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A vida de jornalista (e de ninguém) não está fácil, mas “Kidding” vai aquecer seu coração e te fazer chorar

Por Júlio Black

22/07/2020 às 07h00 - Atualizada 22/07/2020 às 12h58

 

(ATUALIZAÇÃO DO MAL: Descobrimos esta manhã que “Kidding” foi cancelada semana passada pela sua produtora nos EUA, o canal Showtime. Apesar de ter mais que triplicado a sua audiência, a Showtime preferiu não produzir um terceiro ano. Vamos torcer para uma Netflix ou Prime Video da vida adotar o programa)

Oi, gente.

Ser jornalista é engraçado, pois quem não exerce a profissão pergunta coisas do tipo “Como é ser jornalista?”, “O que você faz?”, “Você escreve o que quer?”, “Precisa conversar com as pessoas?”, “Você inventa o que escreve?”, “É fácil ser jornalista?”, “Você gosta do que faz?”. E eu respondo “sim, “não”, “depende”.

É claro que gosto da minha profissão, ela me traz satisfações que jamais teria em outras áreas; preciso, sim, conversar com as pessoas quando necessário; NÃO INVENTO o que escrevo, o pior que pode acontecer é errar um pedaço da apuração. Quanto ao “depende”, aí entra o “ser jornalista pode ser fácil”, pois há momentos em que temos aborrecimentos, decepções, questionamentos quanto à escolha que fizemos pelas mesmas razões que um médico, professor ou membro da Adebra (Associação dos AdEvogados do Brasil).

Ah, e esse lance de “escrever o que quer” vale até a página 2. Há pautas que sugerimos, outras que são necessárias e superlegais ou tipo “poderia ter dormido sem essa”, mas pelo menos na coluna tenho a liberdade de escrever o que gosto, de tentar criar um estilo meu, mais solto, mas nem todo mundo é Elio Gaspari ou Paulo Francis.

Entretanto, há momentos em que ser jornalista é o cão pelos mesmos motivos que é complicado ser motorista de ônibus, boxeador, varredor de rua, motorista de aplicativo, caixa de banco, jogador de futebol. Porque podemos estar tristes, com raiva, sem concentração, com dor, com preocupações, cansados, com sono, com desejo de partir alguém em milhares de pedaços ou estar em qualquer lugar deste mundo, menos próximo dos outros seres humanos.

Às vezes, o que precisamos é de paz, de não ter que entregar coisas no deadline, ou interagir com outros seres humanos. Fazer o que der na telha, ou fazer nada, simplesmente esquecer que existe um mundo ou que o mundo é nosso quarto, e de mais ninguém.

Enfim, hoje não está sendo diabão, mas cá estou a escrever a terceira versão da coluna, gastando parágrafos sem chegar a lugar nenhum. Até a música está me irritando, mas pelo menos me isolo dos sons exteriores, das polêmicas e cães latindo.

Talvez por isso admire tanto essas pessoas que colocam no papel o que sentem ou uma boa ideia no ato da matrícula. Se uma ideia para um conto surgir à meia-noite, só para dar um exemplo, vem aquele “ah, tô cansado” e deixo para o depois que nunca vem. Como nos jornais temos horário de trabalho e prazos para cumprir (e as pautas urgentes têm que vir primeiro, coisa e tal), às vezes a inspiração perde a força porque ela surgiu no fim de semana e só preciso escrever sobre ela três dias depois.

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É o que aconteceu com “Kidding”. Terminei de assistir à segunda temporada no último sábado, cheio de vontade de escrever coisas tão profundas quanto aquelas da coluna sobre a primeira temporada, que publicamos ano passado, mas o timing virou poeira e perdemos o mojo.

(Desculpem, não estou legal.)

Porém, tenho um compromisso profissional e com meus 14 leitores, então vamos ver o que sai. Quem assistiu à maravilhosa temporada sabe que o protagonista é o Jeff Pickles (Jim Carrey em seus melhores momentos), o cara mais bonzinho e altruísta e carismático do mundo e que tem um programa de televisão para crianças que é amado por gerações e ele usa um cabelo ridículo mas tá indo para o fundo do poço porque um de seus filhos morreu e ele não consegue superar o luto e por isso a esposa que ele acha que é a culpada pelo acidente fatal pede o divórcio e tá namorando outro cara e o Jeff tá pirando com todas essas coisas e isso pode ameaçar o programa de TV e ele não sabe lidar com a raiva porque precisa ser um exemplo para as crianças e tem um péssimo relacionamento com o pai e a irmã tá ferrada num casamento infeliz e cheio das traições e aí você vai rir e chorar feito criança como eu chorei em vários momentos porque a série é linda e triste de morrer e é das coisas mais maravilhosas que já assisti ufa cansei.

A segunda temporada é tão maravilhosa quanto a primeira com seus momentos de comédia, drama, situações absurdas, e de lirismo, fantasia, dor, alegria, redenção, sacrifícios, de fazer coisas que vão machucar os outros. Se Jeff Pickles chegou ao fundo do poço, agora ele quer a redenção, mesmo que isso seja muito mais difícil do que se imagina até porque ele nem sabe por onde começar mas ele vai lá e tenta consertar os erros com a ex-esposa e o namorado dela e o filho que sobreviveu ao acidente e usa maconha com o namorado da ex enquanto precisa voltar à televisão e decide que sua nova família são as crianças de todo mundo e por isso lança um boneco no estilo da Alexa da Amazon para conversar ao vivo com as crianças de todo mundo mas alguns pais não querem e outros decidem matá-lo e o Jeff precisa resolver os problemas com o pai controlador enquanto reencontra a mãe e descobre que o outro filho “sobreviveu” e suas ações provocam tragédias absurdas e ele terá que confrontar os Srs. e Sras. Pickles ao redor do mundo e encontrar novos substitutos e a irmã tem que tomar a mais difícil das decisões e a Lontronauta vai ao espaço e nossa quanta coisa.

“Kidding” tem momentos sublimes na segunda temporada, como os episódios do transplante de fígado e o do musical em que Jeff e a ex-esposa assinam o divórcio durante o programa de TV dele. Aliás, a série é boa como poucas em pegar momentos de pura emoção, de ludicidade, e usar isso para episódios de humor absurdo, como o do velório do Sr. Pickles filipino ou quando conhecemos o futuro Sr. Pickles da Sérvia, um sobrevivente da Guerra dos Bálcãs. As cenas no asilo para pacientes com Alzheimer são de cortar o coração, mas nada vai te deixar preparado para o final da temporada, que é de chorar nível “Eu te amo três mil” em “Vingadores: Ultimato”.

De bônus, Michel Gondry (“Brilho eterno de uma mente sem lembranças”) dirige alguns episódios da série, que está disponível no Globoplay. Por mais que dê aquele nó na garganta e seja garantia de muitas lágrimas, poucas coisas são tão lindas e fofoletes de se assistir na TV e capazes de nos proporcionar conforto no coração em tempos tão difíceis – principalmente para pais e mães.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

P.S.: Nossa playlist “…E obrigado pelos peixes” continua lá no Spotify e Deezer. Siga e aproveite.

 

Júlio Black

Júlio Black

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