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Este é o R.E.M. que eu conhecia, e me sinto bem em ouvir de novo

Por Júlio Black

07/11/2018 às 07h11 - Atualizada 07/11/2018 às 07h51

Oi, gente.

Aquele 21 de setembro de 2011 foi um dia surpreendente e triste. Com uma pequena nota em seu site oficial, Michael Stipe, Peter Buck e Mike Mills anunciavam o final das atividades do R.E.M., uma das minhas bandas mais estimadas e que sempre carreguei no coração. A tristeza do fim, porém, era compensada pelo fato de que eles preferiram parar antes que se tornassem irrelevantes, com trabalhos pouco inspirados, sem correr o risco de repetir um “Around the sun” (de 2004) e deixando como obra derradeira o excelente “Collpase into now”, lançado seis meses antes.

Podia ser o final da banda como conhecíamos, mas ainda poderíamos nos sentir bem. Afinal, o R.E.M. deixou um legado musical/afetivo que poucas bandas surgidas nos últimos 40 anos poderiam igualar. Em seus 31 anos de existência, o originalmente quarteto (Bill Berry deixou o grupo em 1997) de Athens, Geórgia, deixou para os fãs álbuns como “Automatic for the people”, “Monster”, “Out of time”, “Life’s rich pageant”, “Document”, “Up”, “Accelerate”, “Reckoning”, “Murmur”, “Green”, “Fables of the reconstruction”, “New adventures in Hi-Fi”, “Reveal”…

São discos que ouvimos com gosto até hoje, sem esquecer as coletâneas com raridades e os muitos DVDs (e “VHSs”) que acumulamos durante os anos. Estão lá “Road Movie”, “Live”, “Perfect Square”, “Austin City Limits”, “Tourfilm”, “This film is on”, “In view”, além daqueles ao vivo misteriosamente lançados por uma loja de departamentos com apresentações na França, Suécia, e que não fazem parte da videografia oficial. E não dá para esquecer, claro, de 13 de janeiro de 2001, dia da histórica apresentação do R.E.M. no Rock in Rio – que passei meses, na época, caçando música por música nos Soulseek da vida antes de uma alma caridosa compartilhar o vídeo completo do show.

Pois bem. Todas essas reminiscências têm um motivo. Inicialmente a ideia era celebrar os 20 anos de lançamento de “Up”, completados em 26 de outubro, mas o R.E.M. lançou, uma semana antes da efeméride, “R.E.M. at the BBC”, o tipo de compilação que faz os apaixonados pela arte da canção ficar de joelhos e dizer “não merecemos, não merecemos” e agradecer a graça concedida.

E olha só o tamanho da graça. Além de dois DVDs com apresentações da banda em programas de TV da BBC – incluindo um especial no programa de Jools Holland -, a caixa vem com oito CDs que reúnem todas as participações do R.E.M. nas rádios da estatal britânica e a íntegra de quatro shows na Inglaterra, totalizando 103 faixas num período que vai de 1984 a 2008. Com exceção a “Collapse into now”, há versões ao vivo de músicas de todos os discos do R.E.M., e ainda duas covers: “Love is all around”, dos Troggs, e “Munich”, dos Editors.

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Pessoas sem amor no coração podem perguntar a graça que existe em ouvir oito horas de versões ao vivo de músicas já conhecidas, sendo que algumas se repetem durante a audição – “Losing my religion” aparece seis vezes. Além de dizer que tal sujeito é um desgraçado sem um pingo de sentimento, podemos afirmar que os motivos são inúmeros, mas vamos nos limitar a três.

O primeiro – e óbvio – é mostrar a importância de uma rádio como a BBC para a música, exemplo de como os meios de comunicação deveriam tratar a cultura com o respeito e a reverência que ela merece. Os registros com o R.E.M. são apenas uma ínfima parcela do que a emissora britânica tem feito ao longo de sua história, convidando artistas para se apresentar em seus estúdios, transmitindo shows e, principalmente, legando essas gravações para a posteridade. E quem já ouviu a rádio – no meu caso, pela internet – sabe como a BBC é relevante até hoje.

