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Universos paralelos

Por Renan Ribeiro

21/08/2020 às 07h00 - Atualizada 21/08/2020 às 07h55

Por trás de cada “tô bem” que recebo em fontes padronizadas das redes sociais, há implícito um quê de: “você sabe bem como tudo está”. Ainda que cada um viva suas questões e tenha problemas particulares, o que está posto para o geral tende a nos tocar em sentimentos semelhantes, pelo menos entre os mais próximos. A resposta curta também carrega um outro sentido: as coisas podem não estar tão boas, mas seguimos no esforço para segurar as pontas.

Todo o ineditismo desses tempos surpreendeu até os cientistas que já anunciavam a possibilidade de uma pandemia há mais de cinco anos. As mudanças são grandes e assustadoras. Sentimos falta de boas notícias, de fazer coisas novas, de extrapolar o que é o possível para esse momento. Se a coisa aperta para nós, adultos, que ainda ficamos à deriva no mar de informações, fico imaginando como tudo isso se passa na cabeça das crianças.

Alice, minha sobrinha, de apenas 8 anos, manda mensagens diárias. A criatividade dela é notável. Sempre tem uma resposta para tudo, impressiona pela maneira rápida como formula soluções e cria histórias com várias personagens. Todos os dias, recebo notificações dela. Primeiro vem o desenho, depois um áudio que explica a história toda, tintim por tintim.

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Mas sei que por trás de toda essa disposição para inventar outras realidades, ela sente muita falta da escola, dos amigos, da convivência em um mundo sem a máscara da Mulher Maravilha, que ela me mostrou toda orgulhosa.

Embora a capacidade dela de criar seja muito alta, o trabalho de imaginar outros mundos fica mais confuso, quando o único universo que se pode acessar por aqui são os limites dados pelas paredes do apartamento.

Perguntei a ela qual a primeira coisa que ela pretende fazer quando tudo isso acabar. A resposta curta e direta: “Vou correndo para a rua gritar: liberdade! Liberdade!”. Ela não me perguntou de volta o que eu pretendo fazer quando for seguro estar de volta às ruas. Não me importei. Eu não saberia mesmo o que responder nessa situação.

Ao contrário dos adultos com quem lido, imersos em incertezas,  que andam ensimesmados, angustiados e ansiosos com o por vir, Alice me ensina a enxergar melhor as cores que estão bem na minha frente e eu não consigo ver. Com sua esperteza infantil, ela me deixa sem palavras e me faz pensar no aqui/agora. Do jeito dela, me conta que o futuro também pode ser inventado, ainda que não tenhamos a menor ideia de como ele será. São os desenhos e histórias caprichados de Alice que plantam alguma esperança. Se ela quiser mesmo sair gritando pelas ruas, eu quero estar com ela.

Renan Ribeiro

Renan Ribeiro

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