Nós envelhecemos na cidade. A cidade está nas rugas dos rostos que atravessam lentamente as ruas. Nas mãos que procuram apoio para subir uma calçada. No olhar de quem espera alguns segundos a mais para atravessar a avenida Rio Branco. Uma cidade que é boa para as pessoas idosas, é boa para todos. Quando uma calçada é segura para quem caminha com dificuldade, ela também é melhor para a criança, para a pessoa com deficiência, para a gestante, para quem empurra um carrinho de bebê.
Quando o transporte público respeita o tempo de quem envelheceu, ele se torna mais educado para todos. O “x” da questão é que moramos em cidades, como se nós não fôssemos envelhecer. Só que envelhecemos. Essa é uma das nossas maiores contradições: desejamos chegar à velhice, mas não criamos um mundo onde seja digno envelhecer. Precisamos mudar essa ideia de que envelhecer significa desaparecer. Ficar dentro de casa; perder autonomia; deixar de participar da vida da cidade ou tornar-se invisível aos olhos da sociedade. Nada disso.
Uma cidade que se enxerga como sendo democrática é aquela que não mede seus cidadãos pela velocidade com que caminham. Pela força que possuem. Ou pela produtividade que conseguem oferecer. Essa cidade democrática compreende que cada idade tem seu tempo. E que o tempo dos idosos, o nosso tempo, o meu tempo é um tempo de sabedoria, memória, afeto e cidadania.
Está na hora de olharmos para JF, com outros olhos: perguntar não apenas onde estão os grandes projetos, as grandes obras, mas, principalmente, potencializar ainda mais os espaços de convivência, os espaços de cultura, os espaços de lazer, os espaços de cuidados para as pessoas idosas. Acredito que uma cidade que acolhe as pessoas idosas em sua rotina urbana, faz, sem dúvida, um pacto verdadeiro e muito importante com o seu futuro. Eu penso que quando moramos numa cidade onde a gente possa envelhecer com dignidade, autonomia e pertencimento – estamos testemunhando a vida em todas as idades com muita dignidade. Como medir a qualidade de vida que uma cidade oferece a seus moradores?
Acredito que passa necessariamente pelo tratamento social dispensado a quem envelheceu e envelhece vivendo nela. Se a pessoa idosa consegue caminhar com segurança; utilizar o transporte público; acessar os serviços de saúde; encontrar espaços de convivência e ser tratado com civilidade, há, sim, boas razões para acreditar que essa cidade também está cuidando de suas crianças, de suas famílias e de todos aqueles que enfrentam alguma limitação no dia a dia. Uma cidade inclusiva, que eu desejo firmemente que a nossa, cresça cada vez mais nessa direção, não vai deixar ninguém para trás. Porque cuidar bem de quem envelhece é cuidar da cidade que todos nós queremos viver.

