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‘Fundação’: leia os livros, assista à série

Por Júlio Black

24/11/2021 às 07h00 - Atualizada 23/11/2021 às 14h17

Oi, gente.

As pessoas de todos os gêneros e não-gêneros que acompanham a coluna já ouviram por aí, em algum momento, que determinado livro ou história em quadrinhos era impossível de ser adaptado para a TV ou cinema. Mas o ser humano, teimoso que é (ou disposto a lucrar a qualquer custo), nunca desistiu diante das adversidades. E foi assim que acertamos algumas vezes, erramos em tantas outras, e quando menos se esperava alguém ia lá tentava de novo: ou porque deu errado, ou porque deu tão certo que um remake/reboot não era visto como má ideia.

Dentro desse universo de impossibilidades, “Fundação”, o clássico sci-fi de Isaac Asimov que ganhou versão audiovisual pelo Apple TV+, era uma das obras que a galera chegava e dizia “rapá, o bagulho é sinistro, vai ser difícil”. Afinal, a saga criada pelo escritor nascido na antiga União Soviética é gigantesca, com sete livros que se passam em vários séculos e, por isso mesmo, sem um único grande protagonista e englobando planetas e culturas diferentes, sem esquecer toda as questões políticas, tecnológicas, filosóficas e sociológicas, entre outras.

Antes de falar da adaptação, vamos ajudar a ah miga leitora e o ah migo leitor que não conhecem “Fundação”. A história acontece dezenas de milhares de anos no futuro, depois de a humanidade ter se espalhado por toda a galáxia, a ponto de ninguém se lembrar onde ela surgiu (Terra? É de comer?). Por 12 mil anos, os 25 milhões de planetas habitados por nossa espécie têm sido governados pelo Império, que tem passado por séculos de calmaria.

Só que essa boa vida tem hora (ou século) para acabar, de acordo com o matemático Hari Seldon. Ele é o criador da psico-história, uma ciência que usa cálculos matemáticos e a sociologia para criar fórmulas matemáticas a fim de antecipar acontecimentos futuros a partir do comportamento no presente de sociedades inteiras. A partir desses cálculos, ele defende que o Império está numa fase decadente que, em poucos séculos, levará toda a humanidade à barbárie e a um período de trevas que deve durar nada menos que 30 mil anos até o Império poder se reestabelecer.

Seldon acredita, ainda, que seria possível antecipar os momentos mais agudos de crise a partir da psico-história e conseguir, dessa forma, que o período de trevas durasse “apenas” mil anos. Ou seja: o fim do Império é inevitável, mas é possível diminuir a dimensão da tragédia.

Com o argumento de que é preciso registrar toda a história da humanidade para que ela não se perca em meio ao futuro pega-pra-capar, Hari Seldon recebe a autorização para criar uma Enciclopédia Galáctica, que ganha o nome de… Fundação. O que ele pretende, na verdade, é colocar seu plano (conhecido como “Plano Seldon”) em ação sem que o Império desconfie, mesmo que ele não esteja vivo para ver se suas previsões estavam certas ou erradas.

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Se já seria difícil acompanhar esse bonde, Asimov ainda fez pequenas mudanças em várias de suas obras – incluindo “Fundação” e a “Série Robôs” – para criar a gigantesca série “Império Galáctico”. Certamente deve existir um “Guia de leitura Asimov for dummies”, mas, no nosso caso, começamos pela “Trilogia da Fundação” (“Fundação”, “Fundação e Império” e “Segunda Fundação”), e o negócio é tão bom, mas tão bom, que queremos ler tudo. Por enquanto, estamos apenas no universo da Fundação: além da trilogia original, já lemos “Pedra no céu: Qualquer planeta é a Terra para aqueles que nele vivem”, e embarcamos em “Prelúdio à Fundação”.

Pois bem, agora vamos ao que interessa. Dá para sentir a barra que é adaptar “Fundação” para a televisão, e ainda bem que a Apple TV+ colocou o projeto e uma montanha de dinheiro nas mãos de Josh Friedman e David S. Goyer – que declarou trabalhar com a expectativa de que a série tenha 80 (!) episódios (o que daria oito temporadas) -, e a dupla não decepcionou na ótima primeira temporada, que já teve um segundo ano confirmado pelo serviço de streaming.

Como explicamos lá pelo meio do texto, um dos grandes desafios de uma adaptação de “Fundação” é o fato de que a série de livros não tem um grande protagonista – ou, se preferirem, uma jornada do herói. Asimov, muitas vezes, avança a história em décadas dentro de cada livro, pois uma das principais questões da trama é saber se os planos e previsões de Hari Seldon estavam certos e como a Fundação conseguiu lidar com eles, mesmo sem a presença de seu idealizador.

Por isso, é possível afirmar que “Fundação”, a série, é mais “inspirada” nos livros de Asimov do que uma adaptação tradicional. As “lacunas” da saga original são preenchidas com tramas que não existiam nos livros, além de mudar o rumo de alguns acontecimentos e se aprofundar em personagens que tinham participação marginal na saga. A produção também deixa de lado a forma linear com que o escritor desenvolveu o seu universo, com a história avançando ou retrocedendo em algumas décadas ou séculos durante os episódios, para que o público possa ter uma melhor compreensão dos eventos.

A série tem alguns defeitos pontuais, como a parte da invasão da turma de Anacreon a Terminus (que deu uma leve barriga à produção) e a vestimenta/armadura da versão adulta do Imperador Cleon, interpretada por Lee Pace. Mas são pecados ínfimos perto da qualidade da primeira temporada, com um roteiro que soube criar seus próprios caminhos enquanto manteve a fidelidade em relação ao universo imaginado por Asimov – e, nesse ponto, toda a parte técnica é fenomenal, seja pelos efeitos especiais, figurinos, design de espaçonaves e cenários de cada planeta visto neste primeiro ano.

O elenco é outro achado. Jared Harris é sempre excelente, e são poucos os atores que poderiam ter se saído tão bem no papel de Hari Seldon. Lee Pace e Terrance Mann (versões adulta e idosa dos clones do Imperador Cleon), Leah Harvey (Salvor Hardin), Lou Llobell (Gaal Dornick) e Laura Birn (Demerzel) são alguns dos nomes que ajudam a fazer de “Fundação” uma série que tem tudo para se tornar uma das melhores adaptações de ficção científica para a televisão, a exemplo de “The Expanse”.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

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