sequer 1% de tudo que foi publicado desde que o Superman apareceu em “Action Comics 1”, mas tive o privilégio de conhecer o trabalho de quase todos os gênios das HQs: Stan Lee, Jack Kirby, Roy Thomas, John Buscema, Barry Windsor-Smith, Chris Claremont, John Byrne, Frank Miller, Walt Simonson, Bill Sienkiewicz, Todd McFarlane, Neil Gaiman, Grant Morrison, Garth Ennis, Warren Ellis, Brian Michael Bendis, Frank Quitely, John Cassady, Joss Whedon, Matt Fraction, David Aja, Gail Simone, Brian K. Vaughn. Da turma mais recente, temos Scott Snyder, Jason Aaron e Jeff Lemire, entre outros.

Pois na lista do “entre outros” está o nome de Tom King. O cara tem uma fase do Batman mais que elogiada, já levou uma sacolada de Eisner Awards, e até semana passada a única coisa do roteirista que havia lido era aquela sensacional minissérie do Visão, recuperando um personagem que foi sacaneado nas últimas décadas por alguns roteiristas cretinos. Pelo menos tomei a devida vergonha na cara e li “Senhor Milagre”, outra minissérie premiada do sujeito e que recupera um personagem que merecia mais espaço no panteão dos supers, no caso o da DC Comics.

Vou ter fé que meus 14 leitores e leitoras já conhecem o personagem e partir para o que interessa. O Senhor Milagre é o maior escapista do mundo, e a história começa com o herói tentando realizar aquele que é provavelmente o único feito que ainda não conseguiu: escapar da morte. Para isso, ele comete suicídio mas é salvo pela mulher, a Grande Barda, e logo percebemos que, na verdade, Scott Free sofre de depressão e pelos traumas de ter sido criado em Apokolips pelo vilão Darkseid.

A partir daí, a minissérie coloca o leitor, o protagonista e a Grande Barda em meio a mais uma guerra entre Nova Gênese e Apokolips, com todos os absurdos que existem nesse tipo de confronto, ao mesmo tempo em que Scott Free tem de lidar com a chegada do herdeiro, lealdade, o que é certo e errado, o papel e dever do herói, filosofia, o conceito de divindade, o desejo de levar uma vida normal, sacrifício, tudo misturado numa trama que ainda nos faz questionar a sanidade do herói e o quanto do que acontece é fruto de uma mente “defeituosa”.

Mas “Senhor Milagre” não seria uma grande história em quadrinhos sem a arte de Mitch Gerads, que abusa das páginas com nove quadros para criar algumas sequências que, gente, minha gente, que agonia que dava em certos momentos – para quem é pai, a penúltima edição tem momentos de “por favor, não façam isso”. Por outro lado, pais e mães também vão se identificar de montão com as edições sete e oito, sendo que nesta última é divertido ver Scott e Barda dividindo as obrigações do lar e o “trabalho” da guerra.

“Senhor Milagre”, “Visão” e o “Gavião Arqueiro” de Fraction e Aja estão entre as melhores HQs da década, um trio ideal de histórias para quem tem horror à besta-fera da cronologia (caso deste infame colunista) que acorrenta os quadrinhos de super-heróis a uma série sem fim de Crises, mortes e ressurreições e Guerras Civis.

Outra minissérie que terminei de ler neste último final de semana foi “Death or Glory” (Image Comics), com roteiro de Rick Remender – já conhecido de uma fase mais ou menos recente dos Vingadores – e arte de Bengal, sujeito que não conhecia mas virei fã porque o maluco é cabuloso. A 11ª e última edição tá fresquinha, acabou de sair este mês lá na gringa, mas o primeiro volume da mini já pode ser adquirido deste lado da linha do equador, tanto no formato físico (importado) ou eletrônico.

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A protagonista da história é Glory, mecânica e piloto de mão cheia que teve uma vida nômade entre caminhoneiros graças aos pais. Depois que a mãe morreu de forma trágica, ela foi criada pelo pai – conhecido apenas por Ruivo – e os amigos de estrada, casou e separou de um imbecil quando descobriu que ele era um bandido, e até aí tudo bem. Problema é quando o Ruivo descobre uma doença incurável no fígado e, por não existir no “sistema” (não tem seguro social, essas coisas), a solução é arrumar uns 300 mil dólares para pagar um transplante de fígado.

Como eles não têm dinheiro e o pai está à beira da morte, Glory vê apenas uma saída: interceptar uma transação do ex-marido com uns traficantes e ficar com a grana. Só que a moça não sabia onde estava se metendo, e por causa disso ela se vê no meio de uma trama que envolve traficantes de pessoas e órgãos, açougueiros de partes humanas, uma dupla de gêmeas assassinas, um matador com fobia de germes e que usa nitrogênio líquido para cumprir seus contratos, uma dupla de policiais sadomasoquistas, uma gangue de traficantes mexicanos que usam máscaras de luta livre e até mesmo um brasileiro, Pablo (calma que tem motivo para o nome em espanhol), que está entre as vítimas dos traficantes de órgãos.

Com esse cenário pouco peculiar, “Death or Glory” tem onze edições de ação alucinada e quase ininterrupta, com muita violência, tiro e bomba, perseguições de carros, explosões, capotagens, decapitações, caminhões gigantes, reviravoltas, momentos “agora lascou” e muita, mas muita mesmo, suspensão da descrença pra deixar tudo divertido. Por se passar num desses lugares no meio do nada do deserto americano, vários momentos lembram o último “Mad Max”.

E é aí que a arte de Bengal faz toda a diferença a favor da história. O sujeito tem um domínio de ação e narrativa impressionantes; a sensação de velocidade acompanha o leitor por toda a minissérie, com carros se batendo, virando paçoca e atropelando pessoas de uma maneira que é linda de se ver. Há várias e várias páginas de “Death or Glory” que merecem saltar para a tela de cinema, de tão arrojadas e com ângulos que não são dos mais tradicionais numa HQ.

Para finalizar a prosa, precisamos recomendar “The End” para quem tem criança em casa – ou tem o bom senso de jamais ter deixado a infância para trás, afinal foi lá que aprendemos a sonhar e ter imaginação. A HQ nacional do trio Marcelo Castro, Viviane Cavalcante e André Farias foi publicada pela Sesi-SP Editora e tem como protagonista a pequena Liv. Ela aprendeu com o avô – desaparecido na história, como ele sumiu, aliás? – o valor de preservar as coisas, e por isso segue a missão de resgatar pelo menos um exemplar de toda criatura e objeto que existe ou existiu.

E são justamente algumas dessas criaturas – um tiranossauro, um mamute e um macaco -, mais um robô e uma personagem – que não sabemos se é mãe ou irmã dela – que terão que descobrir por que as estrelas estão sumindo e o Sol apagou. A história é bem simples, mas cheia de fantasia, aventura e referências à cultura pop que os mais velhos vão descobrir fácil.

Para completar, a HQ ainda tem um aplicativo de realidade aumentada que pode ser baixado para celulares na Play Store e Apple Store. Ao direcionar o celular para algumas imagens, surgem animações simpáticas e também informações sobre alguns objetos que fizeram história, caso do satélite Sputnik. Antônio, O Primeiro de Seu Nome, ainda não sabe ler, mas curtiu de montão o app. E nós também.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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