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Uma coluna sobre desabafos, Shang-Chi e M.O.D.O.K.

Por Júlio Black

17/11/2021 às 07h00 - Atualizada 16/11/2021 às 12h28

Oi, gente.

Apesar de 99% das pessoas ao nosso redor já terem retornado à vida pré-pandemia, eu e A Leitora Mais Crítica da Coluna (mais beijos e parabéns pelo seu aniversário segunda-feira, te amo três mil) decidimos manter o máximo possível do isolamento e distanciamento social que adotamos nos últimos 20 meses. Como queremos evitar qualquer forma de aglomeração voluntária, o retorno aos cinemas ficou para 2022, provavelmente quando estivermos com a terceira dose no braço e Antônio, O Primeiro de Seu Nome, com a sua tão aguardada primeira dose.

E também existe o fator humano. É claro que não tivemos como evitar (algumas) pequenas comemorações de aniversário, dia dos pais ou das mães; mas evitamos eventos maiores tanto por medo da aglomeração quanto por acreditar que, com 600 mil pessoas mortas pela pandemia – inclusive alguns entes queridos -, não há o que comemorar com tanta ênfase.

Esse sentimento vale para o cinema. O ato de pegar um ônibus (o que não faço desde março de 2020), entrar num dos shoppings de Jufas (o que também não faço desde a mesma época), comprar um ingresso e assistir a um filme seria dar razão a toda essa gente que – pelos motivos mais variados – acredita que o pior já passou. Só que, para mim, O PIOR NÃO PASSOU, 250 PESSOAS MORREM DE COVID POR DIA, quase oito mil por mês, números muito maiores de quando essa turma antivax, anticiência, antiqualquer-tipo-de-bom-senso, essa gente ruim de corpo e alma comprava 50 litros de álcool no supermercado logo que a pandemia começou a se espalhar.

Pode ser que, para muitos, o pior já ficou para trás e bola pra frente, mas o meu luto coletivo prossegue. Entendo a posição de alguns amigos que cumpriram o distanciamento e isolamento social, ficaram em home office, choraram a morte de amigos e parentes, mas decidiram ir ao cinema por causa de um filme que consideraram imperdível, que o contexto atual já permite esses pequenos prazeres. Mas eu não consigo esquecer que Seu Delano, sogro da minha irmã mais nova, morreu de Covid no início do ano porque vivemos num país governado pela forma mais abjeta de ser humano que existe, que atrasou o início da vacinação em dois meses por motivos espúrios – e que poderia ter evitado, pelo menos, dezenas de milhares de mortes, talvez muito mais.

E não posso esquecer de minha mãe, A Gordinha, que chegou a ser internada na mesma época com 50% do pulmão comprometido. Quando recebi a notícia, a primeira coisa que falei para A Leitora Mais Crítica da Coluna foi “minha mãe tá internada com Covid e vai morrer, temos que ir pra Volta Redonda”. Avisei a meu editor que não tinha condições de trabalhar – estava arrasado de uma forma que não cabe em palavras – e viajei aguardando o pior. Graças à ciência, ela sobreviveu, mas até hoje penso como conseguiria suportar tanta revolta no coração se ela morresse por falta de uma vacina que já existia, da mesma forma que guardo em mim a revolta de tantas outras perdas que poderiam – e deveriam – ter sido evitadas.

Mas o fator principal de minhas preocupações e medos é Totonho. Com pouco mais de 5 anos, ele só poderá ser vacinado ano que vem, caso a Anvisa autorize a aplicação de doses contra a Covid em crianças, e já decidimos que ele seguiria com aulas remotas este ano porque achamos completamente irresponsável, temerário, estúpido, oportunista, covarde, insensível e precipitado retomar as aulas presenciais aos 40 minutos do segundo tempo do ano letivo. Se não quero meu filho se arriscando na escola, como poderia ter a cara de pau de achar que tudo bem ir ao cinema? Jamais me perdoaria se ele ficasse doente por minha culpa.

Enfim, não queria gastar mais de 600 palavras antes de escrever minhas considerações consideráveis sobre os temas da coluna desta semana, que são o filme do Shang-Chi e a animação com o vilão M.O.D.O.K.. Sinceramente? Minha ideia era bem básica, mais ou menos assim: “Oi, gente. Como ainda achamos prematuro voltar a frequentar cinemas com a pandemia matando o equivalente à época em que todo mundo falava em lockdown e achava 250 mortes as trombetas do apocalipse, decidimos esperar a chegada do filme do Shang-Chi no Disney+, e agora…”.

