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Estrangeirismos

Palavras estrangeiras estão cada vez mais entranhadas em nossa rotina. No entanto, sempre é tempo de (re)descobrir os termos deliciosos que temos aos montes na nossa língua

Por Renan Ribeiro

03/09/2021 às 07h00 - Atualizada 03/09/2021 às 00h15

Meus pais são meio avessos à adoção de estrangeirismos na fala coloquial. Quando comecei a usar computador e passei a inserir termos como pen drive, bluetooth e wi-fi, nas conversas, confundi mais um pouco a cabeça deles. Da porta de casa para dentro, a língua portuguesa é mais valorizada. Meu pai sempre briga com a smart TV, que teima em não obedecer aos comandos dele. Não raro, ele perde a paciência, por não conseguir acessar as plataformas com a rapidez que gostaria. Também briga com os programas de auditório de disputa de cantores, porque a maioria sempre escolhe músicas em inglês, quando a riqueza da música brasileira, para ele, deveria ser mais evidenciada nos repertórios dos participantes.

Fato é que, em alguns casos, o estrangeirismo venceu, de maneira inegável. Ninguém chama a air-fryer de fritadeira, todos sabem que o notebook é um instrumento de trabalho que uso diariamente, a lemon pepper virou um tempero comum nas prateleiras do armário, e todas as sextas-feiras ouvimos nosso podcast preferido.
Embora elas cheguem de mansinho e se instalem aos poucos, sem a pretensão de serem notadas, há outras palavras que jamais serão substituídas, porque há uma estima muito grande por elas.

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Mês passado foi aniversário de uma grande amiga. Ela gosta muito de cerâmicas, e combinamos de presenteá-la com conjunto de duas peças. Numa delas, está gravada a palavra chamego, e na outra, cafuné, que são duas insubstituíveis e não há expressão estrangeira que dê conta de traduzir com o mesmo charme. Qual foi a minha surpresa – sendo sincero, foi mais uma decepção – quando percebi que o nome de uma das peças era bowl. Encarei aquela pequena palavra cuja pronúncia faz a língua remexer toda dentro da boca. Uma peça feita à mão, com uma palavra repleta de carinho gravada, mas com um nome que não faz jus à sua beleza. Fiquei com vontade de mandar uma queixa, mas sabia que o melhor era guardar a implicância no bolso. Na cristaleira dela, a peça é cumbuca e pronto, ela também prefere, sem discussão.

Fiquei de fato encucado, porque aqui em casa, esse tipo de vasilhame sempre foi chamado de cumbuca. Se temos no nosso vocabulário a palavra cumbuca, não me parece vantajoso trocar por bowl. Já tinha ouvido o termo em competições culinárias de TV, mas não tinha sentido incômodo ainda. Comentando sobre o assunto com um professor e amigo, e ele me disse que, na casa dele, havia outra forma de falar: cambuca. Essas variações também são deliciosas!

Nessa conversa, lembramos de uma das máximas do genial Ariano Suassuna: “Não troco meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém”. Se ele falou, quem sou eu para discordar?! Aqui, a regra também é essa. Na possibilidade de trazer para o nosso jeito, de ressaltar o que temos de belo, de cobrir tudo com um significado nosso, não tem porquê fazer diferente. Que todo mundo se sinta à vontade para falar como preferir, com ou sem estrangeirismo, porém, que saibam que “macaco velho não põe a mão em cumbuca”, porque nesse caso, bowl não encaixa.

Renan Ribeiro

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