OK, precisamos conversar sobre “Os últimos Jedi”

Por Júlio Black

27/12/2017 às 07h00 - Atualizada 27/12/2017 às 10h25

Oi, gente.
Não sei quanto aos meus ah migos e ah migas que acompanham laicamente a coluna, mas gostei muito de “Star Wars – Os últimos Jedi”. É um grande filme da franquia, só perdendo para “O Império contra-ataca”. Tem ação, emoção, reviravoltas, um final que mostra que a esperança ainda está viva lá naquela galáxia distante.

Mas, principalmente, é o longa que rompeu com muitos paradigmas da série. Ele tornou mais tênue a linha que separa o Bem do Mal, mostrando que não importa o lado da Força para o qual o sujeito se entrega, se é membro da Primeira Ordem ou da Resistência: você pode ter suas falhas, suas dúvidas, os esqueletos no armário. E que o tempo passa, e suas convicções também.

E é nesse ponto que a mudança de visão de mundo (ou seria galáxia?) de Luke Skywalker foi tão importante. Ele foi treinado para ser o futuro dos Jedi, mas as tragédias pelas quais passou – e as dúvidas que já carregava consigo – foram fundamentais para torná-lo o que se viu no filme. Afinal, 30 anos se passaram desde “O retorno de Jedi”, é tempo suficiente pra gente ter novas ideias, opiniões, sentimentos, visão da vida, o universo e tudo mais.

Muito legal, né? Mas é aí que o sabre de luz torce o rabo. Fanboy é um bicho chato demais da conta: tudo tem que ser feito exatamente do jeito que ele considerar – aliás, tem certeza – que é certo, e ai de quem discordar. O bicho fica furioso e sai de seu habitat natural para mostrar toda sua valentia em sites, redes sociais e fóruns da internet, reclamando de todo e qualquer detalhe que venha a “macular” a sua “obra sagrada”, defendendo boicotes, criando “utilíssimos” abaixo-assinados para forçar Cthulhu e o mundo a se dobrarem perante suas vontades.

Afinal, quem quer saber se “SW” é uma franquia que rende bilhões dólares em filmes, bonecos, camisas, séries de TV, merchandising, que consome orçamentos de centenas de milhões de dólares, que precisa levar para os cinemas quem não sabe a diferença entre Obi-Wan-Kenobi (“quem?”, perguntaria o sujeito que chega ao cinema sem saber o que está em cartaz) e o Sr. Spock (“quem?”, perguntaria o amigo do sujeito que chega ao cinema sem saber o que está em cartaz).

Pois bem, vamos à questão do abaixo-assinado. Os caras fazem um filme muito superior a “O despertar da Força” e aos Episódios I, II e III, e o que é que os fanboys fazem? Criam uma petição EXIGINDO, veja só, que “Os últimos Jedi” seja retirado do cânone (haha) e seja rebaixado (hahaha) para a
condição de “lenda” (hahahahaha).

Peraí, deixa o rapaz aqui rir mais um pouco.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.

Pronto, obrigado.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA.

Desculpa, agora eu parei.

Sério, gente. Um fã abnegado, junto com outros dispostos a cederem seu tempo livre para engajarem-se em coisas sérias, querem que a Disney chegue para o público e diga “Olha, galera, foi mal. O filme a que vocês assistiram não é de verdade, é de mentirinha. Era uma lenda, só que a gente esqueceu de avisar, ok? Valeu, um abraço, até o Episódio VIII que vale.”

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O motivo? Luke Skywalker. Sim, Lukinha Caminhante do Céu. De acordo com esses fãs, o longa dirigido pelo pobre do Rian Johnson destruiu a figura heroica do último Jedi e zoou o barraco com o bom nome da família. Que ele jamais desejaria acabar com a Ordem Jedi, jogar o sobre de luz pelas costas como os porcalhões fazem com o copo de milk shake, seria ranzinza, mil coisas. E também porque ele não é o pai da Rey – o que seria muito novela da Globo, aliás. Daí que, além de tornar o filme “uma lenda” (hahahahahaha de novo, eu não aguento), exigem que seja feito um novo filme “a fim de redimir seu caráter, legado e integridade” (hahahahahahahahahaha ao infinito).

