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O novo álbum de Melody’s Echo Chamber e os espiões pangarés de ‘Slow horses’

Por Júlio Black

04/05/2022 às 07h00 - Atualizada 04/05/2022 às 15h33

Oi, gente.

A francesa Melody Prochet é dona de uma das vozes femininas que me conquistaram na última década. Seu projeto solo, chamado Melody’s Echo Chamber, trazia no álbum de estreia diamantes musicais do quilate de “I follow you” (só A Leitora Mais Crítica da Coluna sabe o quanto AMO essa canção), “Some time alone, alone”, “Endless shore”, “You won’t be missing that part of me” e “Crystallized”, entre outras, numa irresistível mistura de pop francês, shoegaze, pop psicodélico, dream pop, pop, pop e mais pop. E o pacote era embalado pela belíssima voz etérea de Melody Prochet, e o resultado é que “Melody’s Echo Chamber” não saía da lista de álbuns favoritos no cartão de memória do celular.

Uma década depois, Melody Prochet lançou na última sexta-feira seu terceiro álbum, “Emotional eternal”, que aguardamos ansiosamente por semanas desde que foi anunciado. O trabalho é mais uma prova do talento e personalidade de mademoiselle Prochet, que nesse meio tempo havia lançado “Bon Voyage”, em 2018, muito elogiado por este que vos escreve na ocasião em que chegou às lojas e plataformas de streaming.

A exemplo do segundo álbum, “Emotional eternal” tem menos guitarras que “Melody’s Echo Chamber”, mas o pop e suas variações marcam presença de forma magistral em pouco mais de 35 minutos e nove músicas, a maioria delas marcadas por um contrabaixo que deixa o ouvinte com a vontade de bater o pezinho e chacoalhar de leve o esqueleto. Também é possível encontrar sintetizadores, instrumentos de cordas, flautas e outros instrumentos que deixam as canções a anos-luz de distância do pop pasteurizado que domina as paradas.

E essa leveza musical também marca presença nas letras, em que Melody Prochet parece ter encontrado o pote de ouro no final do arco-íris após a barra que encarou antes do lançamento de “Bon voyage”, adiado em um ano após o acidente em que sofreu um aneurisma cerebral e fratura em uma das vértebras. Desde então, podemos dizer que a vida da moça é só felicidade, ainda mais com o nascimento da primeira filha.

A prova de que o mundo de Melody’s Echo Chamber está mais leve, solto, colorido e arejado está presente em faixas como “Looking backward”, “Where the water clears the illusion”, “Personal message”, “Alma_the voyage” e na faixa-título. Se pensarmos que vivemos uma era em que vários artistas voltaram a apostar nos singles devido à efemeridade do universo virtual e da criação de playlists com apenas o que interessa ao ouvinte, “Emotional eternal” é um dos raros álbuns lançados, recentemente, que dão vontade de ouvir do início ao fim e no modo repeat.

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Esperar por Melody’s Echo Chamber, mais uma vez, valeu a pena.

Além de passar o final de semana em audição contínua de “Emotional eternal”, terminamos a primeira temporada de “Slow horses”, mais uma das ótimas séries produzidas pelo Apple TV+. Desta vez, trata-se da adaptação de uma série de livros de espionagem lançada, a partir de 2010, por Mick Herron, muito popular na Grã-Bretanha mas que ainda não teve tradução para o nosso português.

A produção tem como protagonistas um grupo de agentes do MI5, o serviço secreto britânico, mas sem o glamour ou aquele pezinho e meio na invulnerabilidade e invencibilidade que vemos num James Bond ou Ethan Hunt. Esses agentes, mais conhecidos como pangarés (o “Slow horses” do título), foram mandados para a Slough House, buraco perdido na sarjeta de Londres, destinado aos agentes incompetentes ou que fracassaram em missões, ou que ninguém suporta.

Entre esses pangarés estão o sujeito que esqueceu documentos secretos no trem e River Cartwright (Jack Lowden), neto de uma das lendas do MI5, mas que não é perdoado quando troca a cor da camisa de um suspeito durante o treinamento de contraterrorismo. O líder da divisão é Jackson Lamb (Gary Oldman), um dos mais famosos agentes do serviço secreto inglês, e que por isso mesmo ninguém entende o que está fazendo por lá, passando os dias enchendo a cara, soltando flatulências, mandando todo mundo ficar à toa e chamando seus comandados de “completamente inúteis”.

Cartwrigh, porém, estranha quando ele e outra agente (Olivia Cooke) são escalados para vigiar um jornalista de extrema-direita que havia caído no ostracismo. River desconfia que a missão pode ter ligação com o sequestro de um jovem descendente de paquistaneses, realizado por um grupo de extrema-direita que defende que a Inglaterra está ficando “menos britânica” e promete decapitar o garoto em breve.

“Slow horses” é uma série imperdível por bons motivos: a excelente qualidade do roteiro e da trama, ágil e dinâmica e com ótimos cliffhangers; o mistério envolvendo o sequestro e as motivações do MI5, como numa boa história de espionagem; as ótimas atuações do elenco, em especial Gary Oldman; o humor tipicamente britânico que permeia os seis episódios da temporada; e o fato de que Jackson Lamb está certo, pois os agentes da Slough House, em sua maioria, são realmente uns completos inúteis, e a incompetência, ali, é a regra. Imaginar como esse grupo de pangarés da espionagem pode ter alguma chance de encontrar os sequestradores e impedir a morte do refém é um dos baratos de “Slow horses”, que já tem uma segunda temporada garantida.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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