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Wakanda forever, Chadwick Boseman

Por Júlio Black

09/09/2020 às 07h00 - Atualizada 08/09/2020 às 14h53

Oi, gente.

Demorou quase duas semanas, mas consegui escrever sobre a morte de Chadwick Boseman. Mas há motivos: entreguei a coluna da semana passada justamente no dia da morte do ator, e também fiquei muito abalado pelo choque da notícia. Foi no finalzinho da noite do dia 28, estava lendo alguma coisa (“Carbono alterado” ou “Baseado em fatos reais”) quando um amigo deu a notícia no WhatsApp. Aí tudo perdeu o foco, fui conferir sites de notícias, Twitter, televisão; foi um final de semana muito triste e preferi deixar a poeira baixar, refletir por mais tempo sobre o que perdemos.

Sei que vivemos tempos em que o chamado lugar de fala pode causar polêmica dependendo de quem se pronuncia, mas acredito ter meus motivos para me manifestar a respeito mesmo não sendo negro/preto. Sou herdeiro da secular miscigenação do Brasil, mais um nessa imensa população de pessoas chamadas pardas; meu pai é negro, meu avô era negro e minha avó branca, loira e de olhos verdes, provavelmente descendente de portugueses – a árvore genealógica da minha família é um verdadeiro “não sei”.

Meu pai é um desses exemplos da falta de oportunidades que os negros sempre enfrentaram no Brasil. Ele nunca conheceu meu avô, pois este sumiu no mundo quando ele tinha menos de um ano de idade. Não teve infância: começou a trabalhar aos sete anos, primeiro vendendo bala e outros doces nos trens da Central do Brasil; não completou o ensino fundamental, e o sonho de ser piloto de avião sequer chegou a decolar. Poderia ter ido para um caminho ruim, mas aprendeu o valor do trabalho – ainda que ao preço de perder tudo aquilo que tive na infância, e ele não -, tornou-se “peão de trecho” ajudando a construir refinarias, plataformas, usinas siderúrgicas, até trabalhou no exterior pelo reconhecimento da sua seriedade, dedicação e responsabilidade.

Foi trabalhando honestamente que conseguiu formar família, ter uma casa para chamar de sua e dar diploma universitário para dois dos três filhos. Mesmo aposentado, aos 70 anos, não consegue parar. Sempre gostou de mexer com eletrônica, por isso aprendeu a consertar celulares e passa os dias ocupado. E repete com orgulho que todo esse esforço permitiu a ele ter o que desejava na vida adulta sem precisar ser desonesto com ninguém, mesmo quando olhavam atravessado para o “crioulo” que comprava tudo à vista.

Pensar em meu pai é ver como tive sorte de tê-lo ao meu lado até hoje, de poder dar a mim e minhas irmãs tudo que pôde oferecer, mesmo sem estudo, principalmente por vivemos em um país em que os negros/pretos têm menor escolaridade, menores salários, ocupam a minoria dos cargos de chefia, têm pouca representatividade no Congresso, não moram nos melhores bairros. E que seguem sendo vistos como marginais em potencial só pela cor da pele, que são 75% das vítimas fatais das forças policiais, segundo o mais recente levantamento do Monitor da Violência. É o que percebo nestes quase sete anos em que moro em Juiz de Fora, com a população preta fora das escolas particulares mais caras e elitistas, minoria gritante em bairros como o Granbery e Alto dos Passos, mas maioria absoluta nos bairros pobres da periferia e nos morros.

Que fique claro, não é uma realidade exclusivamente juiz-forana: Andrelândia, terra natal da minha sogra e que passei a frequentar na última década, é outro lugar onde os negros não têm vez, não melhoram nas melhores casas, não são médicos, advogados, comércio, ricos. Vamos deixar de amenidades: o racismo é muito forte, frequente e presente em Minas Gerais.