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Mas não deu. A ansiedade, a agonia, a tristeza, a revolta, a depressão, as notícias ruins – e a consequente reafirmação de que a meritocracia não existe, que a competência, a experiência, são deliberadamente sabotadas e ignoradas em nomes das relações pessoais, compadrios e panelinhas – nos deixam amargos e com a certeza reforçada de que a humanidade, no geral, não presta.

Ok, agora sim vamos falar de “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”, o 25º filme do MCU (Universo Cinematográfico Marvel). Como quase tudo já foi escrito ou “podcasterado” por aí, podemos dizer que curtimos muito o filme, no geral foi muito melhor do que esperava. O Marvel Studios, mais uma vez, soube entregar um trailer que cria expectativas totalmente diferentes do que aparece na tela, além de enfraquecer a ladainha de que “ain, tá todo mundo cansado dos filmes da Marvel, é sempre a mesma coisa”.

Imaginava que teríamos um filme com o protagonista que foge do pai para não seguir seus passos de vilão, retornando apenas quando precisasse salvar o mundo dos planos do coroa, mas a história segue outros caminhos. Papai continua sendo um vilão, claro, mas é um vilão que larga tudo por amor, e só é novamente corrompido quando seus sonhos de felicidade são destruídos por causa dos pecados do passado, e aí fica obcecado em tentar recuperar o que perdeu.

Não curto muito essas listas de “filmes do MCU, do pior para o melhor”, mas “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” certamente não estaria no final da fila. É um belo filme que mistura ação, artes marciais, fantasia, folclore, drama, em que as conexões com o MCU aparecem apenas duas vezes. Poderia muito bem ser visto como um belo filme de pé-na-kara, com cenas de luta absurdamente bem realizadas, como o embate entre Xu Wenwu (Tony Leung) e Li (Fala Chen), de um lirismo que lembra “O tigre e o dragão”). Simu Liu está perfeito como o protagonista, e a presença de Awkwafina – que no início deu medo de ser um alívio cômico desnecessário – acabou rendendo um ótimo entrosamento com Shang-Chi.

O terceiro ato do filme e a orgia de CGI decepcionam um pouco em relação ao que tínhamos visto antes – mas filme da Marvel sem a grande batalha final non existe -, mas “Shag-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” cumpre muito bem a missão de introduzi o personagem no MCU.

O espaço é pouco, mas precisamos falar de “M.O.D.O.K.”, animação com um dos mais bizarros vilões da Marvel que estreou no Star+. Com um estilo totalmente inspirado no clássico “Robot Chicken” – mas com orçamento bem maior -, a comédia mostra o protagonista, criador e cientista supremo da IMA (Ideias Mecânicas Avançadas) tomando mais uma surra do Homem de Ferro. Para piorar, a falta de grana para tocar seus projetos faz com que ele venda a IMA para uma dessas empresas bilionárias de tecnologia, atrapalhando seus planos de conquista mundial.

Mas como tristeza pouca é bobagem, M.O.D.O.K. é casado(!) e tem que lidar com o pedido de divórcio da esposa e a falta de respeito dos filhos, e lá vai ele morar em um imundo apartamento de solteiros. Para completar, existe uma grande conspiração que será revelada no decorrer dos capítulos.

“M.O.D.O.K.” ganha a turminha nerd ao colocar o protagonista em situações mundanas e absurdas, seja no mundo corporativo ou em suas relações familiares. A série ainda tem no elenco personagens que nunca haviam aparecido no MCU, e geralmente aqueles da quinta divisão da Marvel: Armadillo, Arcade, Super Adaptoide, Mandril, Angar, Derretedor, Magnum… O quarto episódio, então, é o melhor de todos, ao colocar M.O.D.O.K. tentando invadir a Torre dos Vingadores com um grupo de vilões fracassados.

Ah, e a série também é a primeira produção da Marvel que não apenas cita de alguma forma o Quarteto Fantástico e os X-Men, como também tem a participação de personagens que antes eram exclusivos da Fox no audiovisual.

E por enquanto é só (isso tudo). Vida longa e próspera e obrigado por tudo, Aline. Se hoje sou uma pessoa melhor (ou seria menos pior?) e tenho Antônio em minha vida, é por sua causa. Você merece mil vezes mais do que tudo que já conseguiu até hoje, pois é a melhor mãe, namorada, esposa, professora, acadêmica, cronista, contista, escritora e amiga que eu já conheci.

Júlio Black

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