Os trabalhadores por aplicativo no Brasil já superam a média salarial dos demais profissionais do setor privado. É o que aponta levantamento recente do IBGE, que revela: motoristas e entregadores de plataformas digitais receberam, em 2024, rendimento mensal de R$ 2.996, valor 4,2% acima da média nacional.
No entanto, esse dado positivo esconde um desequilíbrio preocupante. Para alcançar esse patamar de renda, esses trabalhadores precisam dedicar muito mais tempo ao serviço, em jornadas longas que superam em mais de cinco horas semanais a carga horária dos demais trabalhadores.
Trabalhadores de aplicativo já ganham salário maior que a média
O estudo faz parte de uma edição experimental da PNAD Contínua e foi realizado em parceria com a Unicamp e o Ministério Público do Trabalho. Pela primeira vez, o IBGE analisou de forma mais ampla a realidade dos brasileiros que têm nas plataformas digitais sua principal fonte de renda.
Foram considerados trabalhadores com 14 anos ou mais, excluindo servidores públicos e militares. Em 2024, 1,7 milhão de pessoas estavam nessa condição, número que representa 1,9% do total de ocupados no setor privado e que cresceu 25% em dois anos.
Apesar da remuneração média superior, o estudo mostra que os chamados “plataformizados” trabalham em média 44,8 horas por semana, contra 39,3 horas dos demais. Isso significa que o ganho extra está diretamente associado à maior carga de trabalho.
Quando se observa o valor da hora trabalhada, a realidade se inverte: os trabalhadores por aplicativo recebem R$ 15,40 por hora, contra R$ 16,80 dos não plataformizados.
Ou seja, ganham mais apenas porque trabalham mais e, proporcionalmente, ganham menos.
Trabalhadores de aplicativos buscam liberdade e autonomia, mas recebem excesso de horas trabalhadas e instabilidade, mostra levantamento do IBGE
Esse cenário é agravado por outros fatores: a baixa proteção social e os altos níveis de informalidade. Apenas 35,9% dos trabalhadores por aplicativo contribuem para a Previdência, número muito abaixo dos 61,9% entre os trabalhadores formais.
Além disso, mais de 70% atuam sem qualquer vínculo empregatício ou direito trabalhista garantido.
Na prática, a promessa de liberdade e autonomia oferecida pelas plataformas se traduz em instabilidade, excesso de horas e renda variável. Embora a remuneração aparente seja mais alta, ela não compensa a ausência de garantias trabalhistas.
O estudo reforça que, no longo prazo, empregos formais com carteira assinada seguem oferecendo maior segurança e melhores condições de vida.





