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“The Umbrella Academy”, “Homecoming” e a DC Comics não acerta os ponteiros com “Watchmen”

Por Júlio Black

26/08/2020 às 07h00 - Atualizada 25/08/2020 às 13h44

Oi, gente.

O lançamento de “The Umbrella Academy” pela Netflix foi um daqueles tiros certeiros do serviço de streaming na seara de adaptação de quadrinhos de super-heróis, uma vez que a parceria com a Marvel era cabra marcado para morrer e a DC Comics é propriedade da Warner Bros, então correr para as editoras menores – no caso, a Dark Horse – era uma das soluções.

A HQ de Gerard Way (roteiro) e Gabriel Bá (arte) foi uma das melhores e mais surpreendentes publicações da década passada, e a Netflix soube adaptar o material numa primeira temporada que tinha ação, porradaria, dramas familiares, humor e toneladas de mágoas, ressentimentos e traumas, mais um trilha sonora esperta. Como escrevemos ano passado, um encontro de X-Men com “Casos de família”, o que faz de “The Umbrella Academy” uma das melhores produções inspiradas nas HQs.

Pois não é que conseguiram fazer uma segunda temporada ainda melhor que a primeira? Com o desfecho apocalíptico do primeiro ano, a nova temporada poderia ir para qualquer lugar, e eles resolveram pegar o que ainda não havia sido aproveitado em “Dallas”, um dos arcos adaptados na first season – o outro foi “Suíte do Apocalipse”.

Graças aos poderes do Número Cinco, os membros da Umbrella Academy são jogados em Dallas, no Texas, em períodos diferentes da década de 1960, porém antes do assassinato do presidente Kennedy, em 1963. Descobrimos que a chegada dos irmãos muda a linha do tempo: Kennedy não é assassinado por Lee Harvey Oswald ou pela máfia ou por comunistas, e por isso o apocalipse segue a turma e o mundo é destruído com o início da guerra entre Estados Unidos e União Soviética ainda em 1963. Por isso, Número Cinco busca reunir os irmãos a fim de salvar o mundo e voltar para 2019… garantindo a morte de Kennedy.

Além da trama principal, a nova temporada também destaca os caminhos que cada um tomou enquanto estava sozinho e o que eles podem perder caso garantam a morte de Kennedy, evitem o fim do mundo e voltem para o futuro. Dá tempo de incluir novos personagens (os matadores suecos são os melhores), discutir temas como direitos civis, homofobia, política e entregar episódios com muita ação, porradaria, dramas familiares, humor e toneladas de mágoas, ressentimentos e traumas, mais a trilha sonora esperta.

É claro que viagens no tempo sempre provocam desdobramentos e mudanças no continuum espaço-temporal, pois basta um fio de cabelo para a humanidade desenvolver um terceiro mamilo, e com “The Umbrella Academy” não seria diferente. O gancho para a terceira temporada é tão bom quanto o que tivemos para a segunda, e se a série continuar aumentando o nível vai ser pura alegria em nossos corações.

Agora, preciso dedicar algumas linhas a “Homecoming”, que comecei a assistir sem maiores expectativas, e pelo amor dos meus filhinhos: a produção da Prime Video é simplesmente um dos bagulhos mais sinistros, bem escritos, filmados e misteriosos a que assisti nos últimos anos.

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São duas temporadas, 17 episódios de mais ou menos meia hora, criação de Sam Esmail (“Mr. Robot”, preciso assistir) a partir de um podcast e tem Julia Roberts no elenco do primeiro ano. E Stephan James, Bobby Cannavalle, Shea Whigham, Janelle Monáe, Chris Cooper, Hong Chau, Joan Cusack, Alex Karpovsky, todos ótimos, e tem suspense até dizer chega para quem é fã de Hitchcock, gosta de coisas que parecem ter vindo dos anos 70 e trilha sonora e fotografia inspiradíssimas.

A primeira temporada tem Julia Roberts como a responsável por um programa privado que diz buscar ressocializar soldados traumatizados pela guerra, mas tá na cara que tem alguma coisa errada nessa história, principalmente quando o chefe babaca (Cannavalle) da protagonista liga pra ela. E a estranheza fica ainda maior porque a série mostra a Julia Roberts como a psicóloga e depois como garçonete, e quando essas duas linhas temporais se encontram você fica bolado e pensa “mano, que negócio louco e bem escrito!”

Daí você quer ir logo para a segunda temporada, e vem o choque porque não tem Julia Roberts e sim a Janelle Monáe sem memória num barco, e aos poucos descobrimos mais sobre a empresa que criou o tal programa Homecoming. E quando você acha que tá entendendo alguma coisa eles vão lá e zás!, mandam um flashback mostrando como a guria foi parar no barco e você fica bolado e pensa “mano, que negócio louco e bem escrito!”

O melhor? A segunda temporada tem um desfecho absurdo de bom, e por mais que você queira uma terceira temporada sabe que “Homecoming” pode terminar ali mesmo, complicada e perfeitinha.

Mas nem tudo é só alegria nessa vida, pois perdemos algum tempo de nossas vidas lendo “O Relógio do Juízo Final”, minissérie da DC Comics publicada por aqui pela Panini. Ela serve de continuação para “Watchmen” (olha o problema aí) nas HQs e promove o encontro da obra de Alan Moore e Dave Gibbons com o Universo DC tradicional, sugerindo que o Dr. Manhattan interferiu de várias formas no Multiverso da Distinta Concorrência.

Francamente? Não sou do time que defende que “Watchmen” não poderia jamaister continuação, prelúdio, adaptação para cinema ou TV. Eu gosto do filme do Zack Snyder, juro, e a minissérie da HBO é das melhores coisas de 2020, o que prova que basta ter uma boa ideia e saber o que fazer com ela.

Infelizmente, não é o que tem acontecido nos quadrinhos. “Antes de Watchmen” é tão ofensivo que não consegui ler todas as minisséries, e “O Relógio do Juízo Final” é… desnecessário. Por mais que a premissa seja interessante, a dupla do projeto (Geoff Johns e Gary Frank) esteja entre as melhores da DC, a história é confusa e tenta emular sem sucesso alguns elementos do original. Personagens são desperdiçados, encontros que poderiam ser históricos (Batman e Rorschach, por exemplo) são apenas meh, e o Ozzymandias é reduzido a um vilão com um plano muito distante do “homem mais inteligente do mundo”.

Tem coisa boa em “O Relógio do Juízo Final”? Sim. Gostei da arte do Gary Frank, da origem do novo Rorschach, da “luta” dos heróis com o Dr. Manhattan em Marte e – veja só – das últimas páginas do último capítulo, quando o azulão peladão entende a importância do Superman e o ideal que representa para a humanidade, não importa a época em que ele vá surgir. É um final esperançoso, otimista, mas que não justifica a existência de uma minissérie que nada acrescenta a um dos maiores clássicos da nona arte.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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