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Sonhos e realidades

Uma frase adesivada em um carro e a distância entre sonho e a realidade despertam questões sobre a ligação entre uma coisa e outra

Por Renan Ribeiro

07/01/2022 às 07h00 - Atualizada 07/01/2022 às 07h45

Vesti a PFF2, liguei os fones de ouvido e selecionei uma lista de músicas agitadas, que ajudam a manter a caminhada em um ritmo legal. Lá pela terceira ou quarta volta na praça em que me exercito, comecei a me deter a alguns detalhes. Havia alguns dentes-de-leão apontando no canto do passeio, por exemplo. Do outro lado da praça, um homem passeava com um cachorro de porte grande, tranquilo e dócil. Reparei também em um carro branco, que já estava estacionado antes da minha chegada, na lateral da praça. Ele tinha um decalque com tipos bem desenhados, no qual lia-se: “Toda realidade um dia foi sonhada”.

O breve período me fez parar. Fiquei alguns segundos encarando a sentença. Imagino que a intenção do proprietário do veículo era ter uma frase de efeito, positiva, que causasse impacto por onde o automóvel passasse. Talvez, o próprio veículo fosse fruto de um sonho da pessoa que colou o adesivo. Se o objetivo era chamar a atenção, comigo funcionou. Podia estar escrito “Foi Deus quem me deu”, ou qualquer outra frase comumente flagrada estampando as latarias pelos semáforos da cidade afora. Mas ele escolheu um caminho diferente.

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Retomei meu trajeto pensando em exemplos positivos que pudessem ilustrar aquelas aspas. Logo veio à mente a notícia da formatura de uma grande amiga, que eu havia recebido naquela semana; na história de um conhecido que tinha conseguido começar em um novo emprego e estava se sentindo realizado com aquela conquista; a história de uma moça que foi morar sozinha em um novo estado e contava feliz sobre suas novas experiências.

Imaginei os esforços que cada um desses indivíduos precisaram empreender para chegar a cada uma dessas realidades. Até aí, a frase do carro fazia sentido para mim. Porém, fui picado pelo mosquito da discordância na volta seguinte. Nem todas as realidades foram sonhadas. A generalização me soou preguiçosa. Pensei no ano que acabou. Ninguém idealizava tantas mortes, dificuldades, tristezas e prejuízos. É difícil pensar que alguém pudesse sonhar e querer uma realidade tão desoladora. Imaginar que o cenário pudesse chegar a ser tão grave, por meio de dados e estudos científicos, era outra história. Pensei também nas vítimas das chuvas na Bahia e também do Norte de Minas. Seus depoimentos na TV e seus olhos perdidos na tragédia, enquanto falavam. Não havia qualquer possibilidade de sonho naquelas realidades.

Sou defensor ferrenho do direito de sonhar. Todos deveríamos ter condições justas para sonhar e criar realidades a partir de nossos desejos, porém, percebo que estamos muito distantes disso ainda. Sem contar com os acontecimentos que escapam de qualquer previsão. Impulsionado por essa energia de renovação que o Ano Novo traz consigo, eu proporia uma intervenção na frase do carro, estampando: “Que todo sonho bom crie uma nova realidade”. Que em 2022 tenhamos a oportunidade de voltar a sonhar e de construir realidades melhores.

Renan Ribeiro

Renan Ribeiro

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