Ícone do site Tribuna de Minas

Juiz de Fora como potência na observação de aves

045 menor

Tucanuçu, fotografado por Nilo Stephan, em Juiz de Fora.

PUBLICIDADE

 

<
>
Topetinho vermelho, um dos menores beija-flores. (Foto: Nilo Stephan, em Juiz de Fora/MG)

 

PUBLICIDADE

 

No normalizado caos que se consolidou a vida urbana, como um recado bem dado da força da natureza, lá no alto das árvores ou nas matas remanescentes, e mesmo nos emaranhados fios e cabos a nos conectar ou desconectar, ainda resistem algumas das nossas irmãs aladas. Aqui em Juiz de Fora, mesmo nos bairros centrais, é comum a gritaria de maritacas a nos lembrar que não estamos sós. Há pouco tempo, quase duvidei quando avistei um tucano na região da Olegário Maciel! Sim, as aves ainda vivem entre nós, e são muitas na cidade.

O WikiAves, plataforma on-line que reúne fotografias, sons e informações sobre as aves silvestres do Brasil, contabiliza 365 espécies de aves encontradas em Juiz de Fora. Os registros são o resultado de anos de trabalho de centenas de observadores de aves da cidade inscritos na plataforma.

Segundo Reinaldo César Guedes, fundador e administrador do WikiAves, são mais de 340 observadores juiz-foranos cadastrados, entre eles, os integrantes do Clube de Observadores de Aves de Juiz de Fora (COA-JF), que atua como uma rede em tempo real, monitorando e comunicando o registro de espécies raras na nossa região. “Nossa cidade está imersa na Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos e biodiversos do planeta. Somos muito privilegiados por essa proximidade, embora boa parte dessa riqueza ainda permaneça escondida nas matas e nas áreas rurais, longe dos olhos do dia a dia urbano”, comenta.

PUBLICIDADE

Ciência cidadã e conhecimento acessível

Reinaldo é de Juiz de Fora, nasceu e reside no município, e, com um repertório profissional amplo como analista de sistemas especializado em Administração de Bancos de Dados, lançou o WikiAves em 2008 como um projeto pessoal, que integrava seu interesse por aves e por tecnologia. “Mas, em pouco tempo, o WikiAves se mostrou um projeto com vida própria, com grande potencial de impacto e capaz de transformar a forma como muitas pessoas observam, registram e conhecem as aves brasileiras”, conta Reinaldo, que destaca como o site se tornou uma base de conhecimento colaborativa sobre as quase 2 mil espécies da avifauna brasileira.

Com a contribuição de 56 mil colaboradores de todo o país, entre fotógrafos, pesquisadores, biólogos e amantes da natureza, o WikiAves reúne, hoje, mais de 6 milhões de fotos e perto de 340 mil registros sonoros de nossas aves. “O WikiAves se tornou uma importante fonte de dados para a comunidade científica e uma das principais iniciativas de ciência cidadã do Brasil. É construído pela contribuição coletiva de milhares de pessoas e pelo cuidado em transformar esses registros em conhecimento acessível, organizado e útil para a pesquisa, a conservação e a valorização da biodiversidade brasileira. A plataforma já soma mais de 3 mil citações em artigos científicos, segundo o Google Acadêmico”, aponta Reinaldo.

PUBLICIDADE

Turismo de observação de aves

O biólogo e observador de aves Nilo Stephan, também de Juiz de Fora, é um dos colaboradores mais ativos do WikiAves, com diversos registros catalogados, grande parte, de animais da cidade. “Vou a alguns lugares como o Jardim Botânico, Parque da Lajinha, Poço d’Anta e várias áreas particulares, e principalmente ao bairro onde moro, o residencial Tiguera”, conta Nilo, que enumera os sabiás, bem-te-vis, suiriris, saíras, sanhaços, maracanãs e periquitões (os dois últimos, as populares maritacas), como as aves mais comumente vistas por aqui.

Na percepção do biólogo, que ainda atua no desenvolvimento do turismo de observação da vida silvestre, o turismo de observação de aves no Brasil está em franco desenvolvimento, atraindo, inclusive, o público internacional e movimentando a economia. Nesse cenário, Reinaldo Guedes acredita que Juiz de Fora possa se destacar. “Mas esse salto depende da estruturação de uma cadeia de serviços especializados, como guias locais qualificados e hospedagens preparadas para receber esse público”, acrescenta.

A observação de aves, ou birdwatching, a depender das áreas visitadas e trilhas percorridas, pode ser entendida como uma atividade acessível e democrática. “Qualquer um pode observar aves. Um binóculo e uma câmera fotográfica podem ser caros, mas muitos observadores europeus e americanos não fotografam, só anotam numa caderneta as espécies encontradas”, exemplifica Nilo.

PUBLICIDADE

Aves e a proteção ambiental

Além de promover o bem-estar e a integração com a natureza, a observação de aves desenvolve o senso de comunhão com os animais silvestres e de preservação da fauna e das áreas verdes, não apenas no entorno, mas nas próprias áreas centrais urbanas. “Este contato com ambientes naturais é muito saudável e traz muita tranquilidade e paz”, diz Nilo Stephan. “A preservação de áreas verdes é fundamental para a observação de aves”, reflete, pontuando que a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) tem se preocupado em criar novas áreas protegidas, como os parques do Poço d’Anta e de São Pedro.

Entretanto, ainda há muito a ser feito nesse sentido. Para Reinaldo Guedes, Juiz de Fora tem potencial para se tornar um polo de proteção, desde que haja a preservação dos ecossistemas onde vivem as aves, que, vale lembrar, são importantes bioindicadores. “As áreas verdes preservadas próximas ao centro urbano, como a Reserva Biológica Poço D’Anta, desempenham um papel crucial. Nesses locais, muitas espécies florestais encontram refúgio seguro, mas o cenário muda quando olhamos para outros habitats”, avalia.

O fundador do WikiAves cita o exemplo das espécies que dependem diretamente das margens de rios e lagos. “Pensando especialmente no Rio Paraibuna, a cidade ainda está em débito. Apesar de termos bons exemplos de iniciativas locais, enfrentamos um longo trabalho de conscientização e transformação social para livrarmos nossas águas, lagos e ruas do lixo e da poluição. É importante apoiarmos e cobrarmos políticas públicas que busquem reverter esse quadro”, ressalta.

PUBLICIDADE

Se é certo que no caminho do olhar para o céu e o horizonte de Juiz de Fora há a paisagem ruidosa e desordenada, cravada de edifícios, postes, cabos e poluição, é também em voos, sobrevoos, pousos e cantos livres das aves que podemos encontrar respostas para uma vida mais empática e compartilhada com os animais e a natureza, mais rica, saudável e sustentável na nossa cidade.

Sair da versão mobile