
Empreender raramente começa com todas as respostas. Na maioria das vezes, começa com uma decisão, coragem e a disposição de aprender no meio do caminho. A trajetória da empresária Ana Luisa mostra exatamente isso: uma história construída passo a passo, entre desafios, erros, acertos e muita persistência.
Formada em Direito, ela nunca imaginou que assumiria a gestão de uma rede de farmácias. A história começou quando seu irmão, farmacêutico, abriu a primeira drogaria Barateira no bairro Filgueiras. Pouco tempo depois, surgiu a oportunidade de assumir um ponto comercial no Centro da cidade — um espaço que anteriormente funcionava como loja de roupas da família do marido de Ana Luiza.
Foi assim que nasceu a segunda unidade do negócio.
Hoje, olhando para trás, ela reconhece que a decisão foi tomada com muito mais coragem do que planejamento.
“Se a gente soubesse tudo o que envolve abrir uma loja no Centro, talvez tivesse pensado duas vezes. Foi uma decisão muito intuitiva. A gente foi sem dimensionar todos os riscos”, relembra.
A unidade foi inaugurada com uma equipe pequena: apenas os dois sócios e três funcionários. Não havia experiência anterior em gestão, planejamento estratégico ou controle financeiro detalhado. O que existia era vontade de fazer acontecer.
E foi exatamente assim que o negócio começou a se desenvolver: aprendendo enquanto fazia.
As dificuldades apareceram rapidamente. A burocracia do setor farmacêutico, a gestão de pessoas, o fluxo de caixa, o pagamento de fornecedores, a organização de comissões e a divisão de responsabilidades dentro da empresa foram desafios que surgiram logo nos primeiros meses.
Sem consultorias ou orientações formais, o aprendizado aconteceu na prática.
“A gente foi aprendendo conforme os problemas iam aparecendo. Tudo que existe hoje como regra dentro da empresa nasceu de algum erro que aconteceu lá atrás. Foi tentativa e erro mesmo”, conta.
Com o passar do tempo, os processos começaram a se organizar e a empresa ganhou estabilidade. O que começou com uma unidade e poucos funcionários foi se transformando em algo maior.
Hoje, a rede conta com quatro drogarias: as unidades de Filgueiras e do Centro, uma no bairro Granjas Betânia e outra na cidade de Piau. Juntas, elas empregam cerca de 28 colaboradores e atendem diariamente centenas de clientes.
Para Ana Luiza, dois dos maiores desafios ao longo dessa jornada foram aprender a lidar com pessoas e administrar o financeiro da empresa.
“Quando você não tem uma formação específica em gestão, essas áreas são as mais difíceis. Ninguém te entrega uma fórmula pronta dizendo como fazer. Você precisa entender o que está acontecendo, errar, corrigir e melhorar”, explica.
A gestão de equipes, em especial, foi uma experiência transformadora. Com o tempo, ela percebeu que uma das características que mais contribuem para uma liderança equilibrada é a capacidade de escutar.
“Acho que existe uma característica feminina muito importante na gestão, que é o acolhimento. Eu procuro ouvir muito o que os funcionários têm a dizer. Eles vivem a realidade de cada setor e muitas vezes percebem coisas que a gente não vê”, afirma.
Essa postura de escuta não significa concordar com tudo, mas compreender diferentes pontos de vista antes de tomar decisões.
“Nem sempre vamos conseguir atender todas as sugestões, porque o gestor precisa olhar o negócio como um todo. Mas ouvir é essencial.”
Enquanto a empresa crescia, outro desafio também fazia parte da rotina: equilibrar a vida profissional com a vida pessoal.
Ana Luisa é mãe de dois filhos, de 10 e 11 anos, e faz questão de manter presença ativa na rotina das crianças. Para isso, seu dia é cuidadosamente organizado.
Ela acorda cedo, leva a filha à escola, acompanha tarefas, organiza o café da manhã com o filho e segue para o trabalho. Durante o dia, muitas vezes precisa sair da farmácia para levar ou buscar as crianças, acompanhar atividades ou resolver questões da casa.
Morar a poucos minutos da loja ajuda a tornar essa rotina possível.
“Meu dia é dividido em horários. Eu tento estar presente na vida deles dentro da realidade que tenho. Não sou uma mãe que pode ficar o tempo todo em casa, mas faço questão de participar do que é importante”, conta.
Para ela, aceitar a própria realidade é parte fundamental desse equilíbrio.
“A gente precisa parar de se comparar tanto. Cada mulher tem uma rotina, uma história e desafios diferentes. Não existe alguém que dá conta de tudo perfeitamente.”
Essa visão também aparece quando ela fala com outras mulheres que estão começando a empreender ou enfrentando momentos difíceis na carreira.
“O que eu aprendi é que ninguém consegue dar conta de tudo ao mesmo tempo. A vida é um equilíbrio constante de pratinhos. Às vezes um lado exige mais atenção, às vezes outro.”
Mesmo com tantos desafios ao longo do caminho, desistir nunca foi uma opção que ganhou força.
Um dos fatores que reforçam sua responsabilidade como gestora é o impacto que a empresa tem na vida de outras pessoas.
“Hoje são quase trinta famílias que dependem do trabalho daqui. Isso traz uma responsabilidade muito grande. Saber que o sustento de muita gente passa por esse negócio faz a gente pensar muito antes de qualquer decisão.”
Quando olha para a própria trajetória, Ana Luisa acredita que duas características pessoais foram determinantes para o crescimento da empresa: disciplina e compromisso com aquilo que se propõe a fazer.
“Eu sou uma pessoa que segue planos. Muitas coisas acontecem no caminho, mas se eu decidi que vou fazer algo, eu continuo até conseguir.”
Essa determinação, combinada com aprendizado constante, ajudou a transformar uma iniciativa quase intuitiva em um negócio sólido e em expansão.
A história de Ana Luisa mostra que empreender nem sempre nasce de um plano perfeito. Muitas vezes, nasce da coragem de começar, da disposição para aprender e da capacidade de seguir em frente mesmo quando o caminho ainda não está completamente claro.
E, para quem acredita que liderança se constrói apenas com certezas, sua trajetória deixa um lembrete importante: às vezes, o verdadeiro empreendedor é aquele que aprende a caminhar enquanto constrói o próprio caminho.
