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“American Vandal” de volta à escola

Por Júlio Black

24/10/2018 às 07h02 - Atualizada 23/10/2018 às 17h43

Oi, gente.

Quem acompanha (rá!) a coluna talvez lembre que a temporada de estreia de “American Vandal”, série lançada pela Netflix em 2017, foi recomendada por aqui no já distante 3 de janeiro. Na ocasião, comemoramos o fato do serviço de streaming ter confirmado o segundo ano do seriado, daí foi só felicidade e alegria quando apareceu a tarja “novos episódios” na janelinha do programa. Assim como aconteceu na primeira temporada, foi questão de assistir aos oito episódios mais rápido que o voo de uma andorinha africana e perceber que o que era muito bom ficou ainda melhor.

Para quem (ainda) não conhece, “American Vandal” satiriza aquelas séries documentais de investigação que passam na TV por assinatura. A primeira temporada foi dedicada a investigar o responsável pela pichação de pintos (sim, pintos, pênis, o órgão sexual masculino) nos carros de 27 professores de uma escola numa cidadezinha na Califórnia, tarefa assumida pelos alunos-documentaristas Peter Maldonado (Tyler Alvarez) e Sam Ecklund (Griffin Gluck). Além de mostrar de forma “séria” a reconstituição do crime, o programa ainda usava da ironia e humor para mostrar o microcosmo das escolas americanas. Resultado? Sucesso, e uma segunda temporada garantida.

Mas seria muito sem graça e repetitivo manter os mesmos cenário e personagens, daí a solução foi mudar de ares. Como o primeiro “American Vandal” se tornou um fenômeno no “mundo real”, a ponto de ser “comprado” pela Netflix, Peter e Sam são procurados por gente de todo o país, implorando que eles investiguem os casos mais bizarros – ou parecidos com o que eles solucionaram, inclusive o de um piloto de avião que teria “desenhado um pinto” no céu.

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Mas quem chama a atenção dos jovens é Chloe Lyman (Taylor Dearden), aluna de uma tradicional escola católica no estado de Washington. Segundo a adolescente, a instituição de ensino foi alvo de três crimes escolares cometidos por um sujeito que se intitula “The Turd Burglar”. No primeiro – e mais grave deles -, o meliante misturou um produto na limonada do refeitório e provocou um ataque generalizado de diarreia, com vídeos de alunos se “aliviando” pelos corredores (faltou privada para tanta gente) viralizando na internet. O segundo envolveu uma piñata cheia de fezes, que atingiu diversos alunos de uma turma no Dia de Kurt Vonnegut (!); no terceiro, em um jogo de basquete, dezenas de alunos foram atingidos por cocô de gato em pó disparado por aquelas bazucas que lançam camisetas.

Peter e Sam vão para o noroeste americano e passam a investigar o caso, que para a polícia já tem um culpado: o excêntrico Kevin McClaine (Travis Tope), denunciado pelo próprio melhor amigo e que assume toda a culpa após um bizarro interrogatório. O jovem é expulso da escola e colocado em prisão domiciliar enquanto aguarda julgamento, mas ele diz ser inocente apesar da confissão.

A partir daí, “American Vandal” repete – em parte – a receita da temporada anterior, mantendo o clima de documentário mas sem esquecer da ironia, afinal estamos falando de crimes envolvendo cocô, e retratando alguns dos personagens típicos do high school. Desta vez, porém, a série tem um tom um pouco mais sério, pois trata de temas como inclusão – personificada no grande astro do time de basquete da escola, um negro vindo da região pobre da cidade -, o valor da confiança e da amizade, a solidão, o sentimento de inadequação e a necessidade de ser aceito tanto pela sua origem quanto por suas preferências sexuais.

Tudo isso amarrado por um roteiro muito bom, que mantém o clima de suspense até o surpreendente desfecho. E aí também vale destacar mais um dos grandes méritos da série, que é mostrar o quanto é fácil tirar conclusões precipitadas a partir de evidências fora de seu contexto original ou de testemunhas que viram mais (ou seria menos) do que imaginam. Tudo isso faz com que Peter e Sam sigam linhas de investigação que levam a acusações equivocadas e capazes de abalar amizades. Algo que vale não apenas para nós, jornalistas, mas para toda a geração que transformou o WhatsApp no “Jornal Nacional” do século XXI.

Ao melhorar o que já era bom, “American Vandal” segue como uma ótima sátira aos programas do gênero, mas que fica ainda mais interessante por se aprofundar naquilo que nos torna humanos.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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