Tá bom. Vamos lá esperar que a Disney, que acabou de torrar bilhões de dólares para comprar a Fox, vá se preocupar com os 32 mil signatários do pedido (se bem que uma organização de direita afirmou que fraudou a petição por causa do “excesso de personagens femininas”) e pense seriamente em jogar no lixo um filme que custou centenas de milhões de doletas, vai passar fácil do bilhão de dólares, e – ora, por que não? – gaste mais umas centenas de milhões de Trumps bronzeados refazendo basicamente a mesma história – desta vez com um Luke Skywalker “digno”.

Mas não para por aí. Outras petições exigem bizarrices semelhantes ou maiores, como “Proibir Rian Johnson de escrever e dirigir a próxima trilogia”, “Fazer Rian Johnson admitir que ‘Os últimos Jedi’ é terrível”, “Refazer ‘Os Últimos Jedi'” (opa, essa já foi) e até “Trazer George Lucas de volta para Star Wars”. O mesmo George Lucas que todo mundo execrou por causa de Jar Jar Binks, o Hayden Christensen como Anakin Skywalker e que dirigiu os péssimos Episódios I a III – e que também planejava colocar Luke Skywalker num exílio voluntário quando ainda era o dono da paçoca.

Mas não para por aí, Episódio II. O pobre coitado que criou a petição inicial se arrependeu do que fez, mesmo que continue odiando o filme, e pediu para os fanboys pararem de colocar seus nomes no abaixo-assinado, pois era tudo uma brincadeira. Resultado? Esses fanboys guardiões da moral e bons costumes de “SW” passaram a utilizar palavras de ódio contra o rapaz, chamando-o de covarde, fraco, e – ah, que maravilha! – afirmando que ele “não é um verdadeiro fã de Star Wars”.

(Pequeno parêntese: nada é mais divertido que ler um fanboy afirmando que “Isso não é Star Wars” ou “Isso não é Jornada nas estrelas”)

Sério, amigos. O mundo, teoricamente, é uma democracia, mas “Star Wars” – assim como “Star Trek”, “Harry Potter”, a novela das oito, filmes de super-heróis, “O Senhor dos Anéis” – não é a coisa mais importante do mundo. É diversão, entretenimento. É uma franquia, e como tal é feita para alguém ganhar dinheiro. Quando pensou na história, lá nos anos 70, George Lucas não tinha ideia da dimensão que ela tomaria. Ele apenas inseriu elementos de fantasia, faroeste, a luta do bem contra o mal, numa galáxia tão longe quanto Uberlândia e Uberaba. Da mesma forma que Gene Roddenberry só queria criar uma boa história sci-fi nos anos 60.

Se “Star Wars” não fosse (também) um negócio para Lucas, ele teria dito um “não” bem grande para a Disney e teria mantido a franquia consigo. Mas não, ele foi lá, vendeu, e passou a ter zero interferência na parada.

Por isso, não custa nada, amigo fanboy, assistir ao filme novamente com outros olhos. Ninguém quer destruir nada, os caras não são bobos. Eles querem é uma boa história para gerar $$$, e isso “Os últimos Jedi” tem feito. Mark Hammil (nosso Lukinha) já é um sessentão, o setentão Harrison Ford já teve seu Han Solo assassinado, Carrie Fisher morreu. É preciso seguir em frente, o universo de “SW” é grande demais para ficar centrado apenas nos Skywalkers ou nos descendentes que vocês querem que eles tenham. É hora encontrar novos caminhos, heróis, vilões, ameaças, conflitos.
Ir para regiões ainda inexploradas, com a que será mostrada na próxima trilogia. Expandir a bagaça.

O cinema, assim como qualquer expressão artística, não é para o espectador ficar de boas na sua área de conforto. Tem que instigar, surpreender, causar reação. Não é só para agradar. É provocar e levar o público a um novo patamar de descoberta, questionamento, mostrar que entre o preto e o branco existem inúmeros tons de cinzentos.

E isso é uma coisa que “Star Wars – Os últimos Jedi” fez muito bem.
Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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