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Sandra e os latidos

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Quando Sandra era menina, seus pais tinham uma pequinesa chamada Suzy. Cara amassada, cor de caramelo. Latia o dia inteiro e jamais ficava rouca. Uma coisa incrível. Os vizinhos ficavam enlouquecidos com a latição de tripla jornada, manhã, tarde e noite, com pausas apenas para breves cochilos.

– Vamos dar bolinha -, disse a vizinha.

– Não se faz isso com animal -, retrucou o marido.

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– Então vamos dar pra dona do cachorro.

– …

Mas eram bons vizinhos tementes a Deus e deixaram de lado aquelas ideias, e acostumaram-se ao latido incessante de Suzy. Com o tempo morreram os pais de Sandra e depois Suzy. Adulta, a moça arranjou outro cão, igualmente histérico. Um terrier chamado Jorge, que pequinês já estava muito old-fashioned, bem como apelidos ianques. Dramático, latia no frio, no calor, à noite, de dia. Mas morreu cedo. Câncer nos ossos.

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– Foi mau-olhado seu.

E Sandra arrumou uma yorkshire. Chamava Leia. Por causa da Princesa Leia. E era boazinha demais. Dócil, não latia para estranhos, não latia para conhecidos. Não latia nada. A rua viveu um período de harmonia e tranquilidade como há muito não se via. Ou ouvia.

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O silêncio, todavia, tornou-se aos poucos insuportável para Sandra. Não sabia viver sem os ladridos. Era como se o mundo estivesse subitamente esvaziado de sentido. Era preciso fazer algo.

Sandra decidiu então submeter Leia a algumas privações. Primeiro deixou ao relento. Nada de latir. Prendeu em uma corrente. Nada de latir. Bateu. Leia ganiu baixinho, correu, se escondeu no arbusto de vincas. Mas não latiu.

Por fim, Sandra decidiu impor à cadela longos períodos sem comida. Aí sim, Leia começou a latir. Três dias sem ração, Leia ladrava. Dois dias. Um dia. Doze horas. Leia aprendeu que seria atendida se latisse. E mesmo que a comida não viesse – e demorava muito a vir -, ela persistia latindo, porque sabia que uma hora teria sua fome saciada.

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Foi adestrada a latir até perder a voz.

E até hoje Sandra acha que gosta de cachorros.

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