Vivemos em um mundo que nos surpreende constantemente. Nunca tivemos tantos medicamentos, tantos exames, tantas altas tecnologias para prolongar a nossa vida. Mas, silenciosamente, cada vez mais cresce uma epidemia que não aparece nos resultados laboratoriais: a falta de afeto. Não existe comprimido para a solidão.
Não há cápsula milagrosa capaz de substituir um abraço forte e sincero; uma visita inesperada ou um olhar que reconhece a existência do outro. A expressão do afeto continua sendo um dos mais poderosos remédios da condição humana, mas, infelizmente, ele não é vendido nas farmácias, nem pode ser adquirido por aplicativos de entrega. Mercado livre!!!
A cidade está perdendo a capacidade de produzir encontros. Como corremos de um compromisso para o outro! Conectados por telas, inundados de mensagens de WhatsApps e relações cada vez mais frágeis. Estamos, sim, conectados ao mundo inteiro, mas, na maioria das vezes, estamos desconectados da pessoa que mora ao lado da nossa casa. Desconectados de nós mesmos, o que é pior.
Como faz falta a manifestação do afeto. Porque é o afeto que fortalece os nossos vínculos, produz pertencimentos, reduz sofrimentos e ajuda a gente a enfrentar as adversidades da vida. Com certeza, onde existe afeto, há mais disposição para viver, para participar e para sonhar.
Para as pessoas idosas, essa realidade pode ser ainda mais dura: a falta de afeto. Com a aposentadoria pode haver (ou não) redução dos espaços de convivências. Alguns amigos morreram. Familiares mudaram de cidade. Nossa casa fica sendo, de fato, nossa moradia. Assim, aos poucos, se a gente não reagir, o risco de isolamento social vai ocupando os lugares antes preenchidos por histórias, risos e projetos.
Num mundo como o nosso, que valoriza a produtividade em massa, o desempenho da performance o tempo todo e o consumo desenfreado, o afeto insiste em nos lembrar que somos seres de relação: que ninguém deveria envelhecer sozinho; que o desejo de ter autonomia ao envelhecer não elimina a necessidade de ter cuidado; que a independência desejada na maturidade não substitui a companhia de pessoas amadas.
Vivemos um enorme paradoxo — a sociedade investe milhões em equipamentos, obras e tecnologias, mas, quanto ela investe na construção de vínculos humanos? A nossa longevidade precisa ser medida em encontros, pertencimentos e possibilidades de trocas com as pessoas.
Viver mais só faz sentido quando existe com quem compartilhar a vida (eu penso assim). Por isso cabe a pergunta, caros leitores e leitoras: quantas vezes reservamos um tempo sem relógio para uma conversa com nossos familiares e/ou amigo/as?
É certo que o afeto não cura as nossas doenças. Mas, sem ele, a nossa dor é bem maior. Ela não fica abandonada. Torna o nosso caminho menos árido. Estamos cientes de que o afeto não está à venda nas prateleiras das farmácias. Mas, é um remédio de acesso universal. Basta que a gente esteja disposto a prescrevê-lo uns aos outros, todos os dias, nas nossas caminhadas diárias.

