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‘Expresso do amanhã’ balança, mas não sai dos trilhos

Por Júlio Black

12/08/2020 às 07h00 - Atualizada 11/08/2020 às 17h06

Oi, gente.

Quando “Expresso do amanhã” estreou na Netflix, no finalzinho de maio, aproveitamos para escrever sobre as graphic novels e o filme que inspiraram a série, que não me deixou animado quando saíram as críticas dos primeiros episódios. Afinal, as resenhas indicavam uma produção mais ligada ao formato quase esgotado de séries policiais procedurais que ao clima apocalíptico-tudo-virou-gelo-batalha-de-classes dos quadrinhos e do longa de Bong Joon-ho.

Ainda bem que confiamos no taco do cineasta que varreu o Oscar deste ano com “Parasita”, um dos produtores da série. “Expresso do amanhã”, sejamos sinceros, segue em marcha lenta nos primeiros episódios, mas depois que resolvem o lance do crime a produção avança e melhora de um jeito que, quando a primeira temporada termina – com direito a um gancho gigantesco para a segunda temporada, já confirmada –, você está querendo mais.

A princípio, a produção da Netflix abraça a premissa original da história criada por Jacques Lob e Jean-Marc Rochette nos anos 80. A humanidade tanto fez que conseguiu criar do nada uma nova Era Glacial que exterminou toda a vida no planeta; os sobreviventes estão confinados no gigantesco Snowpiercer, trem com 1.001 vagões que roda pelos continentes com quem tinha grana para pagar um bilhete mais a turma que entrou de penetra e foi confinada ao fundão do trem, comendo o pão que o diabo congelou.

Na série, ainda ficam mais evidentes as segunda e terceira classes, com a galera que trocou uma vaga no comboio em troca de seus serviços. Essa estratificação social está sempre por um fio, com quem está na primeira classe querendo manter os privilégios e os fundistas dispostos a realizar a revolução e tomar a locomotiva eterna do criador do trem, o Sr. Wilford.

Porém, para a versão televisiva, os protagonistas são o líder dos fundistas – desta vez o ex-detetive Andre Layton (Daveed Diggs) – e a responsável pelo setor de Hospitalidade, Melanie Cavill (Jennifer Connelly), que o convoca dos últimos vagões para resolver um assassinato ocorrido nos carros dianteiros. Quem meteu o pau nos primeiros episódios estava certo, pois parecem mais uma versão estendida – e algo cansativa – de séries policiais como “Law and Order”, ainda mais que a solução do mistério foi mais fácil que ferver água.

Depois que se descobre quem cometeu o crime, entretanto, “Expresso do amanhã” deslancha. Os conflitos de classe sobre trilhos ganham destaque, com as tramas da primeira classe e do fundo correndo em paralelo (algo que não havia na HQ e no filme), outros mistérios mais interessantes surgem e são desvendados, e a primeira temporada termina com fôlego e deixa no telespectador meia dúzia de perguntas realmente legais de se descobrir com a estreia do segundo ano, em 2021.

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O elenco, no geral, é muito bom. Jennifer Connelly é a Jennifer Connelly e Alison Wright mora no meu coração desde “The americans”, A MELHOR SÉRIE DE TV DO UNIVERSO. O problema fica por conta do Andre Layton do Daveed Diggs, que não tem carisma e poucas vezes parece ser o tipo de cara que você seguiria numa revolução.

“Expresso do amanhã” encerrou sua primeira temporada com saldo positivo e tem tudo para se manter nos trilhos (tum-dum-tsss) se mantiver a pegada e não repetir certos erros – principalmente achar que pode ser um “CSI on ice”.

Além de terminamos a primeira temporada de “Expresso do amanhã”, lemos dois quadrinhos nacionais que valem a recomendação. Um deles reúne os dois volumes de “Lado Bê”, de Aline Lemos, que em pouco mais de 40 páginas de histórias curtas – e em preto e branco – mostra todos os questionamentos da protagonista sobre seu corpo, gênero e outros temas contemporâneos, e sempre com bom humor.

A outra é “Maré alta”, de Flávia Borges. HQ também curtinha (34 páginas), foi indicada a alguns prêmios no Brasil e usa um dos quatro elementos – no caso, a água – para contar a relação amorosa de duas garotas. É história de poucos diálogos e muita delicadeza, que também merece ser conhecida por quem sabe que quadrinhos não se resumem a gente de collant em eternas Crises.

Para quem quiser conhecer o trabalho das duas quadrinistas, elas estão no Instagram: @desalineada_ para Aline Lemos e @breezespacegirl pra Flávia Borges.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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