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A suposta morte de Daminhão Experiença

Por Júlio Black

21/12/2016 às 07h01 - Atualizada 21/12/2016 às 08h27

Oi, gente.

Dizem por aí que Daminhão Experiença morreu no último dia 10, mas sei lá. Não seria surpreendente se ele houvesse morrido há muitos e muitos anos, de forma anônima, e só descobrissem agora. Ao mesmo tempo, tenho lá minhas dúvidas se Experiença realmente morreu, porque Daminhão é o tipo de sujeito que parece imortal, daqueles que aparentam 70 anos de idade há pelo menos três décadas.

Mas dizem que Daminhão morreu e quase ninguém percebeu, e poucos realmente se importaram. Porque quase ninguém conhecia o sujeito. Eu mesmo só fui ouvir o “trabalho” de Damião Ferreira da Cruz (seu suposto nome de batismo) há cerca de 20 anos, graças a um vinil que caiu nas mãos de um amigo.

Foi então que descobri que existia um cara que se chamava Daminhão Experiença, cujo sobrenome artístico era uma homenagem à Jimi Hendrix Experience, e que gravava inúmeros discos de vinil sobre suas aventuras em nosso mundo e em sua “terra natal”, o Planeta Lamma.

Ao mesmo tempo que era quase impossível de ouvir, “Daminhão Experiença no Planeta Lamma” era uma experiência única. Entre canções intermináveis num dialeto incompreensível, o artista cantava sobre aborto, traição, sexo, lesbianismo, drogas, comunismo, semiótica, homossexualidade… Era tudo tosco, de musicalidade sofrível e letras simplórias, muitas de um machismo e falta de noção que fariam a turma do Politicamente Correto exigir sua prisão. Mas era impossível não cantar versos como “Esse mundo tá muito mudado / Os hômi tão virando mulé / E as mulé tão virando hômi / E eu mesmo que sou hômi / Fala, fala, mentiroso”.

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Como aqueles eram os anos 90, não demorou para emprestar a minha fita cassete gravada com o álbum do Daminhão e ser vítima do “bobo quem empresta, mais bobo quem devolve”. Numa época em que a internet ainda engatinhava, passei anos e anos sem procurar pelos discos do maluco que dizia ter nascido no Planeta Lamma, no máximo repetindo os versos que ainda lembrava, como “Eles se esqueceram / Que a mãe deles / Não abortaram eles”.

E assim foi até descobrir por meio dessa tal internet que Daminhão estava morto e enterrado. E descobrir, finalmente, um pouco mais do sujeito. Que ele teria nascido na Bahia, que serviu na Marinha e teria caído do mastro de um navio, o que rendeu a ele uma aposentadoria por invalidez e um estado de confusão mental como bônus. Que morava em um apartamento imundo em Ipanema, no Rio, e gravou mais de 30 discos em vinil que vendia pelas ruas do bairro – isso quando não oferecia o disco de graça para quem não tivesse dinheiro, ou pagava um salgado para o “cliente” que custava mais que a própria bolacha preta com um buraco no meio. Que sempre se recusou a ter contrato com gravadoras, e que ninguém sabia onde e como gravava seus álbuns. Que dizia ter sido cafetão no Estácio. Que preferia ser casado com lésbicas, pois preferia ser corno de outra mulher que de outro homem.

Todas essas pérolas fazem parte de álbuns com títulos como “Damião Experiença chupando cana verde no Planeta Lamma/ Damião Experiença cheirando alho no Planeta Lamma”, “Planeta Cachaça”, “Damião Experiença no Planeta Mendigo”, “Cemitério Nazismo” e “AdeusAdolfHitler1945fim”. Quem se der ao trabalho de procurar por essas obras na internet vai perceber que Daminhão não era gênio, muito pelo contrário: é capaz de não aguentar dez minutos de “Aisibilô, iprimenaplô, guilina bari sia adelan mnaplô” mas, ao mesmo tempo, é impossível não reconhecer que, no meio de tanta piração, o suposto baiano cantava coisas que faziam sentido. E que talvez fosse genial, no fim das contas, mas de um jeito completamente torto.

Vivo ou morto, Daminhão Experiença é imortal. Ou não. Então.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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