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Precisamos conversar sobre “Capitã Marvel”, feminismo e menstruação

Por Júlio Black

13/03/2019 às 07h10 - Atualizada 12/03/2019 às 14h45

Oi, gente.

“Capitã Marvel” estreou na última quinta-feira (7) cercado por muita expectativa, aquele lance de ser o primeiro filme com protagonista feminina do Universo Cinematográfico Marvel (MCU), ser o último antes de “Vingadores: Ultimato”, ter o lance do pager do Nick Fury (Samuel L. Jackson), aí geral ficou a imaginar que teríamos um novo “Pantera Negra”, um über manifesto feminista (para horror dos nerds machistas e misóginos; vergonha saber que tem gente assim no nosso meio), mil coisas.

Pois é: “Capitã Marvel” foi o que eu esperava: divertido, uma daquelas histórias de origem feijão-com-arroz do Marvel Studios que a gente gosta por causa dos temperinhos que deixam tudo com um sabor diferente, com Anna Boden e Ryan Fleck servindo de pedreiros da sétima arte a serviço do MCU. Poderíamos colocar no mesmo nível de “Capitão América: O primeiro vingador”, por exemplo, sem tretas.

O que teve de bom, então? A história em si, em primeiro lugar. Como adaptação – e vamos ressaltar que é uma ADAPTAÇÃO dos quadrinhos -, o longa se encaixa na cronologia do MCU, mostrando como Carol Danvers obteve seus poderes, os krees e skrulls entraram na jogada e ela se tornou a heroína mais badass do universo. O filme talvez demore a engrenar um pouco no início, mas é a ‘fórmula Marvel” funcionando: personagens carismáticos, ação, um pouco de humor, surpresas, inversão de expectativas e atenção aos detalhes, desenvolvimento da mitologia e cronologia.

A propósito: se o diabo está nos detalhes, a Marvel é o Tinhoso na Terra, e por isso tem surrado a DC Comics nos cinemas. Mesmo depois de 20 filmes, o estúdio consegue expandir seu universo, tem a sacada esperta de fazer uma história passada nos anos 90, encaixa vários elementos já conhecidos da mitologia, esconde o jogo nos trailers e dá uma rasteira nas expectativas – tipo a revelação sobre como Nick Fury perdeu o olho esquerdo, quer coisa mais “a estupidez mata”?

“Capitã Marvel” tem seus defeitos, claro, e um deles é a trilha sonora. Foi muito boa a ideia de privilegiar bandas com vocalistas femininas (Garbage, No Doubt, Elastica, TLC), mas a tentativa de emular “Guardiões da Galáxia” fracassou: não adianta você ter uma trilha sonora esperta se ela está fora de contexto. Além disso, o roteiro demora a dar os diálogos que Brie Larson (a Capitã Marvel) merecia, a edição parece ter ritmo rápido ou lento demais em alguns momentos e o design de produção, quando comparado com Pantera Negra, é realmente decepcionante.

Mas quer saber? Isso é muito pouco para tirar os méritos do filme, que diverte, emociona (teve galera batendo palma na sessão a que assisti), e sim senhora, sim senhor: a mensagem feminista está lá, aleluia, mas de uma forma tão bem integrada à história que evita o nosso maior temor, a apresentação de uma propaganda vazia apenas para mostrar a Marvel como “lacradora”. Carol Danvers sabe o que quer, do que é capaz, e ai do cabra que achar que ela tem que ficar em casa lavando louça ou servindo café no escritório.

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Por fim, podemos afirmar que Capitã Marvel – assim como a Mulher-Maravilha – tem tudo para servir de inspiração para as meninas, adolescentes e mulheres que forem ao cinema. Meninos e homens também, por favor.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Opa, peraí.

Faltou a menstruação lá do título, né? Nosso espaço é sobre coluna pop, mas já que o assunto é “Capitã Marvel”, feminismo, precisamos abrir exceção e indicar “Absorvendo o tabu”, documentário em curta-metragem que levou o Oscar de sua categoria. É uma produção que mostra a mobilização para a criação de pequenas fábricas de absorventes femininos na Índia e que mostra o quanto o mundo ainda é um lugar de extremos e situações que beiram o surreal.

Dentre os absurdos mostrados no doc está o fato de que apenas 10% da população feminina do país asiático tem acesso ao produto. Como a Índia tem uma população superior a um bilhão de habitantes, podemos chutar que cerca de 300 milhões de mulheres precisam usar absorventes todo mês. Ou seja, 270 milhões delas passam pela situação de utilizarem panos, jogarem fora (!) a roupa manchada de sangue e até mesmo abandonar os estudos (!!!) porque não tinham acesso a absorventes e o lugar para trocar de roupa ficava muito longe.

Apesar de ser algo normal na vida de qualquer mulher entre os dez e 55 anos, mais ou menos, o assunto é tabu na Índia, aí mães não conversam a respeito com as filhas, ou irmãs com irmãs, amigas e amigas e amigos, namoradas e namorados. Para piorar, a religião – sempre ela – proíbe que as mulheres frequentem os templos do país durante a menstruação por “estarem impuras”. Sim, o caminho para acabar com a ignorância é longo.

“Absorvendo o tabu” está na Netflix e é recomendável para todos, mulheres e homens, entenderem o quanto é importante conversar e aprender sobre o corpo humano – e que combater a educação sexual nas escolas é das coisas mais imbecis que existem.

Capitã Marvel pode ser um exemplo mais acessível e pop de empoderamento, mas as mulheres e homens de “Absorvendo o tabu” mostram que podemos ter heróis no mundo real, fazendo tanto com tão pouco.

Júlio Black

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