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Barrados na Disney

Por Renan Ribeiro

14/02/2020 às 06h00 - Atualizada 13/02/2020 às 23h44

No caminho que percorro todos os dias para voltar para casa, invariavelmente, encontro pessoas em situação de rua. Todos os dias doo-me ao vê-los dormir no chão duro, sujo, com suas coisas em volta; com a chuva, com vento e, pelo que percebo, na maioria do tempo, sem ter o que comer, onde usar um banheiro, se virando como podem.

Todos os dias, passo por trabalhadores em bancas improvisadas, vendendo o que podem para levar o sustento para casa. Sem qualquer tipo de garantia, sem previsão de um posto de trabalho legalizado. Isso também dói em mim.

Todos os dias, entro em galerias e sou abordado por crianças com caixas de jujubas nas mãos. Elas usam frases rápidas, às vezes pedem algo, além de tentar vender as balas. Talvez, de tudo o que vejo, essa seja uma das cenas que mais me deixa mal.

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Todos os dias, ouço reclamações dos trabalhadores sobre suas condições de trabalho. As muitas horas dedicadas ao serviço, com cada vez mais exigências e menos reconhecimento. Não são ouvidos, nem considerados, mas engolem todo o constrangimento goela abaixo, porque dependem daquele emprego. Mais responsabilidades e preocupações e menos direitos. Menos tempo para a família, menos tempo para se dedicar às suas próprias vontades e sonhos. Me preocupa que ouvir esses relatos não doam nas outras pessoas. Eu doo-me e acredito que nunca vou deixar de sentir.

Mesmo tentando voltar os olhos para o que considero belo, tentando perceber o que há de positivo no dia nas ruas pelas quais caminho, não consigo ignorar as realidades que vejo. Não consigo virar o rosto e fingir que não tem algo errado. Nem sempre consigo fazer algo por essas pessoas, sei que qualquer atitude minha, individual, por mais engajada que seja, não resolveria o problema. Também sei que cada uma dessas situações e muitas outras não seriam solucionadas apenas com a boa vontade do Poder Público. Existem uma série de mudanças em curso e vamos ter que aprender a lidar com elas.

Os desafios dos nossos tempos teimam em pesar sobre os ombros de todos. Porém, entristece-me pensar que há gente com poder para fazer algo, minimizar todas essas dores e ajudar a construir outro caminho, mas escolhe pensar que as pessoas mais vulneráveis são as culpadas por todas as crises; que entendem o acesso, mesmo que mínimo, como sinônimo de excesso.

Foto: Pixabay

A Disney está muito longe das necessidades urgentes que as ruas gritam para quem quiser ouvir e estiver disposto a encarar. Se características como sensibilidade, empatia e disposição fossem dotadas de valor monetário, provavelmente, grandes figurões seriam barrados na terra do Mickey.

Renan Ribeiro

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