Dentre os registros da caixa, há um dos primeiros shows do R.E.M. na Inglaterra, em 1984, quando o grupo era apenas um obscuro e promissor nome do rock alternativo dos Estados Unidos. Depois, já como uma das maiores bandas do mundo, uma gravação inédita de um show de 1995 em Milton Keynes, da turnê do álbum “Monster”, e a apresentação na edição de 1999 do Festival de Glastonbury, fechando uma das noites do evento. E não poderiam faltar as sessões especiais feitas para a rádio, realizadas entre 1991 e 2008, incluindo as participações nos programas do lendário radialista John Peel.

Segundo motivo? O R.E.M. foi, ao seu modo, uma banda que nunca se satisfez em viver apenas em determinado nicho musical, e “R.E.M. at the BBC” mostra isso em seus oito CDs que percorrem toda a trajetória do grupo. Além de hits óbvios como “The one I love”, “Losing my religion”, “Everybody hurts”, é possível ver o talento do grupo em faixas conhecidas principalmente pelos fãs, casos de “Crush with eyeliner”, “Daysleeper”, “Lotus”, “Why not smile”, “So fast, so numb”, “Country feedback”, “Half a world away”, “Walk unafraid”, “I took your name”, “Bang and blame”, enfim, uma lista que só não é interminável porque uma hora os CDs acabam. E como os cabras da peste eram bons ao vivo, basta ouvir a já citada “Everybody hurts” ou a versão de “E-Bow the letter” com participação especial de Thom Yorke, do Radiohead.

Mas o terceiro e principal motivo é a memória emotiva. Se você não tem isso, ah migo e ah miga, me desculpe, mas está perdendo muito nesta vida. É claro que se pode argumentar que as versões em estúdio já seriam suficientes, e que as próprias já poderiam gerar as tais memórias emotivas, certo? Certo. Mas quando se gosta de música do jeito que a gente gosta, e da forma como eu gosto do R.E.M. em particular, toda e qualquer coisa que vier da banda, por menor que seja a diferença entre uma música e outra, já provoca novas emoções, um novo sentido, e realimentam memórias de todo tipo, e isso faz toda a diferença do mundo.

Sabe por quê? Porque posso estar na rua, no shopping, no trabalho, em casa, e vai tocar uma versão de “Fall on me”, “Daysleeper”, “So. Central Rain” ou “Finest worksong” e vou lembrar do show no Rock in Rio, de um dos dias mais felizes de minha vida e de como foi emocionante ouvir essas músicas ao vivo. Ou a forma como “Lotus” lembra a época em que eu e meu amigo Lenny Santos ficávamos imitando o videoclipe no estúdio da extinta CBN Volta Redonda. Que “Why not smile” vai me lembrar que “Up” foi um dos presentes de Natal que mais gostei de ganhar; que “At my most beautiful” sempre reforça a certeza de como é bom amar, ser amado, que pode ser bobo mas emocionante cantar “Encontrei uma forma de fazer você sorrir”. Ah, cara, isso é de colocar lágrimas nos olhos, sabia?

Que “Everybody hurts” emociona até hoje, que tem um dos mais belos videoclipes que já assisti, com aquele final arrebatador com todos saindo do carro e desaparecendo; e que me dá uma tristeza ver aquele comercial do Médico Sem Fronteiras que passa na Globonews, pois mostra como a humanidade pode ser tão cruel. Das vezes que cantei “The one I love” e “Pop Song 89” enquanto tentava fazer Antônio dormir. Que tentei e nunca consegui decorar a letra de “Its the end of the world as we know it (And I feel fine)”, a melhor música sobre o final do mundo já feita pelo homem.
Como já escrevi em outras ocasiões, arte serve para pensar, refletir, questionar, protestar, resistir, divertir, sonhar, ir para outros mundos que só existem em nossa mente. E um dos motivos para a arte existir é provocar não só essas reações, mas (talvez) principalmente emocionar. Ouvir “R.E.M. at the BBC” é reviver todos esses antigos sentimentos, mas também se emocionar como se fosse a primeira vez. E espero que assim seja na próxima vez. E na próxima. E na próxima.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black



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