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Quem não gosta de Rufus Wainwright é hater, #prontofalei

Por Júlio Black

16/09/2020 às 07h00 - Atualizada 15/09/2020 às 13h52

Oi, gente.
Mesmo que fora de contexto, tem uma frase de Albert Camus que uso para explicar meu desejo obsessivo de assistir a todos os bons filmes e séries que existem, todos os bons livros e quadrinhos, e tanta coisa ligada à arte: “O desespero, como o absurdo, julga e deseja tudo, em geral, e nada”, de “O mito de Sísifio”, que sempre li por aí como “O homem desesperado deseja tudo ao mesmo tempo e nada em particular”.
Minha ignorância não me permitiu até hoje compreender sequer 3% do que escreveu o genial escritor, jornalista, dramaturgo e filósofo franco-argelino, autor do insuperável “O estrangeiro”. Mesmo assim, levo essa questão do “desejar tudo ao mesmo tempo e nada em particular” como um mantra sobre meu envolvimento com a arte em geral. Não sou do tipo que vai ler apenas Camus, ouvir exclusivamente Radiohead ou ter na prateleira apenas os quadrinhos dos X-Men. O resultado é tudo ser pulverizado, passar séculos longe de artistas que gosto tanto.

Rufus Wainwright, por exemplo. O cantor norte-americano faz um tipo de pop barroco, com pegadas de indie pop, rock e outros lances que me fazem voltar à infância, lá no final dos anos 70, nas viagens no Fusca café-com-leite de meu pai na ponte rodoviária Roseira-Volta Redonda-Roseira. Para quem não viveu a época, as rádios _ quase todas FM _ tocavam um estilo de pop que ficou para trás, perdendo espaço para um fast-food musical em que dez vez em quando se descobre uma iguaria.
Com tanta música sendo lançada todo dia, mais o retorno a alguns clássicos de sempre, calhou que Rufus Wainwright ficou numa das caixinhas lá no fundão do armário musical, ainda mais que o último trabalho autoral fora em 2012; nesse período, lançou dois trabalhos ligados à ópera e sonetos de Shakespeare. Mas então o rapaz resolveu que era hora de lançar um novo álbum, que chegou ao streaming em julho, e zás!, passamos a ouvir sempre que possível.
“Unfollow the rules” está entre os melhores álbuns da carreira do cantor e compositor, com todas aquelas características que tanto gostamos nos trabalhos de Rufus Wainwright: pop clássico e saudosista, várias vezes com os dois pés no barroco, baladas, a voz inconfundível do americano e canções que mostram um artista feliz, curtindo a vida em toda a sua tranquilidade de ter a pessoa que ama e uma família para chamar de sua, porém sem esquecer do passado de balbúrdia e dar seus pitacos na política.

Com as presenças mais uma vez marcantes de grandes influências do artista, como Cole Porter, Leonard Cohen e Burt Bacharach (eu ainda acrescentaria Elton John), “Unfollow the rules” tem maravilhas como a faixa-título, “Peaceful afternoon”, “Trouble in Paradise”, “Demsel in distress”, “Only the people that love” e “Romantical man”.
Quem não gosta de Rufus Wainwright é hater.
Todavia, nem tudo nessa vida é manter-se preso ao passado. Sempre estamos à caça de boas novidades, e uma delas, a dupla Black Pumas, foi descoberta graças a uma postagem no Twitter de Tim Burgess, vocalista dos Charlatans. Não lembro o que ele escreveu a respeito da banda, mas no mesmo instante fui lá pesquisar no meu serviço de streaming, botei para ouvir e… Pelas Hordas de Hoggoth, mas que álbum sensacional.

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O disco de estreia da dupla Eric Burton e Adrian Quesada é pura soul music dos anos 60 e 70 com raspas de psicodelia que conquistam o ouvinte do início ao fim, na melhor tradição do que a Motown fazia em seus áureos tempos. O álbum homônimo já começa matador com “Black Moon rising”, e segue com aquela classe e elegância em “Colors”, “Know you better”, “Fire”, “OCT 33”, “Stay gold”, a versão de “Fast car” (Tracy Chapman) e de repente você já chegou ao final e resolve mandar ver no repeat e recomendar para os amigos (sim, fiz isso).
Enquanto tivermos bandas com a Black Pumas surgindo por aí, a soul music vai seguir bem viva e (re)conquistando corações.

Antes de fechar a lojinha, vamos de mais quadrinhos nacionais. Faz alguns meses que a roteirista Milena Azevedo havia enviado uma cópia de “Penpengusa”, mas quis o destino que eu ficasse naquela de “amanhã eu leio” e aí surgia uma coisa, outra e mais outra, e perdi a chance de recomendar há mais tempo uma ótima HQ dessa geração que surgiu na última década por essas bandas.
Lançada por meio da força da galera no crowdfunding e também da Zarabatana Books, “Penpengusa” é uma distopia steampunk passada no século XXXI, em que a humanidade dá os primeiros passos após um cataclismo nuclear, daí que a eletricidade volta a dar seus primeiros passos, muito do maquinário é movido a vapor, zepelins dominam os céus, não existe internet, as comunicações são por meio de rádio e telégrafo e todo mundo se veste como se a sociedade estivesse na virada do século XIX para o XX.

Ao mesmo tempo, alguns elementos do capitalismo têm mais a ver com o nosso novo milênio e distopias do sci-fi, com os continentes transformados em grandes corporações que controlam tudo e ainda mantêm o povo controlado e dócil por meio da caixa de emoções, que vicia que é uma tristeza. Além disso, a falta de liberdade faz com que as profissões sejam hereditárias, então se o seu pai é ferreiro, advogado ou policial, ou o cidadão aceita o seu destino ou entra para a ralé que vive marginalizada, ainda mais que a polícia está lá para servir apenas a quem segue na linha.
É nesse contexto que temos nosso protagonista, o sargento Duluoz, que ao investigar um crime menor vai cruzar seus caminhos com um grupo de revolucionários que desejam derrubar o atual regime. Esse encontro vai fazer com que ele reveja suas convicções, e aí partir daí “Penpengusa” se transforma em uma luta pela liberdade.
Com quase 140 páginas, a graphic novel traz ainda a excelente arte de Rodrigo Xavier, com um traço em preto e branco limpo e estiloso, que consegue retratar muito bem o clima steampunk e criar um cenário que nos transporta lá para o final do século retrasado.
Além das referências à ficção científica movida a vapor, ainda tem referências a “Blade Runner”, “Steamboy”, ao Cubo Mágico, ao primeiro submarino movido a vapor, ao primeiro protótipo de metralhadora e à filósofa e escritora Márcia Tiburi. É pouca coisa, não.
Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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