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Enfim. Precisava desabafar tudo isso para poder falar de Chadwick Boseman e da sua importância por meio da arte e do cinema para os negros de todo o mundo, por me lembrar das desigualdades que vemos todos os dias, do meu pai. Sua morte, que chegou miseravelmente cedo, pelo menos vai ajudar a resgatar do passado recente os papéis de personalidades importantes para a população negra que ele interpretou. Jackie Robinson, o primeiro negro na MLB, a liga profissional de beisebol dos Estados Unidos; o cantor James Brown; Thurgood Marshall, o primeiro negro a ocupar assento na Suprema Corte americana; e mesmo o fictício comandante Stormin’ Norman de “Destacamento Blood”, com seu discurso sobre a condição do negro na América.

Analisando em retrospectiva, percebemos o quanto Chadwick Boseman tinha consciência de sua importância como artista e cidadão para tentar mudar as coisas, em particular na sua terra natal, que até hoje segue baleando ou matando como animais uma sucessão infinita de Jacob Blakes e George Floyds unicamente pela cor da pele. E é irônico que o filme mais importante sobre a representatividade negra no cinema, na sociedade, seja um blockbuster de heróis de quadrinhos.

Ao mesmo tempo, não sei se Chadwick Boseman tinha ideia da dimensão que o Pantera Negra passaria a ter na cultura pop e para o movimento negro, mas talvez a luta contra o câncer, para dar ao personagem negro um sotaque particular, sejam provas disso, assim como o exemplo que procurou dar a tantas crianças e jovens depois que o longa se tornou um fenômeno cultural e social.

Confesso que, no início, encarei “Pantera Negra” como um ótimo filme da Marvel, e estava feliz por ver um super-herói negro tão bem representado e que servisse de exemplo para tantos. Mas não demorou para ver a importância que o filme teria para a geração atual e as futuras, quando surgiram as notícias sobre as campanhas para que os negros fossem ao cinema a fim de se verem representados na tela grande, as crianças fantasias como o herói e as Dora Milaje, o discurso sobre desigualdade social.

“Pantera Negra” foi isso e muito mais. Tivemos o longa concorrendo ao Oscar, inclusive a melhor filme, levando três prêmios, e vimos toda uma geração descobrindo o afrofuturismo, refletindo a respeito de suas ancestralidades, exigindo mais respeito e direitos iguais, mais protagonistas negros que os representassem nas telas. Muito disso se deve ao trabalho e à dedicação de Chadwick Boseman, que pode ser colocado ao lado de nomes do audiovisual como Spike Lee, Denzel Washington, Nichelle Nichols, Jordan Peele, Sidney Poitier, Whoopi Goldberg e John Singleton como figuras que inspiraram e vão inspirar gerações.

A morte de Chadwick Boseman provocou comoção e muitas lágrimas. Porém, nada foi tão emocionante quanto as fotos que surgiram nas redes sociais com várias crianças que colocaram seus bonequinhos para “velarem” seus bonecos do Pantera Negra, todas fazendo o “Wakanda forever”. Uma delas, negra, tinha o rosto tomado pelas lágrimas, e foi impossível não chorar com ela. É impossível não sentir as lágrimas nos olhos mesmo hoje. São milhares, milhões de crianças que tão cedo perderam o primeiro grande herói no qual podiam se espelhar, que trazia na pele a mesma cor e sofrimento que elas já encaram ou terão que encarar.

O Pantera Negra tornou-se um símbolo para toda uma comunidade espalhada por vários continentes, o primeiro herói negro global, maior que Blade, Shaft. Hoje, não importa se Wakanda e T’Challa são figuras fictícias em um universo de quadrinhos e cinema, produtos do capitalismo. Ainda que a Marvel e a Disney faturem milhões e bilhões de dólares com filmes, figuras de ação, camisas, HQs, desenhos animados, o “Wakanda forever” virou símbolo de toda uma raça/etnia, sei lá qual o termo correto. O Rei de Wakanda é um ícone e exemplo que vai durar gerações, não importa quem vá interpretá-lo no futuro – e é preciso que alguém o interprete daqui para frente, pois é essencial que o Pantera Negra continue vivo para nossos filhos e netos.

Mais que um homem, herói, personagem de ficção, o Pantera Negra se tornou um símbolo de orgulho, liberdade, poder e resistência para todo um povo. E muito disso se deve a Chadwick Boseman, que jamais será esquecido.

Yibambe. Wakanda forever.

Júlio Black

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